O ex-zagueiro da seleção brasileira tetracampeã mundial e ex-diretor de futebol do Cruzeiro, Ricardo Rocha, de 63 anos, foi solto na noite desta quarta-feira (10) por policiais civis no Rio de Janeiro após quitar uma dívida de pensão alimentícia no valor de R$ 2.414,57
O que parecia ser apenas mais um dia de preparação para a cobertura do maior evento esportivo do planeta se transformou em uma corrida contra o relógio para Ricardo Rocha. O ex-jogador, que integrou o elenco campeão do mundo em 1994 nos Estados Unidos, foi surpreendido por agentes da Polícia Civil na zona sul do Rio de Janeiro, onde reside atualmente. Contra ele pesava um mandado de prisão civil por débito de pensão alimentícia — um dos poucos casos em que a lei brasileira ainda admite a privação da liberdade por dívida.
O mandato foi expedido pela 16ª Vara de Família da Comarca de Fortaleza, no Ceará, e vinha tramitando desde 2023. A dívida, segundo os autos, refere-se a valores não pagos entre outubro e dezembro de 2024, totalizando R$ 2.414,57 — montante que inclui correção monetária até a última atualização. Apesar de relativamente baixo para os padrões de um ex-atleta de alto nível, o valor foi suficiente para decretar a prisão, uma vez que a execução alimentícia pode levar ao encarceramento quando há inadimplência injustificada por três meses consecutivos.
A briga judicial com a filha
O imbróglio familiar gira em torno de Victória Valente, filha de Ricardo Rocha, cuja paternidade foi reconhecida judicialmente apenas em janeiro de 2024 — na ocasião, Victória já tinha 24 anos. A mãe da jovem ajuizou a ação de reconhecimento e fixação de alimentos, alegando que o ex-jogador nunca havia prestado assistência material ou emocional à filha durante a infância e adolescência. Ricardo, por sua vez, sempre sustentou que não foi procurado anteriormente e que, uma vez reconhecida a paternidade, passou a cumprir as obrigações dentro do que foi acordado em juízo.
Um elemento que tornou o caso ainda mais sensível é o fato de Victória ser pessoa com deficiência (PCD) , necessitando de cuidados especiais e despesas médicas contínuas. A genitora alega que os custos com terapias, medicamentos e acompanhamento multidisciplinar nunca foram integralmente arcados pelo ex-atleta, o que teria motivado o pedido de execução da pensão. A defesa de Ricardo contesta veementemente essa versão, afirmando que todos os encargos foram pagos dentro do possível e que o desacordo se limita a uma “divergência contábil” sobre o valor exato de determinado período.
O pagamento relâmpago e a soltura
Assim que foi informado da prisão, ainda na tarde de quarta-feira, o advogado de Ricardo Rocha entrou em contato com o juízo da 16ª Vara de Família e conseguiu a chave PIX para depósito do valor integral atualizado. O pagamento foi efetuado por volta das 19h30, e a ordem de soltura foi expedida menos de duas horas depois. Por volta das 22h, o ex-zagueiro deixou a delegacia da Polinter (Polícia Interestadual) no Rio de Janeiro, sem necessidade de passar por audiência de custódia por se tratar de prisão civil com prestação de caução.
Em rápida declaração aos jornalistas que aguardavam na porta, Ricardo Rocha parecia aliviado, mas desconfortável: “São questões de família, protegidas por segredo de Justiça. Eu lamento que isso tenha ganhado as manchetes antes de termos a chance de explicar. Mas já está tudo resolvido. Agora, vou trabalhar.” Ele seguiu direto para o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), onde embarcou num voo da Latam com conexão para Miami e, de lá, para a cidade-sede da Copa do Mundo — que neste ano é realizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, com a abertura marcada para 12 de junho.
Nota oficial da defesa
Horas após a soltura, o escritório de advocacia que representa Ricardo Rocha divulgou uma nota oficial à imprensa, da qual destacamos os seguintes trechos:
“Em razão das notícias veiculadas nesta data envolvendo o nome de Ricardo Rocha, sua defesa vem esclarecer que o episódio decorreu de uma divergência relacionada aos valores apontados no cumprimento da decisão judicial, questão que foi imediatamente submetida à análise e esclarecida perante o Poder Judiciário. Após os esclarecimentos apresentados pela defesa, a medida foi prontamente revogada, restabelecendo-se a normalidade da situação. Ricardo Rocha lamenta que uma questão de natureza estritamente processual, envolvendo informações protegidas por segredo de justiça, tenha sido exposta de forma precipitada e com enfoque sensacionalista, antes da conclusão dos esclarecimentos necessários.”
O documento reforça ainda que o ex-atleta “sempre pautou sua trajetória pelo respeito às instituições, transparência e cumprimento de suas obrigações”, e que seguirá sua agenda profissional nos Estados Unidos.
A passagem relâmpago pelo Cruzeiro
Fora dos holofotes esportivos desde que pendurou as chuteiras, Ricardo Rocha voltou ao noticiário do futebol brasileiro entre agosto e dezembro de 2021, quando aceitou o convite para ser diretor de futebol do Cruzeiro. Na época, o clube mineiro ainda estava sob o modelo associativo, às vésperas da venda da SAF para Ronaldo Fenômeno. Sua passagem foi curta e marcada por divergências internas; ele foi demitido logo após a conclusão da compra pelo ex-atacante, que optou por montar sua própria equipe de gestão. Apesar do rápido desligamento, Ricardo mantém boas relações com alguns dirigentes celestes e, inclusive, o convite para a cobertura da Copa veio por meio de uma rádio parceira do clube.
Próximos passos na Justiça
Embora a prisão tenha sido revogada e o pagamento efetuado, o processo de fundo — envolvendo o valor exato da pensão alimentícia e eventuais débitos pretéritos — continua tramitando na 16ª Vara de Família de Fortaleza. A mãe de Victória já sinalizou que pretende ingressar com uma revisional de alimentos, pleiteando um valor fixo maior, em razão das despesas com a deficiência da filha e da capacidade financeira do ex-jogador, que, além dos trabalhos como comentarista, recebe direitos de imagem e participa de eventos de memorabilia esportiva.
A defesa de Ricardo Rocha afirma que está aberta a uma conciliação, desde que os valores sejam “realistas e comprovados por notas fiscais e recibos”. Enquanto isso, o ex-zagueiro se prepara para narrar os jogos da seleção brasileira na Copa — a estreia do Brasil está marcada para o dia 15 de junho, contra a Sérvia, em Los Angeles. O episódio da prisão, embora constrangedor, não deve afetar sua escala de trabalho, segundo a emissora contratante, que preferiu não se manifestar oficialmente.



