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As Joias do Cerrado: Mulheres que Transformam o Norte de Minas pelo Sabor e Trabalho - Rede Gazeta de Comunicação

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As Joias do Cerrado: Mulheres que Transformam o Norte de Minas pelo Sabor e Trabalho

Da pesquisa científica à alta gastronomia, mulheres convertem a tradição do Cerrado em negócios sustentáveis e protagonismo econômico.

Esta série abre espaço para mostrar as joias do Cerrado: mulheres de várias gerações que empreenderam e estão mudando a realidade do seu território em Montes Claros e no Norte de Minas. Michele Farah descobriu uma a visão de negócio, mercado contemporâneo, concorrência e os desafios da jovem empresária; Vicentina Pequitina mostra o foco na bioeconomia, inovação a partir de recursos naturais, transição da aposentaria para os negócios e a chef de cozinha Bernadete Guimarães enxerga a cultura como ativo econômico, preservação histórica, cozinha de raiz que gera renda.

De acordo com os dados do Atlas dos Pequenos Negócios de 2025 (DataSebrae), os pequenos negócios, compostos por Microempreendedores Individuais (MEIs), Microempresas (MEs) e Empresas de Pequeno Porte (EPPs) representam cerca de 95% de todos os empreendimentos formais do país, sendo responsáveis por cerca de 80% dos empregos formais gerados no ano de 2025. A atividade empreendedora desses pequenos negócios beneficia, direta ou indiretamente, 45% da população brasileira (o que equivale exatamente a 96,7 milhões de pessoas) e apresenta nas mulheres um crescimento expressivo na abertura de novos empreendimentos.

Oh Pote! Do amor ao lucro

A empresária Michele Farah  – crédito: Acervo Pessoal

O relógio marca 06h30 da manhã quando Michele Fará confere o estoque de insumos. A empresária Michele Farah, de 47 anos, nasceu em Nova Lima, mas mora em Montes Claros (MG) há 34 anos, onde criou a empresa Oh Pote! Risotos e Sabores. A paixão por cozinhar veio da convivência familiar e do prazer de observar a mãe e a avó no preparo dos pratos.

“Desde pequena eu sempre gostei muito de culinária. Observando minha avó e minha mãe, eu, que vim de uma família libanesa, me acostumei com uma mesa sempre muito recheada, sempre muitas comidas boas e todo mundo em volta da mesa. Tudo acabava em volta da mesa”.

Funcionária pública há mais de 20 anos, resolveu mudar de ramo no ano de 2023. Dessa observação familiar surgiu o costume de cozinhar em casa para os amigos, que sempre pediam que ela preparasse o risoto. “Deixa que nós levamos o vinho e você faz o risoto”, diziam os familiares e frequentadores da residência. E foi assim que o prato se tornou sua especialidade e, hoje, seu negócio.

Mas para concretizar esse sonho, ela contratou um especialista para ajudá-la nessa transição de forma segura e eficiente. “Muitas pessoas entram de cabeça em ideias que a princípio são boas, mas, sem o conhecimento ideal, não dão certo. Isso, além do prejuízo, é frustrante. Não basta apenas saber cozinhar, é importante conhecer sobre o seu investimento e todas as possibilidades que ele oferece”, disse Michele.

Rapidamente, o especialista conseguiu identificar em sua trajetória a veia empreendedora vinda da herança libanesa, e sugeriu que ela fizesse cursos na área de empreendedorismo para a criação do negócio. O primeiro pote de risoto surgiu há três anos. Durante um curso, Michele desenvolveu a ideia junto com alguns colegas e, com apenas três dias de empresa, vendeu 12 mil reais em risotos e vinhos, tornando-se campeã com o projeto.

Após esse período, ela resolveu abrir a empresa e seguiu empreendendo: aumentou o quadro de funcionários e hoje tem uma filial em Belo Horizonte (MG). A empresária destaca que a virada de chave veio com o suporte que recebeu durante o treinamento, o qual, até hoje, serve de base para as consultorias da empresa.

“Quem vê essa história acha que foi fácil. Essa parte burocrática de ter e manter uma empresa, para mim, é a mais difícil. Empreender exige disciplina, exige motivação diária e exige a busca constante por conhecimento e inovação”, destacou Michele. Ela completa que o diferencial para o sucesso do empreendimento foi procurar se aprimorar e fazer parcerias que tornassem seu produto único.

O que reforça o coordenador do Mestrado em Desenvolvimento Econômico e Estratégia Empresarial da Universidade Estadual de Montes Claros Unimontes), Roney Sindeaux. Para ele a consultoria é sempre importante se o empreendedor tem como arcar ou mesmo contar com apoios como o do Sebrae.

“Geralmente o empreendedor tem uma ideia, mas não consegue transpor a barreira para colocar em prática o negócio. O consultor pode apontar caminhos, ajudar a refletor sobre custos e riscos e dar mais sustentabilidade à decisão de abrir o negócio e como fazer para mantê-lo da melhor forma e mais rentável”, explicou o coordenador.

“A consultoria foi e continua sendo essencial para a empresa. A atualização é constante e nos proporciona parcerias, como a minha participação no projeto Sabores dos Gerais, que me permitiu incluir produtos típicos da região, como a castanha do pequi, a pimenta-de-macaco e outros frutos do Cerrado que deixam meus pratos únicos”, ressaltou a empresária.

Atualmente, a Oh Pote! realiza suas vendas de forma on-line, participa de feiras locais e regionais e já projeta o amanhã: “Pretendo expandir meu negócio para todo o Brasil e para o exterior”, afirma Michele Farah.

Bernadete Guimarães: do Cerrado para o mundo

Bernadete Guimarães durante o 7º FEME

Dizem que o peixe morre pela boca; eu acrescento que o norte-mineiro morre pelo cheiro. E se for de arroz com pequi, a morte é certa. É fácil comprovar esses ditados populares subindo as escadarias do prédio onde mora a Chef, pesquisadora e amante dos sabores do Cerrado, Bernadete Guimarães. O aroma do prato já toma conta do corredor e, ao abrir da porta, tem-se a visão de uma mesa farta e colorida, resultado de anos de intimidade e pesquisa com o que hoje, além de seu modo de vida, se tornou seu negócio e sua identidade cultural.

Nascida em Nanuque, região noroeste de Minas, veio para Montes Claros aos seis anos de idade. Herdou do pai o gosto pela gastronomia, montou seu próprio comércio e aos poucos descobriu sua autoridade no ramo de consultorias e pesquisas. Assim, aprofundou seus estudos e ampliou o negócio para a formação de um movimento de valorização e preservação da culinária e dos costumes da região.

Atualmente, percorre o Brasil e o mundo promovendo a Cozinha Geraizeira, que ela mesma define como exótica, única, exclusiva e de uma particularidade que vem dos ingredientes e de sua manipulação e preparo peculiares, saberes que são transformados em culinária, receita, arte e sabores. O diferencial de sua cozinha é entender que a procedência nessa cadeia tão complexa de alimentos naturais e ultraprocessados é essencial.

“Vários órgãos buscam o sabor que alguém nos ensinou a reconhecer como tal. Se você não sabe o gosto real, fica difícil entender o que é de qualidade e até onde isso pode influenciar no preparo e no consumo do produto”, afirma Bernadete Guimarães.

O grande start para alavancar seu negócio veio com a percepção de que o Cerrado é um bioma extremamente rico, mas que ainda pode ser desconhecido por muitos, e que sua divulgação e preservação dependiam do trabalho que ela desenvolvia. Dessa forma, a pesquisa e o empreendedorismo foram as plataformas escolhidas para alcançar seus objetivos e expandir sua atuação.

“As dificuldades para se manter um negócio hoje no Brasil ainda são muitas, principalmente no interior, onde a valorização da cultura e das tradições foi se perdendo ao longo dos anos e a mulher esteve muito restrita ao papel de dona de casa. Mas encaro isso como um combustível para seguir em frente e mostrar que somos nós quem alimentamos e quem construímos novas realidades”.

“Procuro, além de ensinar as pessoas a conhecerem os frutos e as riquezas do Cerrado e seu valor nutricional, contribuindo para a cultura alimentar, promover o desenvolvimento e a implantação de atividades para o surgimento de novos negócios em equilíbrio com a biodiversidade e a bioeconomia”, completou Bernadete.

Entre os projetos desenvolvidos com a consultoria de Bernadete Guimarães estão os Guardiões da Gastronomia dos Gerais; o Circuito Turístico da Cachaça, em Salinas; o Sabores dos Gerais; o Festival de Gastronomia da ACI Montes Claros; a Cozinha do Garimpo, em Grão Mogol; a expedição sobre o queijo do Norte de Minas; a Expedição Sertão Norte MG – Gastronomia e Cultura, que levou o Norte de Minas ao Tierra Madre, na Itália; a Expedição Sabores do Alto Rio Pardo; a Rota dos Sabores, em Taiobeiras; o Concurso Roedor do Pequi; o projeto Saberes e Sabores no Campo das Vertentes; além do Conexão, Sabor, Arte e Negócios.

Pequitina: a cientista do Pequi

Pequitina a cientista do pequi – Crédito: Ricardo Guimarães
Pequitina exibindo sua farofa de pequi o produto que deu origem ao seu negócio. Crédito: Ricardo Guimarães.

“Aquele cheiro do mato molhado, com o cheiro do pequi de quando eu chegava na roça, ainda está presente em mim o tempo inteiro. Aquela cena da chuva no mato, aquele cheiro, me fascinava. Chegava em casa, já arrancava o pequi da casca e colocava nas panelas para cozinhar, e aquele aroma que subia me encantava”, exclamou Pequitina quando perguntei como ela se apaixonou pelo superfruto.

Vicentina Bispo de Almeida Costa, de 69 anos, nasceu em Montes Claros, mas foi no retorno às origens dos pais, na cidade de Januária, que descobriu sua paixão pelos frutos do Cerrado norte-mineiro e criou a empresa Pequitina, que hoje é referência no desenvolvimento de produtos e na geração de emprego e renda.

“Eu sou o marco da minha família, que veio da roça para a cidade. Nasci em Montes Claros, me formei professora, mas nas minhas férias eu voltava para Januária, e minha vontade era de ficar por lá”, contou Pequitina.

Depois de lecionar por muitos anos, a professora adquiriu um problema de saúde e teve que se afastar do cargo para tratamento, retornando à zona rural de Januária. Com a aposentadoria, resolveu voltar aos estudos para aprimorar seus conhecimentos na área de pesquisa e, com muita criatividade e alguns erros na produção, conseguiu desenvolver seus produtos, como a farofa, a barrinha de cereal e a granola feitas com pequi.

“Eu faço da minha casa um laboratório. Ali mesmo criei, a partir do pequi, a farinha, o creme, a barra de proteína, a granola e a essência. Hoje, meus produtos são vendidos em várias partes do país e para o exterior. É um orgulho poder levar o nosso ouro do Cerrado para o mundo”, afirma a empresária.

Reconhecimento

Pequitina foi muito além da produção dos frutos com sua empresa. Ela se tornou, junto com a chef Bernadete Guimarães, uma “Guardiã do Cerrado” e participa ativamente de novas pesquisas e de associações como o Núcleo do Pequi, além de ministrar palestras e participar de eventos voltados ao desenvolvimento do empreendedorismo feminino regional e nacional. Ela esteve presente, inclusive, na sanção do Projeto de Lei nº 1970/2019, que instituiu a Política Nacional para o Manejo Sustentável, Plantio, Extração, Consumo, Comercialização e Transformação do Pequi e demais Frutos e Produtos Nativos do Cerrado.

Núcleo do Pequi

O Núcleo do Pequi esteve presente como apoio nas oficinas. O grupo existe desde o ano de 2008, instituído por meio do Plano Nacional da Sociobiodiversidade do Governo Federal, que promoveu a oficina de Planejamento Participativo da Cadeia Produtiva do Pequi no Norte de Minas Gerais, em Montes Claros (MG).

Este evento resultou na construção participativa de uma estratégia de melhoria para o Arranjo Produtivo Local (APL) do pequi e de outros frutos do Cerrado, atuando em 16 municípios do Norte de Minas Gerais.

O Núcleo apoia os empreendimentos associados com capacitações para melhorias e criação de novos produtos. Além disso, desenvolve ações para o gerenciamento da produção, aproveitamento das safras e fornecimento de capital de giro através do Fundo Rotativo Solidário. Atua também na formação de novas lideranças locais, articula a divulgação e realiza a prospecção de mercado para os produtos dos empreendimentos da rede, valorizando os saberes e fazeres tradicionais que mantêm o nosso Cerrado ativo.