EDITORIAL | ENTRE O MEDO E A SUPERAÇÃO: Como o esporte transformou minha vida aos 47 - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | ENTRE O MEDO E A SUPERAÇÃO: Como o esporte transformou minha vida aos 47

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Há batalhas que ninguém vê. Elas acontecem silenciosamente dentro da gente, entre o desejo de mudar e o medo de tentar. Durante muitos anos, eu achei que esporte não era para mim. A areia incomodava. O suor me irritava. O sol parecia um inimigo. Academia me assustava. Qualquer ambiente esportivo parecia um lugar onde eu não pertencia. E, sendo uma pessoa atípica, carregar essas dificuldades era ainda mais pesado, porque muitas vezes o mundo cobra desempenho sem entender os limites invisíveis que enfrentamos todos os dias.

Durante muito tempo, eu me escondi atrás dessas limitações. E não digo isso com vergonha. Digo com sinceridade. Porque quem vive a atipicidade sabe que coisas consideradas simples para muitos podem representar um esforço gigantesco para nós. O excesso de estímulos, o desconforto sensorial, a ansiedade social, o medo do julgamento, o receio de não acompanhar o ritmo dos outros… tudo isso pesa. Tudo isso cansa.

Mas a vida, às vezes, encontra formas inesperadas de nos puxar pela mão.

E foi assim que o beach tennis entrou na minha história.

Primeiro veio quase como uma brincadeira. Um convite. Depois virou curiosidade. Em seguida, insistência. E então, sem que eu percebesse, o esporte foi me sugando para uma nova versão de mim mesma. Uma versão que eu nem imaginava que existia.

Hoje eu olho para trás e me emociono ao perceber o quanto mudei.

A mulher que evitava areia hoje pisa nela sem medo. A mulher que odiava suor hoje sente orgulho dele. A mulher que fugia do sol agora entende que existem pores de sol que curam a alma. O beach tennis não transformou apenas meu corpo. Transformou minha mente, minha autoestima, minha coragem e principalmente minha relação comigo mesma.

E não foi fácil.

Existe uma romantização muito grande sobre superação, como se vencer limites fosse algo bonito o tempo inteiro. Não é. Muitas vezes é doloroso. É cansativo. É frustrante. Houve dias em que eu quis desistir. Dias em que me senti inadequada. Dias em que chorei depois dos treinos. Dias em que achei que nunca conseguiria acompanhar ninguém.

Mas eu continuei.

Continuei porque tive pessoas fundamentais segurando minha mão quando eu achei que não conseguiria.

Minha terapeuta, Camila Ruas, foi meu porto seguro nos sete meses mais difíceis da minha vida. Houve momentos em que eu me sentia quebrada por dentro, sem direção, sem força emocional para acreditar em mim mesma. E ela esteve ali. Me ajudando a compreender meus limites sem me aprisionar neles. Me ensinando que acolher minhas dificuldades não significava desistir de evoluir. Pelo contrário: significava construir uma força mais humana, mais gentil e mais verdadeira.

Também preciso falar da minha amiga Simone Belém, que praticamente me empurrou para o esporte. E digo isso com carinho e gratidão. Porque às vezes a gente precisa de alguém que enxergue nossa potência antes mesmo de nós enxergarmos. Ela acreditou em mim quando eu ainda colecionava desculpas, inseguranças e medos. Talvez ela nunca tenha entendido a dimensão do que fez, mas mudou minha vida.

E claro, existe alguém que presencia diariamente minhas manias, minhas crises, minhas excentricidades, minhas teimosias e minhas inseguranças: meu marido. O homem que me apoia mesmo quando nem eu consigo me suportar direito. Que entende minhas “esquisitices”, respeita meus processos e continua ali, firme, sendo abrigo. Amor também é isso: alguém que não tenta nos mudar, mas nos ajuda a florescer.

Hoje, aos 47 anos, posso dizer algo que jamais imaginei pronunciar aos 18: tenho mais disposição agora do que naquela época. Faço academia. Pedalo bike. Jogo beach tennis. Tenho mais pique, mais energia e mais vontade de viver. E não se trata apenas de estética ou condicionamento físico. Trata-se de saúde mental. De autonomia. De autoestima. De reencontro.

O esporte me devolveu partes de mim que eu achava perdidas.

Por isso escrevo este texto pensando especialmente nas pessoas atípicas que vivem acreditando que não conseguem. Nas pessoas que têm vergonha do próprio corpo, do próprio ritmo ou das próprias limitações. Nas pessoas que já ouviram a vida inteira que eram “complicadas demais”, “sensíveis demais”, “difíceis demais”.

Vocês não são demais. Vocês apenas carregam desafios que muita gente não vê.

E justamente por isso, cada pequena vitória merece ser celebrada.

Não estou dizendo que todos precisam jogar beach tennis. Cada pessoa encontrará sua própria porta de entrada: caminhada, dança, pilates, musculação, bicicleta, corrida, natação ou qualquer atividade que faça sentido dentro das suas possibilidades. O importante é entender que respeitar seus limites não significa permanecer parado para sempre.

Existe uma diferença enorme entre acolher suas dificuldades e se aprisionar nelas.

Superação não é virar outra pessoa. Superação é descobrir que você pode ser você mesmo com mais força, mais coragem e mais liberdade.

O esporte não exige perfeição. Exige presença. Constância. Tentativa.

E talvez a maior recompensa não esteja nos músculos, no fôlego ou nos resultados físicos. Talvez a maior recompensa seja olhar para si mesmo no espelho e perceber que, pela primeira vez em muitos anos, você gosta da pessoa que está vendo ali.

Mais forte.

Mais viva.

Mais inteira.

Eu encontrei isso na areia.

E sinceramente? Espero que outras pessoas também encontrem, onde quer que seja o lugar capaz de fazê-las acreditar novamente em si mesmas.