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EDITORIAL | FILOSOFIA PERENE: O que está faltando ao Brasil? - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | FILOSOFIA PERENE: O que está faltando ao Brasil?

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

O brasileiro acorda cedo, enfrenta trânsito, trabalha o dia inteiro, paga impostos, acompanha notícias sobre corrupção, violência, inflação, crises políticas e promessas eleitorais. À noite, abre o celular e encontra mais discussões, mais polarização e mais gente tentando provar que está certa.

Nunca tivemos tanta informação ao alcance das mãos. Nunca estivemos tão conectados. E, ainda assim, cresce a sensação de que estamos perdendo alguma coisa pelo caminho.

Mas o quê?

A entrevista concedida por Matheus Soares de Azevedo ao acadêmico de Ciências Sociais, João Pedro Rodrigues Silva, (na íntegra na página 7 dessa edição) ao recontar a história da Filosofia Perene no Brasil, acaba levantando uma questão que interessa muito mais gente do que apenas estudiosos, religiosos ou intelectuais: por que, mesmo em uma época de tantos avanços, tantas pessoas se sentem desorientadas?

A pergunta é atual porque fala do Brasil que vivemos.

Vivemos um tempo em que as pessoas discutem política como nunca. Isso poderia ser algo positivo. Afinal, uma democracia depende da participação dos cidadãos. O problema é que muitas vezes o debate deixou de ser uma troca de ideias para se transformar numa guerra permanente.

MATHEUS SOARES DE AZEVEDO/ CRÉDITO: ROBERTO CATANI

Famílias brigam por política. Amizades terminam por política. Redes sociais se transformam em tribunais. Cada lado acredita possuir toda a verdade e trata quem pensa diferente como inimigo.

Enquanto isso, problemas reais continuam esperando solução.

A educação segue sendo um desafio. A violência continua preocupando milhões de brasileiros. A saúde pública enfrenta dificuldades. Os jovens convivem com níveis crescentes de ansiedade. A população reclama da falta de perspectivas. E a confiança nas instituições parece cada vez mais frágil.

Talvez seja justamente por isso que histórias como a narrada na entrevista mereçam atenção.

Não porque todos devam concordar com as ideias dos autores perenialistas. Mas porque eles faziam perguntas que continuam atuais.

O que mantém uma sociedade unida?

O que acontece quando uma comunidade perde seus valores compartilhados?

O desenvolvimento econômico, sozinho, é suficiente para gerar felicidade?

A tecnologia resolve todos os problemas humanos?

Existe algo além do consumo, da política e da busca por sucesso material?

São perguntas simples, mas profundas.

Ao longo dos últimos cem anos, o Brasil mudou radicalmente. Saímos de um país predominantemente rural para uma das maiores economias do planeta. Construímos cidades, universidades, indústrias e sistemas de comunicação que conectam milhões de pessoas em segundos.

Mas nem todo progresso pode ser medido em números.

Uma sociedade também precisa de referências, de memória, de cultura e de valores que ajudem as pessoas a encontrar significado para suas vidas.

Talvez seja por isso que cresce o interesse por espiritualidade, por tradições religiosas, por história, por identidade cultural e até mesmo por correntes de pensamento pouco conhecidas, como a Filosofia Perene.

Em um mundo cada vez mais acelerado, muitas pessoas procuram algo que ofereça estabilidade em meio ao excesso de mudanças.

O Brasil precisa de crescimento econômico. Precisa de mais empregos. Precisa de melhores escolas, hospitais e estradas. Isso é inegociável.

Mas talvez precise também de uma conversa mais profunda sobre quem somos e para onde queremos ir.

Nem toda crise é financeira.

Nem toda crise é política.

Algumas são crises de sentido.

E talvez uma das perguntas mais importantes para o Brasil de hoje não seja apenas quem governará o país nos próximos anos.

Talvez seja outra.

Que tipo de sociedade queremos construir para as próximas gerações?

Responder a essa pergunta exige mais do que ideologias, slogans ou disputas eleitorais.

Exige reflexão.

E reflexão, convenhamos, é algo de que o Brasil precisa cada vez mais.