João Pedro Issa
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A seleção brasileira avançou, de maneira aguerrida, à próxima fase da Copa, as infames “dezesseis avas”, criação recente da deusa burocrática suíça de terno: a FIFA. Em paralelo, no mesmo grupo, também avançou o Marrocos. Que essas duas seleções tenham se classificado não é mero acontecimento futebolístico: trata-se de uma manifestação arquetípica. Foi assim que Brasil e Marrocos atravessaram a fase de grupos: não apenas como seleções, mas como manifestações de duas disposições espirituais distintas.
O Brasil, civilização tropical forjada no barroco, na boemia e no samba, iniciou sua campanha quase com a letargia característica de quem acaba de sair de uma longa noitada. Imagina-se facilmente a cena: alguns jogadores na concentração, sob os sons de cavaquinhos e com uma lata de Brahma na mão. Não se trata, evidentemente, de indisciplina; trata-se de um modo de ser.
O brasileiro celebra antes, durante e depois. Celebra a classificação, celebra a convocação, celebra o simples fato de existir. O brasileiro tem duas religiões, uma metafísica, manifestada pelo cristianismo, e outra laica, manifestada pelo futebol. No jogo contra o Marrocos, isso ficou evidente. O Brasil parecia ter saído de uma noitada, passado na padaria para tomar café e ido jogar contra o adversário. A fadiga brasileira afetava até os espectadores. Apesar disso, como todo exagero tem seu talento, acabou fazendo gol e segurando a onda posteriormente.
Já o Marrocos apresentava-se de outra maneira.
Enquanto o imaginário brasileiro sugere batuque, o imaginário marroquino evoca a prece, o chá de hortelã, o chamado para a oração e a recitação ritmada do Sagrado Alcorão. Antes do jogo, enquanto um brasileiro talvez ensaie um drible improvisado, imagina-se o marroquino recolhido, recitando de maneira quase muda: “Inshallah”.
Não é difícil compreender por que essa seleção impressiona tanto. O Marrocos joga como reza: com regularidade, disciplina e constância. Sua força não reside na habilidade artística, como é a brasileira, mas na serenidade e na perseverança.
Tem-se, então, duas formas distintas de enfrentar o destino.
O Brasil percorre seu caminho pelo excesso. Seu futebol manifesta o exagero, proveniente do barroco português e da improvisação. Mas o excesso possui seus riscos: pode conduzir tanto a uma vitória digna de um poema grego quanto a uma eliminação precoce, que vai virar uma peça trágica mais tarde. O brasileiro dança à beira do abismo e, frequentemente, consegue transformá-lo em espetáculo.
O Marrocos trilha a senda da medida. Sua força nasce da contenção e da fidelidade a uma ordem. Seu jogo recorda a cadência das orações diárias: repetidas, constantes, aparentemente simples, mas capazes de sustentar uma civilização inteira através dos séculos.
Talvez seja precisamente por isso que ambas as seleções despertem fascínio. Elas representam duas disputas pela forma espiritual. Se antes os guerreiros precisavam do deserto de Jerusalém para tal, hoje eles fazem isso nos campos gramados padrão FIFA.



