Durante a Segunda Guerra Mundial, o romancista e crítico do fascismo encontrou no Norte de Minas um refúgio para a família, tentou criar gado e escreveu textos de resistência ao nazismo
JOÃO PEDRO ISSA
Em 1939, enquanto a Europa caminhava para um dos períodos mais sombrios de sua história, as margens do Rio São Francisco, em Pirapora, recebiam um visitante improvável: o escritor francês Georges Bernanos. Reconhecido no cenário literário europeu, o autor de obras como “Sob o Sol de Satã”, publicada em 1926, e “Diário de um Pároco de Aldeia”, de 1938, viveu no município norte-mineiro em um dos períodos mais turbulentos do século XX.
Profundamente católico, Bernanos construiu uma obra marcada por reflexões sobre o bem e o mal, a fé, a consciência humana e os conflitos morais. Em muitos de seus romances, personagens religiosos aparecem diante do desafio de lidar com o sofrimento e com as escolhas humanas.
Além da literatura, o escritor ficou conhecido por sua oposição ao autoritarismo que avançava na Europa, especialmente ao fascismo e ao nazismo. Em 1938, diante da instabilidade política e da aproximação da guerra, deixou a França acompanhado da esposa, seis filhos e um sobrinho, em busca de um lugar mais tranquilo para viver e continuar sua produção literária.
A família chegou inicialmente a Itaipava, no Rio de Janeiro. Depois, Bernanos passou por Juiz de Fora e Vassouras, até chegar a Pirapora, onde encontrou o ambiente sertanejo que parecia combinar com seu desejo de uma vida mais simples e distante dos conflitos europeus.
Em terras piraporenses, o escritor chegou a tentar uma experiência completamente diferente da literatura: tornou-se criador de gado. A tentativa, porém, não prosperou. Sem abandonar a busca por uma vida bucólica, Bernanos voltou a fazer da escrita sua principal atividade.

Entre o sertão e a guerra
A passagem por Pirapora ganhou dimensão ainda maior quando a França foi invadida pela Alemanha, em 1940. Enquanto seu país era ocupado e o governo do marechal Philippe Pétain adotava uma política de colaboração com os alemães, Bernanos acompanhava os acontecimentos à distância.
De Pirapora, escreveu cartas e textos nos quais defendia a resistência ao nazismo e estimulava o patriotismo e o civismo daqueles que permaneciam na França. O sertão mineiro tornou-se, assim, um dos lugares a partir dos quais o escritor acompanhou e comentou os acontecimentos que transformavam a Europa.
Foi também em Pirapora que Bernanos concluiu “Les Enfants Humiliés”, obra que pode ser traduzida livremente como “As Crianças Humilhadas”. O livro reúne reflexões políticas e impressões pessoais sobre a guerra, expressando a profunda insatisfação do escritor com a situação da França e com a postura adotada diante da ocupação alemã.
A presença de Bernanos em Pirapora representa, portanto, um capítulo singular da história cultural do Norte de Minas. Por alguns anos, um dos importantes escritores franceses do século XX viveu entre o rio, o sertão e os acontecimentos de uma guerra que redesenhava o mundo.
Uma memória que quase desapareceu
Apesar da importância do personagem, a passagem de Georges Bernanos por Pirapora acabou ficando praticamente esquecida entre os moradores da cidade. A história é mais conhecida nos meios jornalístico, literário e acadêmico e, ao longo das décadas, algumas iniciativas tentaram recuperar esse capítulo da memória local.
Em 1969, o Clube Literário Inácio Quinaud, em parceria com o professor Carlos Maciel Cunha, promoveu em Pirapora uma palestra sobre a passagem do escritor pela cidade. Não há, entretanto, registros precisos sobre o local onde o encontro ocorreu.
No ano seguinte, Hubert Sarrazin, autor de “Bernanos no Brasil”, também esteve em Pirapora para falar sobre a trajetória do escritor. A palestra foi realizada no Ginásio São João Batista.
Mais de três décadas depois, em 2002, o jornalista francês Sébastien Lapaque, do jornal “Le Figaro”, visitou Pirapora durante uma pesquisa sobre a permanência de Bernanos no Brasil. O trabalho resultou posteriormente no livro “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)”.
A história de Bernanos em Pirapora permanece como uma dessas passagens pouco conhecidas que ajudam a ampliar a compreensão sobre a importância cultural do Norte de Minas. Em meio ao sertão brasileiro, durante os anos em que o mundo enfrentava a guerra, um escritor francês encontrou abrigo, tentou ser fazendeiro, escreveu e acompanhou à distância o destino de seu país.
Décadas depois, sua passagem ainda permanece como uma memória a ser recuperada — não apenas pela importância de Bernanos para a literatura, mas também pelo que ela revela sobre Pirapora como lugar capaz de receber personagens e histórias que ultrapassaram as fronteiras do Brasil.


