Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Há séries que terminam quando sobem os créditos. Outras continuam ecoando dentro da gente. Ao assistir à produção da Netflix sobre uma emergência radioativa, a impressão que fica não é apenas o medo invisível da contaminação. É algo ainda mais perturbador: o quanto uma população pode se sentir sozinha quando precisa desesperadamente de respostas.
O material radioativo daquela história é invisível aos olhos. Assim como também são invisíveis muitas das angústias que percorrem diariamente as ruas das nossas cidades. Não emitem radiação, mas contaminam a esperança. São ruas esburacadas que impedem o ir e vir, a falta de água, a espera interminável por um exame, uma ponte interditada, um bairro esquecido, uma escola que precisa de reparos, uma iluminação pública que nunca chega, uma família que já não sabe a quem recorrer.
Em toda democracia existe um princípio fundamental: a separação dos Poderes. Ela garante equilíbrio institucional e impede abusos. Mas há algo que deveria unir todos eles acima de qualquer divergência: o compromisso com a dignidade humana.
O cidadão comum não quer saber quem tem competência exclusiva, quem depende de autorização, quem aguarda parecer jurídico, quem precisa de um ofício ou quem ainda espera uma publicação oficial. Ele quer apenas viver com dignidade.
A burocracia é necessária. Ela protege recursos públicos, estabelece regras e evita arbitrariedades. Mas, quando deixa de servir às pessoas para servir apenas a si mesma, transforma-se em um muro entre o Estado e quem mais precisa dele.
É nesse momento que nasce o sentimento mais doloroso: o abandono.
Não é raro encontrar cidadãos que passam semanas tentando contato com órgãos públicos. Telefones que não atendem. E-mails sem resposta. Mensagens visualizadas e ignoradas. Protocolos que se acumulam enquanto a vida continua exigindo soluções imediatas.
A dor não espera despacho.
A fome não conhece horário de expediente.
A doença não respeita calendário administrativo.
O medo tampouco aceita senha para atendimento.
É justamente nesse vazio que o jornalismo encontra uma de suas maiores razões de existir.
Muito antes de ser notícia, quase toda reportagem começa com um pedido de socorro.
É a mãe que não consegue atendimento para o filho.
É o morador que teme pela segurança da sua rua.
É o trabalhador que depende de uma estrada em condições para garantir o sustento da família.
É o pequeno comerciante prejudicado por problemas que poderiam ser resolvidos com uma simples resposta do poder público.
Antes de existir a manchete, existe alguém dizendo:
“Será que vocês conseguem falar com alguém por mim?”
Essa talvez seja uma das frases mais fortes que um jornalista pode ouvir.
Porque ela revela que, para muitos brasileiros, a imprensa deixou de ser apenas um veículo de informação. Tornou-se uma ponte.
Uma ponte entre quem sofre e quem pode decidir.
Uma ponte entre o silêncio e a resposta.
Uma ponte entre o esquecimento e a esperança.
O jornalista não possui poder para construir hospitais, pavimentar ruas, abrir escolas ou decretar políticas públicas. Também não substitui prefeitos, governadores, vereadores, deputados, juízes ou promotores.
Mas possui algo igualmente valioso: a capacidade de fazer uma pergunta que não pode permanecer sem resposta.
É por isso que a imprensa incomoda.
Não porque cria problemas.
Mas porque lhes dá voz.
Questionar não é atacar.
Cobrar não é perseguir.
Dar publicidade a uma demanda não significa fazer oposição. Significa cumprir uma missão constitucional de interesse público.
Infelizmente, em muitos momentos, instala-se uma espécie de censura silenciosa. Não aquela que proíbe explicitamente uma reportagem, mas a que se manifesta na dificuldade de acesso, na barreira criada entre autoridades e cidadãos, na frieza das respostas protocolares, na ausência de diálogo, na escolha deliberada de não responder.
O silêncio institucional também comunica.
E, muitas vezes, comunica desprezo.
O mais triste é perceber que essa distância costuma diminuir em períodos eleitorais. De repente, portas antes fechadas se abrem, agendas ficam disponíveis, telefones funcionam, visitas aos bairros tornam-se frequentes e o cidadão volta a ser ouvido.
Mas a necessidade da população não acontece de quatro em quatro anos.
Ela acorda todos os dias.
Todos os dias há alguém precisando de uma resposta simples.
Nem sempre é possível resolver todos os problemas. Há limitações legais, financeiras e administrativas que fazem parte da gestão pública. Isso é compreensível. O que nunca deveria faltar é respeito.
Responder também é governar.
Ouvir também é administrar.
Explicar também é servir.
Às vezes, uma resposta honesta vale mais do que uma promessa impossível.
Ao final da série sobre a emergência radioativa, fica evidente que nenhuma sociedade resiste apenas com tecnologia, protocolos ou estruturas. Ela resiste quando pessoas escolhem cuidar umas das outras.
Talvez essa seja também a missão da imprensa.
Receber o pedido de socorro.
Escutar quem já perdeu a esperança de ser ouvido.
Levar a pergunta até quem tem o dever institucional de respondê-la.
E lembrar, diariamente, que por trás de cada protocolo existe um rosto.
Por trás de cada ofício existe uma família.
Por trás de cada número existe uma história.
O jornalismo não substitui o Estado.
Mas pode impedir que o cidadão fique completamente sozinho diante dele.
Porque nenhuma democracia será verdadeiramente forte enquanto houver pessoas batendo às portas do poder e encontrando apenas o eco do próprio silêncio.
E, quando isso acontece, talvez a notícia mais urgente deixe de ser o problema em si.
Passe a ser a ausência de quem deveria, ao menos, responder.



