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ENTREVISTA | DE ORIGEM HUMILDE AO COMANDO DA UNIVERSIDADE: A trajetória de Wagner Santiago à frente da Unimontes - Rede Gazeta de Comunicação

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ENTREVISTA | DE ORIGEM HUMILDE AO COMANDO DA UNIVERSIDADE: A trajetória de Wagner Santiago à frente da Unimontes

POR PAULA PEREIRA

Em uma entrevista extensa e reveladora, o reitor da Universidade Estadual de Montes Claros, Dr. Wagner de Paulo Santiago, compartilha sua trajetória de vida, desde a infância simples no Norte de Minas até a consolidação de uma carreira acadêmica e de gestão. Ao longo da conversa ele aborda desafios estruturais da universidade, avanços na área da saúde, valorização de servidores, inclusão e perspectivas para o futuro da instituição em Montes Claros e região.

Origens, família e primeiros passos

PAULA PEREIRA: Para começarmos, gostaria que o senhor se apresentasse. Qual é o seu nome completo e onde nasceu?

WAGNER SANTIAGO: Eu sou Wagner de Paulo Santiago, natural de Montes Claros. Nasci aqui em 1970 e, neste ano, completo 56 anos vivendo nessa cidade que tanto amo.

PAULA PEREIRA: E seus pais? Como foi o ambiente familiar em que o senhor cresceu?

WAGNER SANTIAGO: Sou filho de Maria Pereira Santiago e Vicente de Paulo Santiago, ambos também naturais de Montes Claros. Meus pais viveram inicialmente em uma fazenda próxima ao Rio Verde, na região da Lagoa da Barra. Meu pai era vaqueiro, e minha mãe cuidava da casa, além de ajudar nas atividades da fazenda. Eles tiveram oito filhos nesse período. Depois vieram para a cidade, e eu fui o primeiro a nascer já no ambiente urbano.

PAULA PEREIRA: O senhor veio de uma família grande, então?

WAGNER SANTIAGO: Sim, éramos dez irmãos ao todo — infelizmente, um deles já faleceu. Cresci em uma casa muito cheia, com muitas dificuldades, mas também com muito afeto, união e senso de responsabilidade coletiva.

PAULA PEREIRA: Quais são suas primeiras lembranças da infância?

WAGNER SANTIAGO: Cresci no bairro Melo, que naquela época era praticamente uma área rural dentro da cidade. Havia muito mato, poucas casas. Minha infância foi simples, marcada pelo trabalho desde cedo e por uma convivência familiar muito intensa. Até os cinco anos vivi com meus pais, mas depois fui morar com uma irmã mais velha, que teve um papel decisivo na minha formação.

PAULA PEREIRA: Como aconteceu essa mudança?

WAGNER SANTIAGO: Minha irmã Dora assumiu essa responsabilidade. Criamos um vínculo muito forte. Quando ela se casou, sentimos muito essa separação — tanto eu quanto ela. Então, meus pais permitiram que eu fosse morar com ela e meu cunhado. Eu tinha apenas cinco anos. Eles me criaram como um filho, e esse vínculo permanece até hoje. Inclusive, meus filhos os chamam de avós.

Educação, escolhas e descoberta da vocação

PAULA PEREIRA: E como foi sua trajetória escolar?

WAGNER SANTIAGO: Sempre fui muito incentivado a estudar. Minha irmã começou a me ensinar antes mesmo da escola. Quando fui matriculado, já sabia ler e escrever. Estudei em escola pública, fui um aluno dedicado. Minha mãe trabalhava como servente em uma escola, e eu cheguei a estudar lá, ajudando inclusive nas tarefas de limpeza. Foi um período de muito esforço, mas também de formação de caráter.

PAULA PEREIRA: Em algum momento o senhor imaginou que chegaria à posição de reitor?

WAGNER SANTIAGO: Nunca. Isso não fazia parte dos meus planos. Na verdade, eu cresci ouvindo que deveria ser médico, porque tinha facilidade com os estudos. Mas, com o tempo, percebi que aquele não era o meu caminho. Fui amadurecendo essa percepção com base nas experiências que vivi.

PAULA PEREIRA: Quando aconteceu essa virada?

WAGNER SANTIAGO: No ensino médio. Fiz um curso técnico em eletrônica, estagiei na área, mas não me encontrei. Depois, ao estudar para um concurso público, tive dificuldade com contabilidade. Aquilo virou um desafio pessoal. Resolvi mergulhar no conteúdo e acabei descobrindo uma afinidade enorme. Foi ali que encontrei minha verdadeira vocação.

PAULA PEREIRA: E a partir daí sua trajetória se consolidou?

WAGNER SANTIAGO: Exatamente. Entrei no curso de Ciências Contábeis na Unimontes e me dediquei intensamente. Fui um dos melhores alunos da turma. Logo após me formar, fui convidado para lecionar — algo que nunca havia planejado, mas que mudou completamente minha vida. Descobri na docência uma paixão verdadeira.

Gestão, hospital universitário e desafios estruturais

PAULA PEREIRA: O senhor comentou sobre o hospital universitário. Esse é um tema que gera muitas dúvidas. O que está sendo pensado?

WAGNER SANTIAGO: Esse é um dos maiores desafios da nossa gestão. O hospital é fundamental não apenas para a universidade, mas para toda a região. Sabemos das dificuldades, desde estrutura até o modelo de gestão, e por isso estamos propondo mudanças.

Queremos implementar um modelo mais ágil, que reduza a burocracia e permita melhorar processos como compras e contratações, ampliar especialidades e aumentar a capacidade de atendimento. O objetivo é claro: oferecer um serviço de saúde mais eficiente para a população e, ao mesmo tempo, garantir melhor formação para nossos estudantes.

PAULA PEREIRA: E como melhorar a comunicação com a população?

WAGNER SANTIAGO: Esse é um ponto essencial. O hospital também é um espaço de ensino, e isso nem sempre é compreendido. Existe um tempo de aprendizado, de formação. A imprensa tem um papel fundamental nesse processo de tradução da realidade. Mesmo com desafios, a satisfação dos pacientes é alta, principalmente pelo cuidado humano oferecido.

Valorização profissional e concursos

PAULA PEREIRA: Sobre salários de servidores e professores, como lidar com essa questão?

WAGNER SANTIAGO: É importante destacar que a definição salarial é de competência do governo estadual, não da universidade. Ainda assim, não ficamos inertes e buscamos alternativas para valorizar nossos professores e servidores.

Uma dessas iniciativas foi a criação de vagas suplementares em programas de mestrado e doutorado, exclusivas para servidores, o que contribui para a qualificação e a progressão na carreira. Também ampliamos o acesso a bolsas de pesquisa para os professores. Além disso, promovemos uma mudança importante: anteriormente, o servidor podia levar até 10 anos para obter o reconhecimento salarial após a titulação; hoje, esse processo ocorre de forma imediata.

Outro avanço recente foi o aumento da Gratificação de Incentivo à Eficientização dos Serviços (GIEFS), no Hospital Universitário Clemente de Faria, que passou de 15% para 19,99% ao final do mês de março. Dentro do que cabe à universidade, seguimos trabalhando para garantir valorização e melhores condições para nossos servidores.

PAULA PEREIRA: E sobre novos professores?

WAGNER SANTIAGO: Conseguimos autorização para um novo concurso, algo que não acontecia há mais de uma década. Serão mais de 400 vagas para diversas áreas. E faço questão de garantir um processo totalmente transparente, com bancas externas, compostas por professores de outros estados. Queremos selecionar os melhores, com base no mérito.

Inclusão e inovação

PAULA PEREIRA: Como a universidade tem lidado com alunos com perfis atípicos, como autistas?

WAGNER SANTIAGO: Esse é um tema muito importante para nós. Temos o Nusi – Núcleo de Sociedade Inclusiva que oferece atendimento personalizado. Em alguns casos, contratamos professores de apoio exclusivos para acompanhar o aluno durante toda a graduação.

PAULA PEREIRA: Isso realmente funciona?

WAGNER SANTIAGO: Funciona, e posso dar um exemplo emocionante. Um ex-aluno me contou que seu filho, autista, entrou no curso de Medicina. Com o suporte da universidade, ele mudou completamente: passou a interagir, fazer amigos, celebrar momentos. O pai disse que a universidade conseguiu fazer pelo filho algo que ele próprio não havia conseguido ao longo da vida.

PAULA PEREIRA: Há novos projetos nessa área?

WAGNER SANTIAGO: Sim, estamos implantando uma sala multissensorial, pensada para pessoas com hipersensibilidade. Será um ambiente controlado, com iluminação adequada e sem ruídos excessivos. Já estamos avançados na aquisição dos equipamentos.

Pesquisa, futuro e mensagem final

PAULA PEREIRA: O senhor pode destacar alguma pesquisa relevante?

WAGNER SANTIAGO: Temos várias iniciativas importantes. Posso citar dois exemplos: um deles é o estudo com o coco macaúba, que tem potencial para a produção de biocombustível, inclusive para a aviação — pesquisa que resultou na nossa primeira patente. Outro destaque é o cultivo do cacau adaptado ao clima semiárido do Norte de Minas, desenvolvido a partir de pesquisas conduzidas no campus de Janaúba. Inclusive, já estão em andamento os primeiros testes para avaliar a qualidade do chocolate produzido na região. Além disso, mantemos estudos em diversas áreas, como saúde, agricultura e convivência com o semiárido. A universidade tem um papel estratégico no desenvolvimento regional.

PAULA PEREIRA: O senhor pretende continuar na gestão?

WAGNER SANTIAGO: Ainda é cedo para essa decisão. O que posso dizer é que os resultados são fruto de um trabalho coletivo. Nada é individual. Qualquer decisão futura será construída em conjunto.

PAULA PEREIRA: Para encerrar, que mensagem o senhor deixa para a comunidade acadêmica?

WAGNER SANTIAGO: Minha mensagem é de gratidão e esperança. A universidade avançou muito, mas pode avançar ainda mais. Isso depende da união de todos. A educação transforma vidas — eu sou prova disso. E a universidade tem esse papel: abrir caminhos, gerar oportunidades e construir um futuro melhor.