Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Tem cheiro de café passado cedo, de arroz no fogo baixo e de preocupação escondida atrás do sorriso. Em muitos lares de Montes Claros, o mês já não termina no calendário. Termina no bolso. Ou antes dele.
Os números divulgados em estudo produzido na Universidade Estadual de Montes Claros pela acadêmica de Ciências Econômicas Evelin de Souza Rocha não são apenas estatísticas frias. São retratos silenciosos das mesas apertadas, das contas empilhadas sobre a geladeira e das escolhas dolorosas feitas diariamente por milhares de famílias norte-mineiras.
Segundo o levantamento, o salário mínimo ideal para uma família montes-clarense de quatro pessoas viver com dignidade deveria chegar a R$ 8.224,46. Valor distante da realidade de quem sobrevive com o salário mínimo nacional de R$ 1.621. A distância entre um número e outro parece medir mais do que dinheiro: mede desigualdade, ausência e sobrevivência.
O estudo revela um dado que dói mais do que qualquer discurso econômico: apenas a alimentação básica dessa família custa R$ 2.423,76. Isso significa que o salário mínimo atual não consegue sequer comprar a comida necessária para sustentar quatro pessoas durante o mês. O alimento sozinho já consome 149,5% da renda mínima nacional.
E aí o sertão urbano pergunta, quase em silêncio: como mora quem não consegue pagar a própria comida? Como vive quem precisa escolher entre o gás e o remédio, entre a feira e a conta de luz?
No Norte de Minas, onde o calor castiga cedo e o trabalhador acorda antes do sol, muita gente já aprendeu a esticar o feijão, dividir o pão e diminuir o próprio prato para que sobre um pouco para os filhos. O drama não aparece inteiro nas planilhas, mas mora nas quitandas vazias, nas sacolas menores e na expressão cansada de quem passa o cartão torcendo para a compra ser aprovada.
O mais cruel é perceber que a inflação dos alimentos corre mais rápido do que o reajuste salarial. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, o custo da cesta básica subiu 7,41%, percentual superior ao próprio aumento do salário mínimo no ano, fixado em 6,79%. O ganho real anunciado nas tabelas oficiais praticamente evaporou diante da alta dos preços.
É como tentar encher pote furado em tempo de seca.
O estudo da Unimontes também escancara outra realidade brasileira: cerca de 35% da força de trabalho do país vive com apenas um salário mínimo. São mais de 61 milhões de brasileiros entre trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. Gente que sente no corpo qualquer aumento do arroz, do óleo, do café ou da carne.
E no Norte de Minas isso pesa diferente.
Porque aqui o povo aprendeu a resistir historicamente entre estiagens, distâncias e esquecimentos. Mas há um limite até para a coragem do sertanejo. Nenhuma dignidade se sustenta quando o básico vira luxo. Quando alimentar a família exige matemática de guerra. Quando o trabalhador precisa escolher qual necessidade terá direito naquele mês.
O problema deixa de ser apenas econômico. Passa a ser humano.
Uma cidade não cresce de verdade quando parte significativa de sua população vive permanentemente no limite da sobrevivência. Não existe desenvolvimento sólido enquanto milhões trabalham muito e continuam incapazes de acessar aquilo que deveria ser elementar: comida, moradia, saúde, transporte e educação.
O levantamento produzido pela universidade pública norte-mineira cumpre um papel fundamental justamente por dar nome científico ao sofrimento cotidiano que tantas famílias já conhecem na prática. A pesquisa transforma em dado aquilo que o povo sente no carrinho do supermercado, na feira do bairro e no aperto da carteira.
E talvez seja essa a maior função social da universidade: iluminar aquilo que muitas vezes a rotina tenta normalizar.
Porque não é normal que o alimento custe mais que o salário. Não é normal que trabalhar não garanta dignidade. Não é normal que o medo da próxima compra faça parte da rotina de quem sustenta o país com o próprio suor.
No fundo, o estudo da Unimontes não fala apenas de economia. Fala sobre o direito de viver com o mínimo de tranquilidade. Sobre a esperança de um povo que continua acordando cedo, trabalhando duro e acreditando que dias menos apertados ainda podem caber dentro do orçamento — e da vida.



