Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Os sinais estão dados. Não faltam estudos, previsões nem alertas. O que falta, mais uma vez, é transformar informação em ação.
Os principais órgãos oficiais de meteorologia do país — INMET e CPTEC/INPE — são categóricos ao afirmar que o fenômeno El Niño voltou a se estabelecer sobre o Oceano Pacífico e deverá ganhar força ao longo dos próximos meses. A probabilidade de sua permanência durante a primavera e o verão é extremamente elevada, trazendo impactos conhecidos sobre boa parte do território brasileiro.
Para o Norte de Minas, infelizmente, a história costuma se repetir.
Quando o El Niño se fortalece, a região tende a enfrentar temperaturas acima da média, redução das chuvas, aumento da evaporação, baixa umidade relativa do ar e uma temporada ainda mais severa de queimadas. O resultado aparece rapidamente nas lavouras, na pecuária, nos rios, nas barragens e, por consequência, no bolso da população.
Não se trata de alarmismo. Trata-se de planejamento.
O Norte de Minas conhece como poucas regiões brasileiras a realidade da escassez hídrica. Basta lembrar os períodos em que pequenos produtores perderam plantações, comunidades rurais dependeram de caminhões-pipa e cidades precisaram adotar medidas emergenciais para preservar seus mananciais.

A diferença é que, desta vez, existe tempo para agir.
Os municípios precisam revisar seus planos de contingência, fortalecer o monitoramento de queimadas, ampliar campanhas de uso racional da água e preparar a Defesa Civil para um período que pode exigir respostas rápidas. O setor agropecuário, principal motor econômico de grande parte da região, também necessita de orientação técnica para reduzir perdas, investir em irrigação eficiente e manejar adequadamente o solo.
Outro ponto que merece atenção é a saúde pública. O ar mais seco favorece doenças respiratórias, agrava problemas cardiovasculares e aumenta o risco de incêndios urbanos e florestais. Hospitais e unidades de saúde costumam sentir esses efeitos antes mesmo da chegada das primeiras grandes ondas de calor.
O erro seria imaginar que tudo isso só acontecerá quando faltar água nas torneiras. Quando esse momento chega, normalmente já é tarde para medidas preventivas.
A recente tragédia provocada pelas chuvas extremas em outras regiões de Minas Gerais mostrou que eventos climáticos estão cada vez mais intensos, sejam eles por excesso ou por falta de chuva. A mudança climática amplia esses extremos e exige dos gestores públicos uma postura menos reativa e mais preventiva.
O Norte de Minas não precisa esperar a próxima seca para descobrir que ela estava prevista.
Os alertas oficiais já foram emitidos.
Agora, cabe às autoridades, aos produtores, às empresas e à sociedade decidir se irão agir enquanto ainda há tempo ou, mais uma vez, contabilizar prejuízos quando o problema já estiver instalado.



