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A DESPENSA - Rede Gazeta de Comunicação

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A DESPENSA

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Outro dia fiquei pensando em dois comentários que chegaram de lados diferentes, mas tinham algo em comum. Os dois falavam sobre produção. Ou melhor, sobre estoque.

Uma amiga comentou sobre meu estoque de produções. No dia seguinte, um amigo fez uma observação parecida. A palavra ficou rondando meus pensamentos durante vários dias.

Quando ouvi “estoque”, a primeira imagem que me veio à cabeça foi uma despensa cheia de potes, prateleiras organizadas e coisas guardadas para uso futuro. Mas, aos poucos, fui escavando o significado da palavra e percebi que estoque não precisa ser apenas aquilo que acumulamos. Pode ser também aquilo que preservamos para compartilhar no momento certo.

De repente, a palavra já não parecia falar de acúmulo. Parecia falar de cuidado.

Por isso gosto tanto de reorganizar a casa. Não apenas pela arrumação em si, mas porque, quando mudamos um objeto de lugar, muitas vezes mudamos também a forma como nos relacionamos com ele.

Recentemente, um amigo entrou aqui em casa e reparou em um quadrinho escrito “Lar Doce Lar”. Achou que fosse novo. Não era. O quadro sempre esteve comigo. A novidade estava apenas no lugar que passou a ocupar.

Aquilo me fez pensar que algumas coisas não precisam ser substituídas para ganharem novo significado. Às vezes, basta um novo olhar.

Um quadro muda de lugar e uma história reaparece. Um objeto antigo ganha destaque. Uma lembrança encontra espaço para conversar com outra. O que parecia comum volta a ser percebido.

Foi assim que me lembrei das três latinhas herdadas de minha bisavó Adelaide. Foi assim que pensei também no Rei do Milho, uma simples cartela de festa junina que, em determinado contexto, se transformou em ajuda para quem precisa. Objetos continuam sendo objetos, mas os significados que carregam podem crescer com o tempo.

Foi então que percebi que também venho montando minha própria despensa.

Não uma despensa de alimentos. Nem uma coleção de coisas guardadas por apego. Uma despensa de significados.

Nela vou armazenando encontros, conversas, leituras, memórias, aprendizados e pequenas descobertas do cotidiano. Algumas permanecem guardadas por muito tempo. Outras encontram rapidamente o caminho de volta para a circulação.

Nessa despensa cabem palavras como cuidar, aprender, doar e compartilhar. Não para que permaneçam fechadas em potes bem organizados, mas para que continuem disponíveis sempre que a vida pedir uma nova receita de convivência, generosidade ou reflexão.

Esse é o verdadeiro sentido de um estoque que vale a pena construir. Não aquilo que guardamos por medo da falta, mas aquilo que preservamos para que possa ser repartido.

Porque existem riquezas que aumentam justamente quando deixam a prateleira e encontram o caminho das mãos, das conversas e dos afetos.

Os melhores estoques da vida são exatamente aqueles que nunca foram feitos para ficar parados.