Personagem criado por Yoichi Takahashi tem conexões com Tostão, Sócrates e Musashi Mizushima; anime é apontado como fator decisivo para profissionalização do futebol japonês
O duelo entre Brasil e Japão nesta segunda-feira (29/6), pelas oitavas de final da Copa do Mundo, reacendeu a memória dos fãs de uma das animações mais marcantes dos anos 1990: “Super Campeões” (originalmente “Capitain Tsubasa”). A obra de Yoichi Takahashi, que estreou como mangá em 1981 e ganhou versão animada em 1983, não apenas conquistou o público brasileiro na extinta TV Manchete, mas também estabeleceu conexões diretas com o futebol do país — incluindo jogadores que passaram por Cruzeiro, Corinthians e São Paulo.
Roberto Maravilha e a dupla inspiração
Um dos personagens mais queridos do anime, Roberto Hongo — batizado no Brasil como Roberto Maravilha, em referência a Dadá Maravilha e Túlio Maravilha — tem sua história diretamente ligada a dois ícones do futebol brasileiro. O ex-jogador cruzeirense Tostão inspirou a principal característica trágica do personagem: a aposentadoria precoce aos 26 anos devido a um grave problema ocular, descrito no anime como descolamento de retina . Já a aparência física de Roberto, com barba e cabelos característicos, foi baseada em Sócrates, ídolo do Corinthians .
No enredo, Roberto é um ex-craque da Seleção Brasileira que se torna mentor de Tsubasa no Japão. Sua trajetória de sucesso interrompido por lesão ecoa a história real de Tostão, que encerrou a carreira em 1974 após ser atingido no olho esquerdo durante uma partida.
Oliver Tsubasa: o herói com sangue tricolor
O protagonista Oliver Tsubasa, por sua vez, tem duas fontes de inspiração principais. A primeira é Musashi Mizushima, jogador japonês que chegou ao Brasil em 1975 com apenas 11 anos, após ser descoberto por Pelé durante uma viagem do Rei ao Japão . Mizushima passou quase uma década nas categorias de base do São Paulo, onde se profissionalizou e integrou o elenco campeão paulista de 1985 — embora tenha atuado em apenas uma partida oficial pelo clube .
A segunda inspiração veio de Diego Maradona. Takahashi declarou que o estilo de jogo do argentino, especialmente o gol marcado contra a Inglaterra na Copa de 1986, influenciou a forma como Tsubasa conduz a bola em longos dribles durante o anime . A Argentina de Maradona também brilhou no Mundial Sub-20 de 1979, disputado no Japão, e despertou no autor o fascínio pelo futebol sul-americano.
Impacto cultural e profissionalização do futebol japonês
Antes da década de 1980, o futebol ocupava posição modesta no Japão, atrás de esportes como beisebol e sumô. “Super Campeões” mudou esse cenário. A obra é apontada como um dos principais fatores que popularizaram o esporte no país, inspirando uma geração de atletas que levou o Japão à sua primeira Copa do Mundo, em 1998 . Em 1992, o país criou a J.League, sua liga profissional — um marco que muitos atribuem, em parte, ao sucesso do anime.
Além de Tsubasa e Roberto, outros personagens foram baseados em jogadores reais: Rivaul (Rivaldo), Juan Díaz (Maradona), Karl Heinz Schneider (Rummenigge) e o próprio Roberto Baggio, que aparece com seu nome verdadeiro em um episódio .
O episódio final do anime, que mostra Brasil e Japão frente a frente na estreia da Copa de 2002, nunca teve seu desfecho animado . Nesta segunda, o confronto real entre as duas seleções em Houston reacende a curiosidade dos fãs sobre como aquela partida imaginária terminaria — e reforça o legado de uma obra que ajudou a construir a história do futebol em dois continentes.



