Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Edital de R$ 20 milhões vai recuperar áreas do São Francisco na Bahia e em Pernambuco, enquanto Minas, onde o rio nasce e ocupa 36,8% da bacia, continua precisando de investimento para proteger nascentes e afluentes.
Tem coisa que o mineiro olha, coça a cabeça e pergunta: “Uai, mas e nós?”
Pois é justamente essa a pergunta que fica diante do novo edital de R$ 20 milhões para revitalização do Rio São Francisco. O dinheiro é bem-vindo, a recuperação ambiental é necessária e ninguém em sã consciência vai reclamar de plantar árvore, proteger nascente, recuperar margem de rio e cuidar da água. O problema é outro: Minas Gerais, que abriga as nascentes do Velho Chico e responde por 36,8% da área da bacia, ficou de fora dessa rodada específica.
O edital Águas do São Francisco destina R$ 10 milhões do BNDES e R$ 10 milhões da Conta do Programa de Revitalização dos Recursos Hídricos das Bacias do São Francisco e do Parnaíba para projetos em áreas de influência dos reservatórios de Sobradinho e Itaparica. São 44 municípios, todos na Bahia e em Pernambuco.
E Minas? Nesta chamada, nadica de nada em território mineiro.
Antes que alguém diga que Minas perdeu R$ 20 milhões, é preciso fazer justiça aos fatos: não foi isso que aconteceu. O edital não retirou oficialmente dinheiro que estava reservado para Minas. A chamada já nasceu com outro recorte territorial.
Mas cá entre nós: fica difícil não fazer uma certa “chatiação” mineira.
Porque quando o assunto é São Francisco, Minas não é visita. Minas é começo de conversa.
É aqui que está a nascente histórica do rio, em São Roque de Minas, e é em território mineiro que estão diversos rios e córregos que alimentam o Velho Chico. A bacia ocupa cerca de 636 mil quilômetros quadrados e se espalha por sete estados e pelo Distrito Federal. Desse território, 36,8% estão em Minas Gerais.
Então, se a ideia é revitalizar o Velho Chico, proteger somente o rio quando ele já está lá embaixo, perto de Sobradinho e Itaparica, é importante — mas não resolve a conversa inteira.
O Velho Chico não aparece pronto na Bahia.
Ele vai sendo formado aqui. Passa por nascentes, córregos, veredas, rios e afluentes. Recebe água de uma infinidade de cursos d’água antes de seguir seu caminho pelo país.
E é justamente aí que mora a preocupação mineira.
Não adianta cuidar do rio apenas depois que ele percorreu centenas de quilômetros. É preciso cuidar de onde a água nasce, de onde ela corre e de onde ela é perdida.
Assoreamento, degradação de nascentes, retirada da vegetação, erosão e ocupação inadequada das margens não são problemas que começam na Bahia. Muitos deles estão presentes também no território mineiro.
E quem conhece o Norte de Minas sabe bem o preço que a falta de água cobra.
Aqui, água não é assunto de discurso bonito. É abastecimento, produção rural, criação de gado, agricultura, indústria e sobrevivência de comunidades inteiras.
E aqui é preciso separar a indignação legítima da conta feita no lápis.
Minas não está abandonada dentro do programa de revitalização. Existem projetos mineiros aprovados pela CPR São Francisco e Parnaíba.
Entre eles estão iniciativas nas microbacias do Samburá e Ribeirão dos Patos, no Alto São Francisco; dos rios São Miguel, Bebedouro e Piratinga, no Alto Urucuia; do Alto Riachão, na sub-bacia do Pacuí; e do Rio das Pedras, na sub-bacia do Verde Grande.
Somados, os valores originalmente registrados para esses quatro projetos chegam a aproximadamente R$ 101,4 milhões.
Também aparecem no planejamento municípios mineiros como Bocaiuva, Curvelo, Três Marias, Quartel Geral, Cachoeira da Prata, Diamantina, Itabirito e Miravânia, entre outros.
Ou seja: não dá para dizer que Minas ficou sem recursos para revitalização.
Mas também não dá para achar que R$ 101 milhões resolvem a vida de um Estado que carrega mais de um terço da área da bacia.
A questão mais interessante, portanto, não é simplesmente perguntar por que os R$ 20 milhões não vieram para Minas.
A pergunta é: quanto está sendo investido na parte mineira do Velho Chico e quanto ainda será necessário investir para proteger as nascentes e os afluentes que sustentam toda a bacia?
Porque existe uma lógica meio curiosa nessa história.
A água nasce em Minas, percorre o Estado, segue para a Bahia e depois Pernambuco, abastece atividades econômicas, comunidades, agricultura, pesca e geração de energia.
Quando chega lá embaixo, aparecem grandes programas para recuperar o rio.
E aqui em cima?
Uai, o rio não precisa de cuidado antes de viajar, não?
Precisa. E muito.
Os recursos da CPR São Francisco e Parnaíba têm origem nos compromissos estabelecidos no processo de desestatização da Eletrobras. A legislação prevê repasses durante dez anos para programas de recuperação dos recursos hídricos. Para as bacias do São Francisco e do Parnaíba, o valor previsto chega a R$ 3,5 bilhões ao longo desse período.
É dinheiro destinado à revitalização.
E, sendo dinheiro para revitalizar o São Francisco, Minas precisa estar permanentemente na conversa.
Não porque queira tirar recursos de Bahia ou Pernambuco. Longe disso. Os problemas ambientais desses estados também precisam ser enfrentados.
Mas porque revitalização de bacia hidrográfica não pode ser pensada apenas pelo lugar onde o problema ficou mais visível.
Tem que olhar o rio inteiro.
Da nascente à foz.
Do pequeno córrego à grande barragem.
Da vereda mineira ao reservatório nordestino.
E o Norte de Minas?
Para nós, do Norte de Minas, essa discussão deveria ser ainda mais barulhenta.
O Pacuí e o Verde Grande, por exemplo, têm relação direta com a realidade regional. São rios que atravessam uma área onde a questão hídrica já deixou de ser apenas preocupação ambiental para virar questão econômica e social.
Então fica o recado, com toda a educação que o mineiro consegue reunir antes de começar a reclamar:
Pode recuperar Sobradinho. Pode recuperar Itaparica. Pode plantar milhões de mudas. Pode proteger as margens. Tudo isso é necessário.
Mas, pelo amor de Deus, não se esqueçam de Minas.
Porque o Velho Chico pode até ganhar o apelido de rio da integração nacional.
Mas antes de integrar o Brasil inteiro, ele nasce mineiro.
E quem tem nascente, tem responsabilidade.
E quem tem responsabilidade também tem o direito de perguntar: uai, e a nossa parte?


