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Niginho fugiu da guerra e foi barrado na Copa - Rede Gazeta de Comunicação

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Niginho fugiu da guerra e foi barrado na Copa

Convocado para a Seleção, ídolo mineiro teve semifinal de 1938 impedida por pressão fascista da Itália

Mais do que números, recordes ou taças, o futebol é feito de histórias que parecem roteiros de cinema. E poucas no Brasil se aproximam tanto da ficção quanto a saga de Leonízio Fantoni, o lendário Niginho. Terceiro maior artilheiro da história do Cruzeiro, com 210 gols, e um dos primeiros grandes ídolos do clube, ele viveu um episódio que misturou futebol, política internacional, guerra e uma injustiça que ecoa até hoje.

Convocado para defender o Brasil na Copa do Mundo de 1938, Niginho viu o sonho de entrar em campo contra a Itália na semifinal ser destruído por um motivo inusitado: ele havia fugido da convocação militar do regime fascista de Benito Mussolini anos antes. A decisão de deixar a Itália sem cumprir o serviço militar e sem rescindir formalmente o contrato com a Lazio transformou o atacante mineiro em alvo de uma disputa diplomática que mudou os rumos da Seleção Brasileira.

Das origens no Palestra Itália à artilharia dos clássicos

Nascido em Belo Horizonte em 12 de fevereiro de 1912, Leonízio Fantoni cresceu dentro de uma família que ajudou a fundar o então Palestra Itália, clube que décadas depois se tornaria o Cruzeiro. Os Fantoni eram quase uma dinastia no futebol mineiro: além de Niginho, seus irmãos João (Ninão) e Orlando, e o primo Otávio (Nininho), também vestiram a camisa celeste.

Aos 14 anos, Niginho entrou nas categorias de base e logo mostrou faro de gol. A torcida rapidamente lhe deu apelidos que virariam lenda: “Menino Metralha” pela precisão nos chutes, “Tanque” pela força física e “Carrasco dos Clássicos” pelo desempenho devastador contra Atlético e América. Até hoje, ele é o maior artilheiro cruzeirense em confrontos diretos: 26 gols contra o Atlético, 46 contra o América e 20 contra o Villa Nova. Foram seis Campeonatos Mineiros como jogador e uma idolatria que atravessou gerações.

A aventura na “Brasilázio” e o início do pesadelo

O talento de Niginho logo cruzou o oceano. Em 1931, ele seguiu os passos do irmão Ninão e do primo Nininho e foi contratado pela Lazio, da Itália. Na época, o clube romano tinha tantos brasileiros em seu elenco que ganhou o apelido de “Brasilázio”. Niginho brilhou: em uma partida contra o Milan, marcou quatro gols. Parecia o início de uma longa e vitoriosa carreira na Europa.

Mas os ventos da década de 1930 sopravam sombrios. Em 1935, a Itália fascista de Benito Mussolini invadiu a Abissínia (atuais Etiópia e Eritreia). Niginho, que possuía dupla cidadania italiana por suas origens, foi convocado para servir nas tropas de invasão. Havia um problema: ele jamais quis ser soldado. Recém-casado com Ana, uma jovem húngara que conhecera em Roma, o atacante se recusava a deixar a esposa e a participar de uma guerra que considerava injusta.

A solução foi drástica: ele simplesmente fugiu. Com a autorização da Lazio para retornar ao Brasil — o clube, ingênuo, achou que ele voltaria apenas para visitar a família —, Niginho embarcou num navio e nunca mais pisou na Itália durante o regime fascista. O problema é que, aos olhos do governo italiano, ele não havia rescindido contrato nem cumprido suas obrigações militares. Tornou-se, oficialmente, um desertor.

A volta ao Brasil e o fantasma da convocação

De volta à pátria, Niginho não perdeu tempo. Passou a atuar pelo Palestra Itália de São Paulo (atual Palmeiras) e, depois, pelo Vasco da Gama. Mas a sombra da Itália o perseguia. A Lazio considerava que ele ainda tinha vínculo contratual, e setores ligados ao regime fascista tratavam o caso como uma afronta. O tema ficou latente nos bastidores do futebol até explodir na Copa do Mundo de 1938, realizada justamente na França.

Naquele ano, Niginho vivia grande fase no Vasco e recebeu a convocação para a Seleção Brasileira. Ele se tornou o primeiro jogador revelado pelo Cruzeiro (à época Palestra Itália-MG) a disputar uma Copa do Mundo. No elenco comandado por Ademar Pimenta, era reserva imediato de Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, a grande estrela brasileira.

Nas quartas de final, Brasil e Tchecoslováquia empataram por 1 a 1 e precisaram de um jogo-desempate. Naquela partida, Leônidas sofreu uma lesão. Ele não teria condições de atuar na semifinal contra a Itália. O substituto natural era Niginho. A expectativa era enorme: o atacante mineiro, que conhecia o futebol italiano por dentro, poderia ser a arma secreta do Brasil para vencer os campeões mundiais de 1934.

A pressão italiana e a decisão que custou o sonho

Às vésperas da semifinal, dirigentes italianos acionaram a Fifa. A mensagem foi clara: Niginho não havia rescindido seu contrato com a Lazio e, pior, era um desertor do exército de Mussolini. Caso o Brasil o escalasse, o país poderia enfrentar questionamentos diplomáticos e legais. Em meio à tensão da Segunda Guerra Mundial que se avizinhava, a comissão técnica brasileira preferiu recuar.

O técnico Ademar Pimenta explicou, anos depois, o que aconteceu: “A Federação Italiana não enviou um protesto, e sim uma reclamação à Fifa de que o jogador brasileiro não completara o contrato que tinha a cumprir com a Lazio. Para afastar qualquer dúvida e não criar caso, preferimos não incluir Niginho, embora a exclusão do substituto de Leônidas nos prejudicasse bastante.”

Sem Leônidas (lesionado) e sem Niginho (barrado), o Brasil entrou em campo desfalcado e perdeu para a Itália por 2 a 1. A chance de disputar a primeira final de Copa do Mundo evaporou. Muitos historiadores apontam que, se Niginho tivesse jogado, o resultado poderia ter sido outro. A Itália, que mais tarde venceria a Hungria na final, tornaria-se bicampeã mundial. O Brasil ficaria com o terceiro lugar — a primeira conquista de um pódio em Copas, mas um gosto amargo deixado pela interferência política.

O retorno à casa e a transformação em lenda do Cruzeiro

Após o trauma de 1938, Niginho ainda brilhou no Vasco, sendo eleito um dos melhores jogadores do clube naquele ano. Em 1939, voltou para Minas Gerais e reassumiu a camisa do Palestra Itália, que jamais deixaria. Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, o governo de Getúlio Vargas proibiu qualquer referência a países do Eixo. O Palestra Itália precisou mudar de nome: nascia o Cruzeiro Esporte Clube. Niginho foi protagonista nos primeiros anos da nova identidade.

Encerrou a carreira em 1947, mas continuou no clube como técnico. Foram 256 partidas no banco de reservas: 145 vitórias, 58 empates e 53 derrotas, além de três Campeonatos Mineiros como treinador. Coube a ele um feito que poucos lembram: foi Niginho quem lançou um jovem de 16 anos chamado Tostão no time profissional do Cruzeiro. O garoto viria a se tornar um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro.

Morte e legado: a injustiça que o tempo não apagou

Niginho morreu em 5 de setembro de 1975, aos 63 anos, vítima de um mal súbito. Mais de oito décadas depois da Copa de 1938, sua história continua sendo das mais curiosas e dramáticas do esporte nacional. Um atacante que driblou um regime fascista, fugiu de uma guerra, teve uma semifinal de Copa roubada por pressões políticas e, ainda assim, construiu uma trajetória de idolatria eterna no Cruzeiro.

Hoje, seu nome está gravado na memória dos torcedores celestes não apenas pelos 210 gols ou pelos 46 tentos contra o América, mas pela coragem de dizer não a Mussolini — e pelas lágrimas de um sonho mundial interrompido por aqueles que preferiram a conveniência diplomática à justiça esportiva. Niginho é, acima de tudo, a prova de que o futebol, por vezes, é apenas um reflexo das guerras que os homens travam fora das quatro linhas