Evento promovido pela Prefeitura de Pirapora, por meio de parcerias institucionais, reuniu dezenas de mulheres agricultoras para uma maratona de serviços, palestras, atendimentos de saúde, emissão de documentos, orientação jurídica e ações de valorização pessoal e econômica
O sol ainda estava brando na manhã da última quarta-feira, 20, quando a Comunidade do Pernambuco, distante cerca de 25 quilômetros do centro de Pirapora, no Norte de Minas Gerais, começaram a pulsar com um movimento incomum. Mulheres de calça jeans, chapéu de palha, lenço no pescoço e mãos calejadas pelo trabalho diário na roça chegavam a pé, de carroça, de moto ou em vans comunitárias. O destino: o salão paroquial da comunidade, onde seria realizado o Circuito da Mulher Rural – uma iniciativa da Prefeitura de Pirapora, executada em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS), a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente (SEAGRO), a EMATER/MG, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Desde as 8h da manhã, o local se transformou em um grande centro de cidadania móvel. Cerca de 150 mulheres – número que superou as expectativas dos organizadores – preencheram as cadeiras de madeira do salão, enquanto muitas outras permaneciam em pé, atentas à programação. O evento, que se estendeu até as 16h, foi desenhado não apenas para informar, mas para escutar, acolher e empoderar quem historicamente enfrenta dupla jornada: cuidar da casa, dos filhos e ainda produzir boa parte dos alimentos que abastecem as feiras e mercados da região.
Saúde, documentos e cidadania na ponta do lápis
A primeira grande atração do circuito foi a carreta da saúde, estacionada em frente à igreja da comunidade. Dentro dela, enfermeiros e técnicos da Secretaria Municipal de Saúde realizaram testes rápidos de glicemia, aferição de pressão arterial, atualização do cartão de vacina – com destaque para a imunização contra HPV e gripe – e coleta de preventivo (exame Papanicolau). Para muitas daquelas mulheres, era a primeira oportunidade em meses de passar por uma consulta de enfermagem sem precisar encarar horas de ônibus até a cidade.
“Eu moro na Vereda do Buriti, a três léguas da estrada de terra. Para ir a Pirapora, pego dois transportes e perco o dia inteiro. Hoje, fiz o preventivo, tomei a vacina e ainda aprendi a medir minha pressão sozinha. Isso aqui é uma benção”, relatou Maria Aparecida de Jesus, 54 anos, agricultora familiar e mãe de quatro filhos, enquanto aguardava o atendimento odontológico emergencial – outro serviço disponibilizado por meio de uma unidade móvel do programa Brasil Sorridente.
Ao lado da área da saúde, funcionava o posto de emissão de documentos. Servidores do Poupatempo itinerante e do cartório de registro civil de Pirapora emitiram 47 carteiras de identidade, 32 certidões de nascimento (muitas delas de adultas que jamais haviam registrado o próprio documento em dia) e encaminharam 18 solicitações de CPF. A procura foi tão intensa que a fila se estendeu para fora do salão, sob uma lona improvisada que protegia as mulheres do sol forte.
Palestras que tocam a alma e o bolso
Enquanto os serviços de saúde e documentação ocorriam nos fundos do salão, a programação principal acontecia no palco montado sobre o altar da igreja. Às 9h30, a assistente social e coordenadora de projetos da SEMAS, Cristiane Mendes, abriu as palestras com o tema “Mulher Rural: Direitos, Violências e Redes de Apoio” . Em uma fala direta e sem rodeios, ela expôs dados alarmantes: segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 43% das mulheres que vivem em zonas rurais já sofreram algum tipo de violência doméstica, mas apenas 7% denunciam por medo de represálias ou por desconhecerem os canais de ajuda.
“Muitas de vocês acham que apanhar do marido é ‘coisa de família’, ou que não têm direito à pensão alimentícia porque moram no campo. Isso é mentira. A Lei Maria da Penha vale para todas, e a rede de proteção chega sim até aqui”, afirmou Cristiane, sendo aplaudida de pé. Em seguida, ela distribuiu cartilhas com telefones úteis – 180, 190 e o número da Patrulha Rural da Guarda Municipal de Pirapora – e anunciou que a SEMAS criará um ponto fixo de atendimento psicológico na Comunidade do Pernambuco, às terças-feiras, a partir de maio.
Na sequência, o engenheiro agrônomo da EMATER/MG, Rogério Alves, falou sobre “Acesso ao Crédito Rural e Programas de Fortalecimento da Agricultura Familiar” . Ele explicou, de forma didática, como as mulheres podem se inscrever no Pronaf Mulher, obter microcrédito orientado (com juros de apenas 2,5% ao ano) e até mesmo regularizar a propriedade por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR). “Vocês produzem queijo, doce de leite, hortaliças, galinha caipira. Muita coisa já tem valor agregado, mas falta organização. O Sebrae e a EMATER podem ajudar a formar cooperativas”, ensinou.
Depoimentos que emocionaram a plateia
Um dos momentos mais aguardados do circuito foi a roda de conversa mediada pela presidente do CMDRS, Joana D’arc Ribeiro, ela própria uma mulher rural que há 20 anos cultiva mandioca e feijão na localidade de Barrinha. Três agricultoras da própria Comunidade do Pernambuco subiram ao palco para contar suas histórias.
A primeira foi Raimunda Nonata Silva, 62 anos, que relatou como criou sozinha cinco filhos após a morte do marido, vítima de acidente com trator. “Plantava de tudo. Roçava capim para as vacas, tirava leite antes do sol nascer, vendia queijo no mercado de Pirapora. Meus filhos todos formaram – uma é professora, outra é enfermeira. Hoje tenho orgulho de dizer: sou agricultora e minha mão alimentou esta família”, disse, com a voz embargada.
Em seguida, a jovem Letícia dos Santos, 23 anos, contou como largou um emprego de balconista no centro de Pirapora para voltar à roça e investir no cultivo de flores comestíveis e temperos orgânicos. “No começo, todo mundo achou loucura. Hoje forneço para três restaurantes da cidade e vendo em feiras semanais. Esse circuito me deu coragem para pedir um financiamento e comprar uma estufa”, revelou, mostrando uma foto do pequeno negócio.
Artesanato, culinária e geração de renda
O almoço foi servido no estilo mutirão: cada mulher trouxe um prato típico, e a organização disponibilizou arroz, feijão e refrigerantes. Houve troca de receitas e até um concurso improvisado do melhor doce de leite caseiro – vencido por Sebastiana Lopes, 71 anos, que aprendeu a técnica com a avó escravizada. O prêmio foi um kit de panelas de alumínio doado por um comerciante local.
À tarde, a programação se voltou para o artesanato e a geração de renda. Oficinas de bordado livre, reciclagem de garrafas PET em vasos para mudas e fabricação de sabão caseiro com óleo de cozinha usado atraíram dezenas de participantes. A artesã e instrutora do SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), Margareth Queiroz, ensinou técnicas simples de estamparia em tecido de algodão cru, usando carimbos feitos com emborrachado e tinta ecológica.
Fala das autoridades e compromissos futuros
A secretária municipal de Assistência Social, Bilu Diniz, percorreu todas as estações do circuito e conversou individualmente com dezenas de mulheres. Em entrevista ao final do evento, ela ressaltou o caráter contínuo da iniciativa: “Esse circuito representa acolhimento, valorização e oportunidade. Não é um evento isolado. Nosso objetivo é fortalecer essas mulheres que têm papel fundamental no desenvolvimento das comunidades rurais e garantir que elas tenham acesso à informação, direitos e políticas públicas. Já estamos planejando as próximas edições nas comunidades de São Geraldo, Boa Vista e Lagoa das Pedras.”



