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EDITORIAL | Mauro e Dinah: quando a vida é contada sem pressa - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | Mauro e Dinah: quando a vida é contada sem pressa

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Há entrevistas que informam. Outras emocionam. E existem aquelas raras conversas que fazem o leitor fechar os olhos por alguns instantes para enxergar melhor. A história de Dinah Toledo Silva Rodrigues e Mauro de Almeida Rodrigues pertence a esse último tipo.

Ela não tem pressa.

Corre no tempo manso das águas do Velho Chico, daquele jeito que o rio ensina ao sertanejo: sem atropelar as margens, sem fazer alarde da própria grandeza.

Em tempos em que quase todo mundo mede a própria trajetória pelos cargos ocupados, pelos títulos conquistados ou pelas fotografias publicadas, Dinah e Mauro preferem contar a vida pelas pessoas que encontraram no caminho. Pelos pais. Pelos irmãos. Pelos amigos. Pela cidade que os acolheu. Pela mesa farta, mesmo quando o dinheiro era curto. Pela palavra honestidade, repetida como quem reza um terço.

E isso muda completamente o tom da conversa.

Não há vaidade.

Não há heroísmo fabricado.

Não há tentativa de parecer extraordinário.

Existe apenas a beleza despretensiosa de quem atravessou a vida acreditando que caráter vale mais do que currículo.

Dinah fala da infância como quem ainda sente o cheiro do café passado na cozinha da mãe. Lembra do salão de beleza, dos bobs enrolados nos cabelos das freguesas, das primeiras unhas feitas ainda menina e do encantamento ao ouvir uma funcionária do Banco do Brasil descrever o trabalho. Não romantiza a pobreza. Também não a transforma em tragédia. Apenas reconhece que foi naquele chão simples que aprendeu disciplina, curiosidade e dignidade.

Mauro chega pela outra estrada.

Nasceu em Belo Horizonte, mas a alma foi ganhando sotaque geraizeiro. Conta das dificuldades financeiras sem qualquer ressentimento. Recorda o pai dizendo que a maior herança seria o estudo. Lembra da aprovação na Polícia Civil recusada por respeito à vontade da mãe. Sorri ao recordar o rigoroso teste de datilografia e os dias em que, com poucos recursos, acampou às margens do Rio São Francisco durante o período do concurso que abriria as portas para sua carreira no Banco do Brasil.

Em nenhum momento há reclamação.

Há gratidão.

Talvez seja justamente esse o fio invisível que costura toda a entrevista.

A gratidão.

Gratidão pelos pais.

Pelos professores.

Pelo Banco do Brasil, que transformou o destino dos dois e, anos mais tarde, confiou a Mauro a missão de administrar a AABB de Montes Claros, cedendo-o para se dedicar integralmente ao clube.

Por São Francisco.

Por Montes Claros.

Pela família construída.

Pela vida.

O amor dos dois também aparece do jeito mais mineiro possível.

Sem discursos.

Sem exageros.

Sem frases prontas.

Ela diz que procurava um homem honesto.

Ele responde, entre risos, que tudo começou porque ela subiu em sua motocicleta e nunca mais desceu.

E, de repente, quatro décadas de casamento cabem em uma única frase.

Há algo profundamente geraizeiro nisso.

No Norte de Minas, afeto raramente faz barulho.

Ele se revela nos gestos pequenos.

Na companhia silenciosa.

Na parceria que atravessa décadas.

Na capacidade de caminhar lado a lado sem disputar quem aparece mais.

Talvez por isso a entrevista tenha um sabor tão diferente.

Ela lembra aquelas prosas de varanda, quando o café já esfriou na xícara, o sol vai descendo atrás da serra e ninguém percebe que duas horas passaram.

A conversa também deixa escapar uma saudade bonita de um tempo em que as cidades eram menores, os clubes reuniam famílias, os torneios de futebol aproximavam vizinhos e os bailes promovidos pelas escolas movimentavam comunidades inteiras.

São Francisco aparece quase como personagem.

Não como cenário.

É o lugar onde dois jovens aprenderam a ser adultos.

Onde fizeram amigos.

Onde criaram os filhos.

Onde construíram a casa.

Onde descobriram que pertencimento não depende da certidão de nascimento.

Depois veio Montes Claros.

E Mauro, nascido em Belo Horizonte, faz talvez a mais bonita declaração que um cidadão pode oferecer a uma cidade: diz que seu coração é montes-clarense.

Não por obrigação.

Mas por escolha.

No fundo, essa entrevista não fala apenas de Dinah e Mauro.

Ela fala de uma geração inteira.

Da geração que acreditava que o estudo podia mudar destinos.

Que fazia concurso com uma apostila debaixo do braço.

Que viajava com pouco dinheiro no bolso e muitos sonhos na bagagem.

Que treinava datilografia até os dedos doerem.

Que construía patrimônio sem atalhos.

Que fazia da honestidade um sobrenome.

No sertão das Gerais existe um ensinamento silencioso: árvore boa não faz barulho para crescer.

Ela apenas cria raízes.

Ao terminar essa conversa, fica a impressão de que Dinah e Mauro nunca quiseram ser protagonistas de coisa alguma.

Quiseram apenas viver direito.

E talvez seja justamente isso que torne suas histórias tão grandes.

Porque, no fim das contas, algumas vidas não precisam ser extraordinárias para se tornarem inesquecíveis.

Basta que sejam verdadeiras.