Opereta audiovisual apresentada no Centro Cultural Hermes de Paula integrou as comemorações pelos 169 anos de Montes Claros e une música sinfônica, memória, patrimônio e tecnologia para narrar a trajetória da cidade desde o Arraial das Formigas
A história de Montes Claros ganhou uma nova forma de ser contada. Em uma combinação entre música erudita, audiovisual, pesquisa histórica e tecnologia, o Oratório de Montes Claros emocionou o público ao transformar a trajetória da cidade em uma opereta audiovisual apresentada durante as comemorações dos 169 anos do município.
O espetáculo, realizado no Centro Cultural Hermes de Paula, contou com o apoio da Prefeitura de Montes Claros, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, e levou ao palco uma narrativa que revisita a formação do antigo Arraial das Formigas, sua evolução urbana e o processo que transformou Montes Claros na maior cidade do Norte de Minas.
A obra é assinada pelo maestro João Jorge Almeida Soares, que utilizou fatos históricos, personagens marcantes e referências culturais da cidade para construir uma composição musical com aproximadamente 30 minutos de duração, executada por uma orquestra sinfônica virtual, coro e quarteto vocal solista produzidos com recursos de inteligência artificial (IA).
Música e história caminham juntas
Muito mais do que uma apresentação musical, o Oratório de Montes Claros propõe uma viagem pela memória da cidade.
Ao longo de oito movimentos, a obra retrata momentos decisivos da história local, desde os primeiros desbravadores que chegaram ao sertão norte-mineiro até o crescimento econômico, social e cultural que consolidou Montes Claros como um dos principais polos urbanos de Minas Gerais.
A narrativa musical evidencia personagens, acontecimentos e valores que ajudaram a construir a identidade do município, transformando a composição em um registro artístico e histórico.
Para a gerente de Preservação e Promoção do Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Geisiane Mota, o trabalho vai além do entretenimento.
“O Oratório de Montes Claros não é apenas uma obra audiovisual, mas é, sobretudo, um convite para revisitarmos a história de Montes Claros. A obra é, ainda, um importante registro sobre o patrimônio cultural da cidade, um incentivo para a sua preservação.”
Segundo ela, a iniciativa fortalece a valorização da memória coletiva e desperta o interesse das novas gerações pelo patrimônio histórico e cultural do município.
Inteligência artificial viabilizou a obra
Um dos grandes diferenciais do projeto está na utilização da inteligência artificial como ferramenta de produção artística.
Segundo o maestro João Jorge Almeida Soares, a tecnologia tornou possível concretizar uma obra que, pelas suas características, exigiria elevados investimentos em estrutura, músicos e produção audiovisual.
Para interpretar a composição, foi criada digitalmente uma orquestra sinfônica completa, acompanhada por coro e solistas hiper-realistas, capazes de reproduzir sons e imagens com alto nível de fidelidade.
Durante a apresentação, o compositor destacou que a IA foi decisiva para transformar sua criação em realidade.
“Quando compus essa peça monumental, eu tinha pela frente um gigantesco obstáculo: a sua realização. Para executar a minha criação, eu necessitava de uma orquestra sinfônica completa, que pudesse dar conta dos desafios impostos pela partitura. Para que a apresentação acontecesse seria necessário um grande teatro e uma equipe técnica eficiente para a captação de imagens e som em nível profissional. Com o advento da inteligência artificial pude, de forma relativamente simplificada, executar a minha obra, que agora está disponível para o público e para a cidade. A IA foi instrumento para que pudesse fazer a minha música.”
A utilização da inteligência artificial permitiu que a obra mantivesse elevado padrão artístico, preservando a riqueza sonora e visual idealizada pelo maestro.
Debate ampliou reflexão sobre memória e patrimônio
Após a exibição do Oratório, o público participou de uma roda de conversa que reuniu o maestro João Jorge Almeida, a historiadora Geisiane Mota, o jornalista Elpídio Rocha e o advogado Wanderlino Arruda, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
O encontro abordou a importância da preservação da memória histórica da cidade e discutiu como manifestações artísticas podem contribuir para fortalecer a identidade cultural da população.
Os participantes destacaram que o Oratório ultrapassa os limites da música e do audiovisual, tornando-se um instrumento de valorização do patrimônio material e imaterial de Montes Claros.
Para Elpídio Rocha, que atua na área do cinema e integra o projeto Cinema Comentado, a produção demonstra como a inteligência artificial pode ser utilizada como aliada da criação artística.
Segundo ele, quando empregada de forma ética e criativa, a tecnologia amplia possibilidades para diferentes linguagens culturais, incluindo a música, o cinema e a produção audiovisual.
Já Wanderlino Arruda ressaltou que a obra sintetiza importantes capítulos da história local.
“É um relato da fé, da cultura e da identidade norte-mineira.”
Para o historiador, os oito movimentos que compõem o Oratório apresentam um panorama da formação da cidade, destacando desde os primeiros habitantes até o desenvolvimento que consolidou Montes Claros como referência regional.
Um novo olhar sobre a história da cidade
Tradicionalmente apresentado em formato de concerto, o oratório diferencia-se da ópera por não utilizar cenários, figurinos ou encenações teatrais. Ainda assim, mantém a capacidade de emocionar ao contar histórias por meio da música e da interpretação vocal.
No caso do Oratório de Montes Claros, essa tradição foi ampliada com a incorporação da linguagem audiovisual e dos recursos da inteligência artificial, criando uma experiência imersiva que aproxima o público dos acontecimentos históricos narrados.
As imagens, as vozes e os instrumentos virtuais, desenvolvidos com elevado grau de realismo, ajudam a transportar o espectador para diferentes momentos da história montes-clarense, permitindo que os cidadãos se reconheçam como protagonistas da construção da identidade local.
Ao reunir arte, pesquisa histórica e inovação tecnológica, o Oratório consolida-se como uma importante iniciativa de valorização do patrimônio cultural de Montes Claros, reafirmando que preservar a memória também significa encontrar novas formas de contar a história para as futuras gerações.



