América-MG apresenta seu balanço financeiro referente ao exercício de 2025, e os números acenderam um sinal de alerta ainda mais vermelho do que o das atuações em campo
O ano de 2025 deveria representar a reconstrução do América-MG. Após o rebaixamento à Série B em 2024, a diretoria prometeu austeridade financeira, redução da folha salarial e reorganização administrativa para devolver estabilidade ao clube. Entretanto, os números do balanço financeiro referente ao exercício de 2025, divulgados pelo clube e analisados por esta reportagem, revelam um panorama oposto: o Coelho segue mergulhado em dificuldades econômicas, enquanto a equipe afunda dentro de campo.
As demonstrações contábeis apontam déficit de R$ 60,3 milhões em 2025, valor suficiente para comprometer seriamente qualquer instituição esportiva. Mais preocupante ainda é o efeito acumulativo desse rombo. Somando obrigações de curto e longo prazo, o passivo total do América atingiu R$ 244 milhões ao fim do exercício, cifra superior a três vezes a receita bruta anual do clube, estimada em R$ 71,8 milhões.
O crescimento da dívida impressiona. Em 2024, o passivo acumulado estava na faixa dos R$ 184 milhões. Em apenas doze meses, o América adicionou R$ 60 milhões às obrigações financeiras, representando aumento de aproximadamente 32,6%. A trajetória preocupa torcedores e especialistas, sobretudo diante do fraco desempenho esportivo, que reduz receitas e compromete perspectivas de recuperação.
Receitas em queda livre
O primeiro sinal de fragilidade aparece nas receitas. Em 2025, o América arrecadou apenas R$ 71,8 milhões, contra R$ 104,2 milhões registrados em 2024 – uma retração de aproximadamente 31%.
A principal fonte de receita do clube foi a categoria “outras receitas”, responsável por R$ 31,7 milhões. Segundo notas explicativas do balanço, o montante corresponde a ganhos ou perdas decorrentes da alienação de ativos intangíveis ligados aos direitos econômicos de atletas – isto é, valores associados à compra e venda de jogadores. Na prática, trata-se de uma receita muitas vezes contábil, que nem sempre significa dinheiro efetivamente em caixa. Em 2024, essa mesma rubrica havia alcançado R$ 55,2 milhões, evidenciando queda expressiva de R$ 23,5 milhões.
A segunda principal fonte foi patrocínio, publicidade, luvas e marketing, que somaram R$ 14,8 milhões, abaixo dos R$ 17,3 milhões registrados no ano anterior. A redução de aproximadamente 14,5% evidencia o impacto do rebaixamento na capacidade do clube de atrair parceiros comerciais de maior porte.
Já os direitos de transmissão, imagem e desempenho esportivo renderam R$ 12,8 milhões, valor considerado baixo até mesmo para os padrões da Série B. Parte da receita foi comprometida por antecipações feitas em anos anteriores, reduzindo a entrada líquida de recursos.
Uma das poucas boas notícias veio da bilheteria, que saltou de R$ 1,87 milhão em 2024 para R$ 4,8 milhões em 2025, crescimento de aproximadamente 156%. O aumento foi impulsionado por campanhas de sócio-torcedor e jogos de maior apelo no Independência. Ainda assim, o incremento mostrou-se insuficiente para compensar as perdas em outras áreas.
As negociações de atletas e empréstimos renderam apenas R$ 2,49 milhões, muito abaixo dos R$ 8,1 milhões arrecadados no ano anterior. O dado sugere dificuldades do clube em transformar ativos da base em receitas relevantes.
As atividades sociais, como escolinhas e eventos, geraram R$ 1,15 milhão, enquanto aluguéis e operações comerciais – incluindo lojas, estacionamento e exploração do estádio – somaram R$ 5,9 milhões, valor muito inferior aos R$ 20,1 milhões registrados em 2024.
Despesas seguem elevadas
Mesmo diante da forte queda de receitas, o América conseguiu apenas uma redução parcial dos gastos. Em 2025, as despesas totais chegaram a R$ 132,1 milhões, ante R$ 161,3 milhões em 2024, retração de 18,1%.
A folha salarial, incluindo vencimentos, direitos de imagem e encargos sociais, permaneceu como principal peso financeiro do clube. Em 2025, o custo total foi de R$ 55,7 milhões, contra R$ 71,5 milhões no ano anterior. Apesar da redução, o valor ainda é considerado elevado para um clube da Série B.
A média mensal caiu de aproximadamente R$ 5,96 milhões para R$ 4,64 milhões, mas segue acima da realidade de equipes concorrentes da divisão, muitas das quais operam com folhas entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões mensais.
As despesas esportivas, envolvendo logística, arbitragem, viagens e preparação de jogos, caíram discretamente de R$ 31,4 milhões para R$ 29,7 milhões, redução considerada modesta diante da menor quantidade de competições disputadas.
Na contramão dos cortes, as despesas administrativas aumentaram de R$ 34,3 milhões para R$ 35,4 milhões, indicando expansão de gastos burocráticos mesmo em um cenário de austeridade.
Especialistas do setor ainda estimam que as despesas financeiras, ligadas a juros, renegociações e taxas bancárias, tenham consumido entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões no período, agravando ainda mais o desequilíbrio das contas.
O retrato final é alarmante: o América segue gastando muito acima de sua capacidade de arrecadação, enquanto acumula déficits sucessivos e vê a dívida alcançar níveis historicamente elevados. Em campo, a crise se traduz em desempenho esportivo decepcionante; fora dele, o desafio será evitar que o tradicional clube mineiro transforme dificuldades temporárias em uma ameaça estrutural à própria sobrevivência.



