Projeto “Ventos Ancestrais” reúne mostras gratuitas em três espaços da cidade e valoriza mestres do passado e do presente, além da memória, fé e ancestralidade dos festejos
As Festas de Agosto, uma das manifestações culturais mais tradicionais de Montes Claros, ganham novos olhares por meio da fotografia e das artes visuais. Até este domingo (16), três espaços da cidade recebem exposições gratuitas que apresentam personagens, mestres, rituais e momentos que ajudam a preservar a memória de uma celebração que se aproxima de dois séculos de história.
As mostras fazem parte do projeto “Ventos Ancestrais”, do fotógrafo, fotoativista e documentarista Lucas Viggi, e estão instaladas no Museu Regional do Norte de Minas, no Circuito de Conhecimentos, no campus da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), e no Montes Claros Shopping.
Com diferentes propostas, as exposições aproximam passado e presente e mostram a continuidade das tradições mantidas pelos grupos de catopês, marujos e caboclinhos. São manifestações conduzidas por mestres e dançantes que, ano após ano, ocupam as ruas centrais da cidade em cortejos marcados por batuques, cantos, ritmos e devoção.
Realizadas há 187 anos, as Festas de Agosto integram o patrimônio cultural e afetivo de Montes Claros e do Norte de Minas. Mais do que uma programação anual, os festejos representam um ciclo de fé, convivência e transmissão de conhecimentos entre gerações.
Memória que atravessa gerações
Para Lucas Viggi, reunir as exposições simultaneamente em diferentes espaços permite apresentar a tradição a públicos diversos e ampliar as possibilidades de interpretação sobre a cultura popular.
Segundo o fotógrafo, o trabalho procura estabelecer conexões entre território, identidade, memória e ancestralidade, utilizando a imagem como instrumento de documentação e valorização cultural.
“Levar o trabalho a espaços como o shopping, o museu e a universidade significa aproximar a cultura popular de diferentes públicos e reafirmar a importância de preservar e valorizar as histórias que constituem a identidade do Norte de Minas”, destaca.
No Circuito de Conhecimentos, no campus da Unimontes, duas exposições colocam em diálogo mestres de diferentes gerações.
A mostra “Novos Ventos” apresenta registros dos mestres que atualmente conduzem e mantêm vivas as tradições das Festas de Agosto. As fotografias destacam homens e mulheres responsáveis por preservar os rituais e transmitir conhecimentos que atravessam décadas.
No mesmo espaço, “Ventos Ancestrais” volta o olhar para mestres dos ternos de catopês, marujos e caboclinhos que já morreram, mas permanecem presentes na memória da festa.
Entre os personagens retratados estão mestres como Zanza, João Pimenta dos Santos, Expedito, João Farias e Joaquim Poló, figuras que tiveram participação importante na preservação dos festejos ao longo das décadas.
Mestres presentes e ausentes
No Museu Regional do Norte de Minas, a exposição reúne registros de mestres atuais e uma homenagem àqueles que já partiram. A proposta utiliza a imagem para refletir sobre a permanência da memória mesmo diante da ausência física.
A inspiração está nas pipas que sobem aos céus, mas continuam ligadas à terra por seus fios. A metáfora representa a relação entre ancestralidade, fé e continuidade das tradições.
“Mesmo ausentes fisicamente, esses mestres permanecem presentes na cultura, nas lembranças e nos ensinamentos transmitidos às novas gerações”, explica Lucas Viggi.
Localizado no Corredor Cultural, na Rua Coronel Celestino, no Centro Histórico de Montes Claros, o Museu Regional fica próximo à Praça da Matriz, um dos principais pontos de concentração das atividades das Festas de Agosto.
Tradição também ocupa o shopping
A cultura popular também ganhou espaço em um dos locais de maior circulação da cidade. No Montes Claros Shopping, a exposição “Novos Ventos” ocupa a fachada do empreendimento com fotografias dos mestres que atualmente conduzem os grupos.
Dentro do shopping, a mostra “Retratos de Fé” apresenta imagens de dançantes durante os cortejos, impressas em tecido voil. Com a movimentação provocada pelo vento, as fotografias criam um efeito visual em que os próprios personagens parecem ganhar movimento.
Outra atração é “Memórias Pô Um Fio”, formada por pequenos monóculos fotográficos. O visitante é convidado a observar de perto imagens de mestres e dançantes, em uma experiência que remete às antigas maneiras de guardar e compartilhar fotografias.
A proposta é aproximar o público das histórias e personagens das festas por meio de uma experiência visual diferente, transformando a fotografia em ponte entre memória e presente.
Fotografia como preservação
O projeto conta com apoio da Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, do Mestre Zanza Júnior e do Primeiro Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário.
A iniciativa parte da fotografia como ferramenta de registro, memória e valorização do patrimônio cultural. Ao reunir imagens de mestres de diferentes épocas, o projeto reforça a ideia de que a tradição não permanece parada no tempo, mas se renova à medida que novos guardiões assumem a responsabilidade de mantê-la viva.
Nesse sentido, as exposições não apenas registram as Festas de Agosto, mas ajudam a contar a história de uma manifestação cultural construída por muitas gerações.
Documentário amplia o projeto
Além das exposições, “Ventos Ancestrais” também contempla o documentário “Festas de Agosto em Montes Claros”, dirigido por Lucas Viggi e Mestre Zanza Júnior.
O filme acompanha os grupos de catopês, marujos e caboclinhos durante diferentes períodos do ano e mostra que a tradição não se limita aos dias dos cortejos. A preparação, os encontros, a convivência, a fé e a transmissão dos saberes fazem parte de um ciclo que se mantém ativo durante todo o ano.
Durante a programação das Festas de Agosto, o documentário está sendo exibido no Centro Cultural Hermes de Paula, na Praça da Matriz.
As próximas sessões estão programadas para esta sexta-feira (14) e domingo (16), às 18h30.
Com as exposições espalhadas por diferentes pontos da cidade e o documentário integrando a programação oficial, o projeto amplia os caminhos para que moradores e visitantes conheçam personagens, histórias e símbolos que ajudam a explicar a identidade cultural de Montes Claros.
Em imagens, tecidos, monóculos e cinema, os mestres continuam falando. Alguns pela presença; outros pela memória. E todos pela tradição que, há quase dois séculos, encontra nos tambores, nos passos e na fé uma maneira de permanecer viva.


