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EDITORIAL | LOLA CHAVES: Segredo de uma vida bem vivida - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | LOLA CHAVES: Segredo de uma vida bem vivida

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Há pessoas que atravessam o tempo. Outras, mais raras, parecem caminhar ao lado dele — sem pressa, sem medo, quase em cumplicidade. É assim que vejo Lola Chaves.

Sentada diante de mim, lúcida, firme na memória e leve no riso, ela não carrega o peso dos anos. Ao contrário: parece ter feito deles matéria-prima para uma vida bem vivida. Mais de nove décadas não lhe roubaram a curiosidade, nem o prazer de contar histórias, nem a delicadeza de quem ainda se encanta com o mundo.

Lola — ou Maria de Lourdes Chaves, como foi registrada — é dessas mulheres que transformam o próprio nome em identidade afetiva. O apelido nascido na infância, quando a língua ainda tropeçava nas sílabas difíceis, acabou por traduzir melhor quem ela é: próxima, simples, acessível. Uma presença que acolhe.

Ao ouvir suas lembranças, não escuto apenas uma biografia. Escuto também o retrato de uma cidade que já não existe da mesma forma. A Rua Doutor Veloso, hoje tomada pelo movimento do comércio, já foi território de casas, vizinhos próximos e portas abertas. Havia tempo para brincar na chuva, para cultivar amizades sinceras, para viver uma rotina em que as pessoas se reconheciam umas nas outras.

Há, em suas palavras, uma nostalgia que não pesa — ela ilumina. Porque não se trata de lamentar o que se foi, mas de valorizar o que permaneceu dentro dela: a memória das relações humanas, a música, a fé, as pequenas celebrações da vida cotidiana.

Talvez por isso sua história não se encaixe em expectativas comuns. Casou-se aos 81 anos com Theo Azevedo, quando muitos já se recolhem. Viveu um amor maduro, intenso à sua maneira, provando que o tempo não determina quando a vida deve acontecer. Ao contrário: a vida, quando bem vivida, encontra seus próprios momentos.

E aqui reside algo que me toca profundamente. Em um mundo que insiste em apressar tudo — inclusive o envelhecer —, Lola desafia silenciosamente essa lógica. Ela não se apressa. Não se lamenta. Não se define pelo que perdeu, mas pelo que construiu e ainda constrói.

Sua lucidez não é apenas cognitiva; é existencial. Ela sabe o valor das coisas simples: uma festa em casa, uma música cantada em coro, a lembrança de uma mãe paciente, o talento herdado de um pai criativo. Sabe, sobretudo, que viver é um exercício contínuo de presença.

Há, em seu olhar, algo que não se mede em anos: uma espécie de permanência. Como se o tempo, em vez de esgotá-la, tivesse aprendido a respeitá-la.

Ao final da entrevista, fiquei com a sensação de que Lola não vive “apesar” da idade. Ela vive com a idade — e talvez por causa dela. Como quem compreendeu, com rara sabedoria, que o segredo não está em quantos anos se acumulam, mas em como se atravessam os dias.

E, se me permitem uma confissão pessoal, saí dali com uma certeza serena: há vidas que não se contam apenas em décadas. Há vidas que florescem — continuamente — mesmo quando o calendário insiste em lembrar o contrário.

Lola Chaves é uma dessas flores. E, ao que tudo indica, ainda não pensa em desabrochar pela última vez.