Mesmo localizado a mais de 15 mil quilômetros do Brasil, país asiático transforma ruas em um mar verde e amarelo a cada Mundial e reforça uma das mais curiosas histórias de amor pelo futebol internacional
Enquanto milhões de brasileiros acompanham a caminhada da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026, uma torcida em especial tem chamado a atenção do planeta. A milhares de quilômetros de distância, em Bangladesh, multidões vestidas de verde e amarelo tomam as ruas, decoram casas, pintam muros e celebram cada partida do Brasil como se estivessem em solo brasileiro.
As imagens registradas na capital Daca e em diversas cidades do país asiático viralizaram nas redes sociais nos últimos dias, mostrando milhares de torcedores reunidos para assistir aos jogos da Seleção, agitando bandeiras gigantes e promovendo festas que impressionaram até mesmo os jogadores brasileiros.
Embora o críquete seja o esporte mais popular em Bangladesh, o futebol ocupa um espaço especial no coração da população durante as Copas do Mundo. A cada quatro anos, o país revive uma tradição que atravessa gerações e transforma bairros inteiros em verdadeiros redutos brasileiros.
Uma paixão construída ao longo das décadas
A ligação entre Bangladesh e a Seleção Brasileira tem origem na década de 1970, pouco tempo após a independência do país, conquistada em 1971.
Naquela época, o acesso à televisão era limitado, e as informações esportivas chegavam principalmente por rádio e jornais. Foi nesse contexto que a figura de Pelé passou a despertar enorme admiração entre os bengalis.
O “Rei do Futebol”, negro, nascido em um país em desenvolvimento e que havia superado inúmeras dificuldades sociais, tornou-se símbolo de esperança para uma população que também enfrentava desafios econômicos e buscava referências de sucesso.

Essa identificação ajudou a consolidar a imagem do Brasil como uma nação admirada não apenas pelo futebol, mas também pela capacidade de superar adversidades.
O encanto da Seleção de 1982
Outro momento decisivo para fortalecer essa paixão aconteceu durante a Copa do Mundo de 1982.
Foi o primeiro Mundial amplamente transmitido em cores para grande parte da população de Bangladesh.
Mesmo sem conquistar o título, a equipe comandada por Telê Santana encantou torcedores ao redor do planeta com um futebol ofensivo e envolvente.
Craques como Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Éder marcaram uma geração inteira de bengalis, consolidando a preferência pelo Brasil entre milhares de famílias.
Desde então, a tradição foi passada de pais para filhos.
Rivalidade também chega à Ásia
Assim como acontece em diversas partes do mundo, Bangladesh também vive uma intensa rivalidade entre torcedores do Brasil e da Argentina.
A conquista argentina na Copa de 1986 ampliou significativamente o número de admiradores da equipe comandada por Diego Maradona.
Os históricos gols marcados pelo camisa 10 contra a Inglaterra, especialmente após a Guerra das Malvinas e considerando o passado colonial britânico na região, contribuíram para aumentar ainda mais a simpatia de muitos bengalis pela seleção argentina.
Hoje, o país vive uma espécie de clássico permanente durante os Mundiais.
Famílias inteiras dividem-se entre Brasil e Argentina, transformando ruas e bairros em verdadeiras disputas de cores, bandeiras e decoração.
“A maior parte de Bangladesh é Brasil”
Em entrevista ao portal ge, Malik Robin Mia, criador do perfil “CBF Bangladesh”, explicou que o apoio ao Brasil faz parte da cultura esportiva do país.
Segundo ele, a rivalidade entre Brasil e Argentina é vivida intensamente pelos bengalis.
“Bangladesh nunca jogou uma Copa do Mundo e sempre teve uma emoção muito grande por Brasil e Argentina. O país é dividido em duas partes, como se fosse política mesmo. Quando nasci, tinha dois tios que gostavam da Argentina e outros três gostavam do Brasil. Essa é a nossa cultura”, contou.
Ele afirma ainda que, durante os Mundiais, ruas, casas, motocicletas e prédios recebem pinturas e bandeiras com as cores brasileiras.
“Em Copas, vestimos camisas amarelas, pintamos casas, ruas e motos com as cores do Brasil. A maior parte de Bangladesh é Brasil”, afirmou.
Jogadores agradeceram o carinho
O carinho dos torcedores bengalis não passou despercebido pelos atletas da Seleção Brasileira.
Após a vitória por 2 a 1 sobre o Japão, que garantiu a classificação do Brasil às oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, o goleiro Alisson e o atacante Matheus Cunha gravaram mensagens especiais agradecendo o apoio vindo do outro lado do mundo.
“Muito obrigado, Bangladesh, por todo apoio. Vimos os vídeos. É realmente muito legal. Nós amamos vocês”, declarou Alisson.
Já Matheus Cunha demonstrou surpresa com a dimensão da torcida asiática.
“É inacreditável. Gostaria de dizer muito obrigado. É um momento muito bonito. Muito obrigado, Bangladesh. Um grande abraço e um grande beijo”, afirmou o atacante.
Um fenômeno que atravessa fronteiras
A paixão de Bangladesh pela Seleção Brasileira tornou-se um dos fenômenos mais curiosos desta Copa do Mundo.
Sem nunca ter disputado um Mundial, o país encontrou no futebol brasileiro uma identidade construída ao longo de décadas, baseada na admiração por grandes jogadores, na beleza do futebol apresentado pelo Brasil e na identificação cultural com uma nação que também enfrentou desafios sociais para conquistar espaço no cenário mundial.
Enquanto a bola continua rolando nos gramados da Copa de 2026, milhões de brasileiros ganham um reforço inesperado nas arquibancadas do planeta: uma apaixonada torcida verde e amarela que, do outro lado do mundo, transforma Bangladesh em uma extensão do Brasil durante o maior espetáculo do futebol mundial.



