Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Junho chega devagar no sertão norte-mineiro, como quem pede licença ao vento frio que desce da serra e repousa nas ruas de terra, nos quintais varridos de saudade e nas varandas onde o café coado parece mais quente que o costume. É tempo de festa junina, mas, por aqui, é também tempo de memória acesa — dessas que não se apagam nem quando o fogo da fogueira vira brasa.
No Norte de Minas, junho não é apenas um mês no calendário. É um estado de espírito. O frio corta as madrugadas, mas não congela a alegria. Pelo contrário: ele chama a gente para mais perto. Aproxima os corpos, aquece as conversas, faz da roda de amigos um pequeno universo iluminado por bandeirolas tremulantes e risos soltos no ar.
As festas juninas por essas bandas têm gosto de casa. Cheiro de milho cozinhando na panela grande, de pamonha embrulhada com cuidado, de canjica doce que parece abraço de vó. Tem o milho assado na brasa, o quentão que esquenta por dentro como lembrança boa, o bolo de fubá que some da mesa antes mesmo de esfriar. E há quem diga que o sabor não está só na comida, mas no modo como ela é servida: em partilha, em roda, em afeto.
Quando a fogueira estala, parece que o tempo desacelera. O sertão vira cenário de uma poesia antiga, escrita sem pressa, com cheiro de madeira queimando e céu estrelado assistindo tudo em silêncio. Crianças correm com chapéu de palha torto, casais dançam quadrilha como se ensaiassem o amor em passos simples, e os mais velhos observam com olhos que sabem mais do que dizem.
O frio, esse visitante insistente, não é inimigo. É convite. Ele faz da manta companheira, do abraço necessidade, da conversa demorada um remédio. No Norte de Minas, ninguém enfrenta o frio sozinho — ele é sempre vivido em comunidade, como tudo que importa de verdade por aqui.
E assim, entre bandeirolas, sanfonas e histórias contadas duas ou três vezes, junho vai desenhando sua própria geografia afetiva. Uma geografia que não se mede em mapas, mas em lembranças. Em cada fogueira acesa há um pouco de resistência, um pouco de tradição e muito de pertencimento.
Porque, no fundo, as festas juninas no Norte de Minas não são apenas celebrações. São formas de continuar sendo quem se é. São maneiras de dizer ao tempo que, apesar de tudo, ainda sabemos aquecer a vida com aquilo que é simples: o fogo, a comida, a música e a presença uns dos outros.
E quando a última brasa se apaga, fica no ar uma certeza silenciosa: o frio pode até voltar amanhã, mas já fomos aquecidos o suficiente para atravessá-lo outra vez.



