Audiência pública em Montes Claros reforça a necessidade de políticas públicas, acolhimento psicológico e fortalecimento da rede de apoio às mães durante a gestação e o puerpério
A saúde mental materna ganhou espaço no centro das discussões da Câmara Municipal de Montes Claros na manhã desta quinta-feira (28), durante audiência pública que reuniu representantes do poder público, profissionais da saúde, parlamentares e integrantes da sociedade civil para debater os desafios enfrentados por mulheres no período gestacional e pós-parto. O encontro foi proposto pela vereadora Maria Helena Lopes (MDB) e teve como foco principal o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao acolhimento psicológico e emocional das mães.
A discussão também marcou um importante avanço na consolidação do movimento “Maio Furta-Cor” no município, campanha voltada à conscientização sobre a saúde mental materna. Embora a Lei Municipal nº 5.632, que instituiu oficialmente o movimento em Montes Claros, tenha sido aprovada em dezembro de 2023, esta foi a primeira vez que o tema foi debatido formalmente no Legislativo municipal.
Ao abrir os trabalhos, a vereadora Maria Helena destacou que a aprovação da legislação foi apenas o primeiro passo e que o município precisa agora avançar na implementação de ações concretas que garantam acolhimento, assistência e acompanhamento às mulheres durante a maternidade.
Segundo a parlamentar, a maternidade ainda é cercada por cobranças sociais, romantizações e silenciamentos que acabam agravando o sofrimento emocional de muitas mães.
“Não basta aprovar leis importantes, é necessário debatê-las e criar políticas públicas eficazes. A política para as mulheres precisa ir além da discussão sobre violência e enfrentar também temas como a saúde mental materna. Só quem vive essa angústia entende o impacto que ela causa na mulher, no bebê e em toda a família”, afirmou.
A vereadora ressaltou ainda que muitas mulheres enfrentam o período gestacional e o puerpério sem suporte emocional adequado, o que pode desencadear quadros de ansiedade, depressão pós-parto, esgotamento emocional e outras complicações psicológicas que impactam diretamente toda a estrutura familiar.
Durante a audiência, diversos participantes chamaram atenção para o crescimento dos casos de sofrimento psíquico entre mães, especialmente diante da sobrecarga emocional, da falta de apoio familiar e da pressão social para que a mulher consiga conciliar maternidade, trabalho, vida doméstica e autocuidado.
A secretária municipal de Planejamento, Orçamento e Tecnologia, Priscila Batista Almeida, destacou a importância de ampliar o debate público sobre a maternidade e suas consequências emocionais. Ela defendeu a criação de políticas permanentes de acompanhamento psicológico e psiquiátrico antes e após o parto.
Priscila também alertou para os impactos da maternidade na vida profissional das mulheres, sobretudo daquelas que deixam temporariamente suas carreiras para cuidar dos filhos e encontram dificuldades para retornar ao mercado de trabalho.
“Hoje vivemos uma maternidade cada vez mais solitária. Precisamos discutir políticas públicas que acolham as mulheres e promovam saúde mental. Existe uma cobrança para que a mulher esteja sempre pronta, mas a maternidade é um aprendizado diário”, ressaltou.
A médica obstetra e ginecologista Márcia Cristina reforçou que a assistência à gestante deve ultrapassar os cuidados físicos e incluir acompanhamento emocional contínuo. Ela lembrou que as mulheres passam por intensas alterações hormonais, emocionais e psicológicas durante a gravidez e o pós-parto.
“Na sociedade, a mulher é cobrada para dar conta de tudo, enquanto enfrenta mudanças físicas, emocionais e hormonais. Por isso, é fundamental garantir assistência profissional, apoio familiar e atenção do poder público”, afirmou.
Outro destaque da audiência foi a participação do psicólogo perinatal Mauro Miranda, que enfatizou a necessidade de romper o silêncio em torno da saúde mental materna. Para ele, a responsabilidade pelo cuidado emocional das mães não deve recair apenas sobre a mulher, mas envolver também companheiros, familiares, profissionais de saúde e toda a sociedade.
“Precisamos quebrar o silêncio e falar sobre saúde mental materna sem culpa, promovendo acolhimento e apoio às mulheres”, destacou.
Representando a Secretaria Municipal de Saúde, o subsecretário João Alves afirmou que o Sistema Único de Saúde precisa se fortalecer cada vez mais para garantir atendimento humanizado e qualificado às mulheres no período gestacional e pós-parto.
“Precisamos apoiar, acolher e cuidar das pessoas. O SUS deve estar cada vez mais preparado para atender essas demandas”, pontuou.
Os vereadores presentes também contribuíram com reflexões e propostas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas para as mulheres. A vereadora Professora Iara Pimentel (PT) destacou que o sofrimento emocional das mães, especialmente das mulheres negras, ainda é invisibilizado e precisa ser tratado com seriedade por toda a sociedade.
Já o vereador Daniel Dias (PCdoB) defendeu a ampliação do número de psicólogos e psiquiatras na rede pública municipal, além da criação de programas permanentes de acompanhamento psicológico para gestantes e puérperas.
O vereador Soter Magno (PSD) afirmou que as leis precisam sair do papel e alcançar efetivamente as mulheres que necessitam de atendimento e acolhimento.
A vereadora Graça da Casa do Motor (União) chamou atenção para a realidade de mães que enfrentam dificuldades financeiras e ausência de apoio familiar durante a maternidade, fatores que contribuem diretamente para o agravamento do sofrimento emocional. Ela também defendeu a ampliação da oferta de exames de ultrassom na rede pública.
O vereador Cláudio Rodrigues (Cidadania) apresentou encaminhamentos voltados à revisão da licença-paternidade e à atualização das legislações relacionadas à saúde mental materna.
Ao final da audiência, Maria Helena anunciou que encaminhará à Câmara propostas para reformulação da Lei nº 5.632/2023, além da criação de uma rede municipal de atendimento às mulheres no pós-parto por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e das Estratégias Saúde da Família (ESFs).
A iniciativa pretende fortalecer o acompanhamento multidisciplinar das mães, oferecendo suporte psicológico, emocional e social durante o período puerperal.
Maio Furta-Cor amplia conscientização sobre saúde mental materna
O movimento Maio Furta-Cor tem como principal objetivo ampliar o debate sobre a saúde mental materna e estimular o acolhimento às mães e famílias. A campanha busca combater o estigma que ainda envolve o sofrimento psicológico feminino durante a maternidade e incentivar a construção de redes de apoio mais humanizadas.
Especialistas destacam que a gestação e o puerpério são fases marcadas por profundas transformações físicas, hormonais e emocionais. Estudos apontam que mais de 25% das mães brasileiras apresentam sintomas de depressão após o parto, evidenciando a necessidade de acompanhamento contínuo e assistência multidisciplinar.
Nesse contexto, iniciativas como o Maio Furta-Cor ganham relevância ao promover conscientização, informação e fortalecimento das políticas públicas voltadas à saúde mental das mulheres, contribuindo para uma maternidade mais acolhedora, segura e humanizada.



