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Se envelhecêssemos juntos? - Rede Gazeta de Comunicação

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Se envelhecêssemos juntos?

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Nos últimos tempos, venho recebendo textos e mensagens sobre um assunto que, de tão presente, já não dá mais para deixar para depois: estamos vivendo mais. E, junto com o aumento da longevidade, vem uma pergunta bastante razoável: estamos preparados para sustentar tantos anos a mais?

A pergunta é necessária. Afinal, viver mais custa dinheiro, exige planejamento e pode trazer necessidades que nem sempre imaginamos enquanto ainda estamos ocupados demais vivendo o presente.

Mas tenho pensado que a maneira como fazemos uma pergunta também pode determinar o tamanho da resposta.

Quando a conversa sobre envelhecimento começa e termina na conta, no medo da dependência e em quem vai cuidar de quem, corremos o risco de transformar uma fase inteira da vida em um problema a ser resolvido.

E se a gente experimentasse olhar por outro ângulo?

Há algum tempo, assisti a uma série coreana chamada O Amor é Irritante, mas Eu Odeio Estar Sozinho. A história se passa em uma moradia compartilhada. Cada jovem tem seu apartamento, sua privacidade e sua rotina, mas alguns espaços são coletivos: cozinha, lavanderia, sala de convivência, área para exercícios.

Na época, assisti pensando na história. Hoje, olhando para ela de outro jeito, pensei: por que uma ideia dessas precisa ser exclusiva dos jovens?

Não estou falando de asilo, instituição ou de pessoas que já dependem de cuidados permanentes. Estou imaginando outra coisa: pessoas maduras, independentes, vivendo cada uma em seu espaço, mas compartilhando aquilo que faz sentido compartilhar.

Uma cozinha maior. Uma sala para conversar. Uma biblioteca. Uma academia. Uma aula de Pilates. Profissionais que possam atender a todos. Um jantar de vez em quando. Uma companhia para uma caminhada. E, quem sabe, alguém para bater na porta e perguntar:

— Vai tomar um café?

A ideia me fez lembrar de Stephen Covey e do seu conceito de Contínuo da Maturidade, apresentado em Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes: dependência, independência e interdependência.

Passamos boa parte da vida buscando a independência. Queremos dar conta da nossa própria vida, fazer nossas escolhas, pagar nossas contas, ter nosso espaço.

Mas a maturidade pode nos ensinar uma coisa ainda mais interessante: ser independente não significa precisar fazer tudo sozinho.

Interdependência talvez seja justamente isso: eu continuo cuidando da minha vida, você continua cuidando da sua, mas descobrimos que algumas coisas ficam melhores quando fazemos juntos.

Talvez o grande desafio da longevidade não seja apenas descobrir como pagar pelos anos que estão chegando.

Talvez seja começar a pensar como queremos viver esses anos.

Com privacidade, autonomia e liberdade, sim.

Mas também com gente por perto.

Porque envelhecer junto pode ser uma escolha muito diferente de depender dos outros.

Pode ser, simplesmente, escolher compartilhar a vida.