Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Da gominha amarela ao café na testa, uma manhã de junho entre simpatias, memórias e autoconhecimento
Primeiro de junho.
Logo cedo, depois de fazer minha postagem sobre costurar relações — linha e agulha na mão, ponto por ponto — saí para o pilates.
No caminho encontrei uma aluna da turma anterior.
— Eu estou atrasada ou você saiu antes da hora?
Ela respondeu que havia saído no horário. Achei estranho vê-la sozinha. Alguns quarteirões depois encontrei outra.
— E você, sozinha também?
— Hoje está todo mundo saindo picado.
Sorri e segui meu caminho.
Na verdade, eu mesma tinha acordado um pouco “picada”. Não pelas horas, mas pelo estômago. Uma indisposição daquelas que parece balançar a gente por dentro.
Foi então que me lembrei de uma viagem de navio. Alguém havia comentado que uma pressão no pulso ajudava a aliviar o mal-estar. Em cima da cômoda estava uma gominha amarela de cabelo que ganhei no pilates. Sua utilidade habitual era prender cabelos. Naquela manhã, porém, ganhou uma nova função: virou pulseira terapêutica improvisada.
Cheguei à aula e mostrei minha invenção à professora.
A partir daí, a conversa tomou o rumo que as melhores conversas costumam tomar: o das memórias.
Ela contou que a avó falava de uma fitinha vermelha para curar soluço.
Aquilo abriu uma gaveta antiga na minha lembrança.
Lá do fundo saiu uma piada que ouvi ainda criança, atrás da porta do quarto do meu avô, enquanto uma amiga dele contava causos e piadas.
Numa festa infantil, uma mãe reclamava que o filho estava soluçando sem parar. Uma das convidadas ensinou:
— Amarra uma fitinha vermelha no pintinho dele que o soluço passa.
Fizeram isso. E o menino melhorou.
Dias depois, uma das participantes da festa recebeu em casa o marido chegando de madrugada, bêbado e soluçando sem parar.
Lembrou-se imediatamente da receita milagrosa.
Procurou uma fitinha vermelha. Não encontrou.
Encontrou apenas uma fita verde e amarela do diploma.
Pensou:
— Não é vermelha, mas deve servir.
Aplicou o tratamento improvisado e o marido logo apagou.
Na manhã seguinte, ela começou a bronca:
— Onde você foi parar ontem, seu safado?
O marido coçou a cabeça e respondeu:
— Onde eu fui eu não sei, meu bem. Mas que eu fui condecorado, eu fui.
Risadas gerais.
Como se não bastasse, outro aluno entrou na conversa para explicar que a versão que ele conhecia era diferente: a fitinha vermelha deveria vir acompanhada de um pouco de café na testa.
Foi aí que meu charme entrou em ação.
Em poucos minutos, a gominha amarela do pulso havia se transformado em fitinha vermelha. A fitinha vermelha havia se transformado em café na testa. E o que começou como uma tentativa de aliviar uma indisposição física acabou despertando uma reflexão.
Comecei a manhã tentando cuidar do estômago.
Terminei pensando na consciência.
Talvez não seja por acaso que junho seja, para mim, o mês das fogueiras internas.
Meu calendário diz que, entre bandeirolas e espelhos, descobrimos que a maior fogueira não está na praça. Está aqui dentro. Ela nos convida a olhar para dentro de nós mesmos e continuar.
Porque a coragem que ilumina o caminho nasce justamente do espelho que escolhemos encarar.
Autoconhecimento também é festa junina.
A diferença é que, nessa festa, cada um acende a própria fogueira.



