Até o dia 28 de junho, o Museu Regional do Norte de Minas (MRNM), da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), abriga a mostra “Arqueologia Ambiental: Paisagem e Arte Rupestre na Serra do Cabral”, do fotógrafo e cineasta Altiere Leal
O visitante que atravessar as portas centenárias do Museu Regional do Norte de Minas, instalado em um casarão histórico da rua Coronel Celestino, 75, no coração do centro antigo de Montes Claros, será transportado, sem sair do lugar, para um dos mais fascinantes e ainda pouco conhecidos berços da ocupação humana no estado. A exposição “Arqueologia Ambiental: Paisagem e Arte Rupestre na Serra do Cabral”, do fotógrafo e cineasta Altiere Leal, reúne 15 fotografias de grande formato que documentam uma expedição realizada em setembro de 2023 à Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra do Cabral, no município de Lassance — uma região de transição entre o Cerrado e os campos rupestres, cortada por nascentes que alimentam a bacia do Rio São Francisco.
As imagens são o resultado de um trabalho minucioso de campo. Altiere Leal percorreu trilhas íngremes, enfrentou o sol forte do sertão e a poeira das estradas de terra para registrar não apenas as imponentes formações rochosas da Lapa da Cabeceira do Guará, mas também as pinturas rupestres deixadas por grupos nômades que habitaram a região há milhares de anos. Nas fotografias, é possível identificar figuras humanas estilizadas, representações de animais — possivelmente veados, tatus e aves —, formas geométricas e símbolos cuja significação exata ainda desafia os arqueólogos. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), somente no município de Lassance já foram catalogados 42 sítios arqueológicos, mas estima-se que a Serra do Cabral como um todo abrigue mais de mil locais com vestígios pré-coloniais.
O olhar que denuncia as ameaças
Mas a exposição não é um mero catálogo de belezas naturais ou um manual de arqueologia ilustrado. O fotógrafo constrói, intencionalmente, uma narrativa visual que contrapõe a ancestralidade das pinturas às marcas do presente. Em várias das fotografias, o primeiro plano exibe grafismos milenares, enquanto o fundo revela queimadas recentes, monoculturas de eucalipto voltadas para a produção de celulose, pastagens extensivas para a pecuária e o rastro de caminhões pesados transitando em estradas não pavimentadas. “É um convite à reflexão sobre o futuro”, explica Altiere Leal. “Ao mesmo tempo que revelo um patrimônio arqueológico ainda pouco documentado e que necessita de preservação, também registro as transformações provocadas pela exploração econômica do território.”
Essa dupla face — beleza e degradação — é o que confere força documental ao trabalho. A Serra do Cabral, um maciço montanhoso que se estende por seis municípios (Lassance, Francisco Dumont, Várzea da Palma, Buenópolis, Joaquim Felício e Augusto de Lima), é uma das últimas áreas contínuas de cerrado bem preservado no Norte de Minas, mas sofre pressão crescente de atividades mineradoras, carvoarias e do avanço da fronteira agrícola. A APA foi criada justamente para conciliar a conservação ambiental com o uso sustentável dos recursos, mas a fiscalização é precária, e os conflitos entre proprietários rurais e órgãos ambientais são recorrentes. A mostra, ao expor esses contrastes, cumpre um papel de denúncia silenciosa, mas eficaz.
Acessibilidade como princípio
Um dos diferenciais da exposição é o cuidado com a inclusão. Ao lado de cada fotografia, uma legenda contém um QR Code. O visitante pode, com seu próprio smartphone, escanear o código e ter acesso a uma audiodescrição profissional da imagem. O recurso detalha formas, cores, texturas, a posição das figuras rupestres e o contexto da paisagem, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão também possam apreciar o conteúdo. “A arte deve ser para todos. Não adianta documentar um patrimônio se parte da população fica excluída da experiência”, afirma o fotógrafo. A iniciativa atende a uma demanda histórica dos museus brasileiros e está alinhada com as políticas de acessibilidade previstas na Lei Brasileira de Inclusão.
Contexto e patrocínio
A exposição integra a programação do Mês Mundial do Meio Ambiente (junho) e tem patrocínio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por meio do Ministério da Cultura (Governo Federal), em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo de Minas Gerais. A escolha da data não é casual: busca-se estimular o debate sobre a relação entre memória ancestral, preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Além das fotografias, o Museu Regional do Norte de Minas exibe em caráter permanente seu acervo de objetos indígenas, utensílios domésticos do século XIX, documentos históricos e uma coleção de fósseis da região — tudo isso a poucos metros das imagens de Altiere Leal, criando um diálogo curatorial entre diferentes camadas do tempo.
Serviço para o visitante
A mostra fica em cartaz até o dia 28 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h30, e também no último domingo do mês (28/6), das 9h às 14h. A entrada é gratuita, sem necessidade de agendamento prévio para grupos de até 10 pessoas. Escolas e outras instituições que desejarem visita guiada devem entrar em contato com o museu pelo telefone (38) 3221-3839. O endereço é rua Coronel Celestino, 75 — o casarão de fachada amarela, a poucos passos da Praça Dr. Chaves, no centro histórico de Montes Claros. O estacionamento nas imediações é limitado, mas há vagas rotativas na rua lateral.



