POR PAULA PEREIRA
Com uma trajetória marcada por pioneirismo, trabalho intenso e paixão pela comunicação, Rosângela Silveira construiu uma carreira que se confunde com parte da história da televisão e do jornalismo no Norte de Minas. Primeira mulher a apresentar um telejornal na região, ela também atuou como editora, repórter, produtora e formadora de novos profissionais.
Nesta entrevista concedida à jornalista Paula Pereira, Rosângela revisita sua infância, fala sobre a família, recorda momentos marcantes da televisão e reflete sobre as transformações do jornalismo ao longo das décadas.

Paula Pereira — Rosângela, vamos começar do início. Quem era aquela Rosângela criança? Como foi sua infância e sua história familiar?
Rosângela Silveira — Eu sou a terceira filha de uma família grande, com nove irmãos — oito mulheres e um homem. Meu irmão é até hoje um dos meus maiores parceiros dentro da família, porque temos pouca diferença de idade. A nossa infância foi muito livre, muito diferente da realidade das crianças de hoje. Naquela época não existia essa preocupação tão grande com segurança. As casas praticamente não tinham muros, os quintais se misturavam e a rua era o nosso grande espaço de convivência.
A gente chegava da escola, trocava de roupa e ia direto para a rua brincar. Eu convivia muito com os meninos, principalmente por causa do meu irmão. Empinava pipa, corria, brincava de tudo. Cresci assim, com liberdade e sem preconceitos. Meus pais sempre ensinaram a respeitar todo mundo, independentemente de raça, religião ou qualquer outra diferença.

Paula Pereira — E como era a relação com seus pais?
Rosângela Silveira — Eu percebia que meu pai tinha uma ligação muito especial comigo. Ele me chamava de Rosa. Eu não sou muito fã de apelidos, mas quando vinha dele eu aceitava. Meu pai trabalhava muito. Ele tinha uma loja de material esportivo no centro da cidade e foi pioneiro na venda de equipamentos esportivos profissionais por aqui.
Antes disso, ele foi jogador de futebol e era considerado muito bom em campo. Jogou em equipes tradicionais da região e sempre foi muito conhecido por isso. Apesar disso, ele tinha um problema sério com a bebida. Bebia muito e muitas vezes não dava tanta atenção para a família. Mesmo assim, deixou um ensinamento muito forte para todos nós: a honestidade. Ele sempre dizia que a gente precisava construir uma reputação baseada na honestidade e no respeito.
Paula Pereira — Você começou a trabalhar muito cedo, não é?
Rosângela Silveira — Muito cedo. Com 14 anos eu tive meu primeiro emprego com carteira assinada. Minha mãe sempre foi muito preocupada com isso: que todos os filhos estudassem e também trabalhassem. Surgiu uma empresa ao lado da nossa casa que estava fazendo o mapeamento da cidade. Eles precisavam de pessoas para conferir os dados dos terrenos e das quadras, e eu fui trabalhar lá.
Desde pequena eu sempre fui muito observadora e comunicativa. Prestava atenção nas coisas, tentava entender os processos e ajudar no que fosse possível. Acho que essa característica acabou me ajudando muito ao longo da vida.

Paula Pereira — Em algum momento você pensou em seguir outra carreira?
Rosângela Silveira — Sim. Eu queria muito ser arquiteta ou jornalista. Eu desenhava muito bem e sempre gostei de arte. Na escola também me destacava muito nas redações — na época chamavam de “composição”. As professoras às vezes liam meus textos em voz alta para a turma.
Mas naquela época não havia curso de jornalismo em Montes Claros. Estudar fora também era difícil porque meu pai era muito protetor e não queria que as filhas fossem estudar longe. Então acabei cursando Administração de Empresas.
Paula Pereira — E como o jornalismo entrou definitivamente na sua vida?
Rosângela Silveira — Foi quase por acaso, mas também por muita vontade. Eu assistia televisão e pensava: “Eu preciso trabalhar ali”. Um dia, conversando com a apresentadora Marina Queiroz em um salão de beleza, ela comentou que o programa dela precisava de alguém para ajudar na produção.
Fui conversar com o diretor da emissora. Ele me deixou esperando por duas horas. Qualquer outra pessoa teria ido embora, mas eu fiquei ali porque realmente queria aquela oportunidade. Quando ele finalmente me chamou, perguntou se eu tinha experiência. Eu disse que não, mas que aprenderia.
Comecei ajudando na produção do programa, convidando entrevistados, organizando cenário. Depois passei a apresentar o programa quando a Marina saiu para disputar eleições. Foi assim que minha trajetória na televisão começou.
Paula Pereira — E logo você assumiu funções importantes dentro da emissora.
Rosângela Silveira — Sim. Com o tempo eu me tornei editora de telejornal e também apresentadora. Foi tudo muito prático, aprendendo no dia a dia. Eu observava muito, estudava o que outras emissoras faziam e aplicava ali. Não tive formação acadêmica em jornalismo naquela época, mas tive uma escola intensa dentro da própria televisão.
Trabalhei 16 anos na emissora. Era uma rotina puxada: manhã, tarde, noite, madrugada. Não tinha horário. Minha juventude praticamente foi dedicada à televisão.
Paula Pereira — Você foi pioneira no telejornalismo regional.
Rosângela Silveira — Eu mesma não tinha muita consciência disso na época. Só fui perceber depois, quando pesquisadores e colegas começaram a comentar. Uma jornalista chamada Ana Carolina Ferreira escreveu um livro sobre as mulheres pioneiras da imprensa no Norte de Minas e incluiu um capítulo sobre mim. Foi aí que caiu a ficha de que eu tinha sido a primeira mulher a apresentar um telejornal na região.
Paula Pereira — Ao longo dessa trajetória, você também ajudou a formar novos profissionais.
Rosângela Silveira — Ensinei muita gente. Muitos jornalistas que hoje trabalham em emissoras pelo Brasil passaram pela televisão naquela época e aprenderam ali comigo e com outros colegas. Era uma fase em que tudo era muito artesanal. A gente fazia de tudo: produzia, editava, apresentava, organizava reportagem. Era uma verdadeira escola.
Paula Pereira — O jornalismo mudou muito desde então. Como você vê essa transformação?
Rosângela Silveira — Mudou demais. Hoje qualquer pessoa com um celular se considera jornalista. Não sou contra a tecnologia, pelo contrário, ela é importante. Mas o jornalismo exige responsabilidade, compromisso com a verdade e muito senso crítico.
Antigamente também existiam erros — o que chamávamos de “barriga” quando uma notícia saía equivocada —, mas não existia a avalanche de informações e de fake news que vemos hoje. Por isso, a ética e o compromisso com a apuração são ainda mais importantes.
Paula Pereira — Depois da televisão, você seguiu por outros caminhos profissionais.
Rosângela Silveira — Sim. Trabalhei com cerimonial, assessoria de comunicação e também em instituições ligadas ao setor industrial. Sempre na área de comunicação, que é o que eu amo. Também tive uma empresa de cerimonial que realizou eventos importantes, como inaugurações de empreendimentos na cidade.
Paula Pereira — Depois de tantos anos de trabalho, o que ainda motiva você?
Rosângela Silveira — Eu gosto de trabalhar, gosto de produzir, de pensar projetos. Não consigo ficar parada. Hoje já penso em diminuir o ritmo, mas sempre aparece uma ideia nova.
Uma delas é criar um programa chamado “Papo de Jornalista”. Seria uma mesa redonda com três jornalistas discutindo temas atuais e mostrando ao público como funciona o raciocínio de quem trabalha com informação. Acho que seria uma forma interessante de aproximar as pessoas do processo jornalístico.
Paula Pereira — Quando você olha para trás e vê toda essa trajetória, qual sentimento fica?
Rosângela Silveira — Orgulho. Não fiz fortuna, mas fiz história. Trabalhei muito, aprendi muito e ajudei a abrir caminhos. Isso já valeu a pena.
E tem uma coisa que sempre digo: primeiro a gente precisa gostar de si mesmo. Só assim conseguimos gostar das outras pessoas e fazer um trabalho verdadeiro.
Paula Pereira — Rosângela, muito obrigada por compartilhar essa história tão rica.
Rosângela Silveira — Eu que agradeço. É sempre bom lembrar de onde viemos e poder dividir essas experiências. Ao longo da vida, novos caminhos profissionais vão surgindo e nos levando a novos desafios. Atualmente, atuo como Consultora Interna de Comunicação da Regional Norte da FIEMG, uma função que me gratifica muito e na qual continuo exercendo aquilo que sempre me moveu: a comunicação.


