Adelaide Valle Pires
Psicóloga
No dia 12 de março deste ano, completaram-se 12 anos da partida do meu marido.
Desde então, o número 12 passou a me visitar de formas diferentes. Por isso pensei em Procurando Memo nos Rios do Caminho, meu primeiro romance escrito, justamente quando o calendário se aproximava de mais um Dia dos Namorados.
O romance nasceu logo após a conclusão de um curso sobre planejamento de romances.
Hoje percebo que eu não estava apenas escrevendo uma história.
Estava conversando com a minha própria história.
Na dedicatória escrevi:
“Doze anos depois, aprendi que algumas presenças não desaparecem. Apenas se tornam parte do caminho. Para você, que segue caminhando comigo de outro jeito.”
Recentemente, assistindo a uma série, ouvi uma frase que ficou martelando na minha cabeça. O personagem dizia que, se alguém lhe perguntasse qual havia sido o dia mais feliz da sua vida, sua resposta seria sempre a mesma: este momento aqui e agora. Não importa quanto tempo lhe restasse. O importante era viver sem arrependimentos.
E quase consigo ouvir, em silêncio, o Roberto cantando:
“Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi…”
Aquela fala encontrou outra lembrança guardada na primeira página de um caderno de meu pai:
“Para aqueles a quem chamamos de mortos, a morte não é o problema. O problema é serem esquecidos.”
Passei os dias seguintes pensando nessas duas frases.
Elas conversam entre si.
Ambas falam da mesma escolha.
A escolha de viver o presente quando ele é presente.
Minha história não foi um conto de fadas.
Como em qualquer relacionamento, houve alegrias e dificuldades, encontros e desencontros, acertos e desacertos. Houve também os longos anos de convivência com a doença.
Ainda assim, quando olho para trás, não encontro espaço para arrependimentos.
Vivemos os momentos que precisavam ser vividos.
Por isso escrever Procurando Memo nos Rios do Caminho foi uma experiência tão especial.
Ao escrever o romance, compreendi que ele falava de mais de uma história de amor.
A primeira é a história vivida ao lado do meu marido.
A segunda é a história que descobri com a escrita.
E a terceira é o encontro comigo mesma que aconteceu entre uma e outra.
Ao escrever, compreendi que o verdadeiro oposto do esquecimento não é a lembrança.
É a escolha de continuar dando significado ao que foi vivido.
Foi isso que encontrei nas páginas do romance.
Não uma tentativa de voltar ao passado.
Nem uma forma de corrigir a história.
Mas uma maneira de eternizar um momento.
De permitir que uma presença continuasse existindo de outro modo.
Na contracapa do protótipo escrevi que se trata de “um romance breve sobre travessias. Sobre presenças que se transformam. Sobre o entendimento de que a felicidade não está no fim da história; ela nasce no próprio ato de seguir”.
Hoje acrescentaria apenas uma linha.
Alguns amores não terminam.
Apenas mudam de forma.
E continuam caminhando conosco.
Aqui. Agora.



