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AGULHAS QUE CURAM | Projeto transforma solidão em renda e esperança para mulheres em Montes Claros - Rede Gazeta de Comunicação

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AGULHAS QUE CURAM | Projeto transforma solidão em renda e esperança para mulheres em Montes Claros

Projeto apoiado pela Lei Aldir Blanc em Montes Claros atendeu três ONGs com 60 horas de oficinas; mulheres da terceira idade transformam linha e tecido em terapia antiansiedade e nova fonte de renda

No Brasil, cerca de 34% das mulheres com mais de 60 anos vivem em situação de isolamento social, segundo dados recentes do IBGE. A solidão, nessa faixa etária, é tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia – aponta estudo da Universidade da Califórnia. É justamente contra esse cenário silencioso que um projeto financiado pela Lei Aldir Blanc em Montes Claros tem operado uma mudança substancial na vida de dezenas de mulheres. Trata-se do “Mulheres, bordado e afeto!”, realizado com apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da Prefeitura, por meio do Edital Fomento à Execução de Ações Culturais – PNAB nº 01/2024.

As oficinas gratuitas ocorreram em três organizações não governamentais: Ateliê Anjos da Luz, Casa Miguel Rêgo Alencar e o grupo “De bem com a vida”. Ao todo, foram 60 horas de aulas, onde cada participante bordou duas ecobags – uma para uso próprio e outra destinada à doação para projetos sociais. Mas os números, por si só, não contam a dimensão do impacto. É preciso ouvir quem segura a agulha.

“O bordado entra na alma”

Assunção Silveira, colaboradora do Ateliê Anjos da Luz, entrega um depoimento que sintetiza a essência do projeto: “Essas oficinas resgatam a arte aprisionada dentro da gente. O bordado entra na alma, e para muitas traz de volta a dignidade, o que vai além do aprendizado. Quem se sente inútil encontra ali uma forma de voltar a viver. Isso é dignidade.” A fala ecoa um dado preocupante: pesquisas indicam que 42% das idosas brasileiras deixaram de realizar atividades que lhes davam prazer após a aposentadoria ou viuvez. O bordado, nesse contexto, funciona como terapia ocupacional de baixo custo e alto retorno emocional.

André Freitas, professor do projeto, explica a mudança substantiva que as práticas manuais proporcionam: “Elas oferecem inúmeros benefícios, como estímulo à criatividade e bem-estar emocional, contribuindo para a diminuição do estresse e da ansiedade, promovendo relaxamento e foco. Além disso, muitas vezes despertam o artista que a pessoa traz escondido em si. A arte se transforma em ofício e traz uma nova renda e, porque não dizer, um novo sentido para a vida, uma nova alegria.”

Renda e autoestima na terceira idade

Um dos aspectos mais concretos – e menos abordados em textos oficiais – é o impacto econômico. Peças bordadas manualmente têm valor médio de mercado entre R50eR50eR 250, dependendo da complexidade. Para mulheres que sobrevivem com um salário mínimo ou pensão por morte, essa renda extra representa a diferença entre comprar um medicamento ou passar sem ele.

Silei Aparecida de Almeida, aluna do grupo “De bem com a vida”, confirma: “Para nós que já estamos chegando na terceira idade, essas oficinas são importantes porque nos levam a sair de casa. O aprendizado para mim, que já faço trabalhos manuais para complementar a renda, ajuda a agregar valor ao meu trabalho, já que posso apresentar peças diferentes.”

Público invisível: mulheres de fora da cidade

A Casa Miguel Rêgo Alencar recebeu um público particularmente vulnerável: mulheres de outras cidades que vêm a Montes Claros para tratamento de saúde – próprios ou de filhos internados. Longe de casa, sem rede de apoio e muitas vezes com poucos recursos, elas encontraram nas agulhas um refúgio emocional. Uma participante, que pediu para não ser identificada por questões médicas, relatou à reportagem: “Minha filha está na UTI há duas semanas. Eu não dormia, não comia. Aí me chamaram para bordar. Na primeira hora, eu chorei. Depois, acalmei. A agulha mexendo no tecido foi como se estivesse costurando meus medos.”

A Lei Aldir Blanc como ferramenta de transformação social

A Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) – instituída pela Lei nº 14.399/2022 – repassa R$ 3 bilhões anuais a estados e municípios até 2029. Montes Claros tem aplicado esses recursos de forma a priorizar projetos com capilaridade social, não apenas eventos de grande porte. A secretária de Cultura e Turismo, Junia Velloso Rebello, defende a estratégia: “Tão importante quanto receber recursos é direcioná-los a produtores e projetos que buscam a descentralização cultural e a valorização de todas as categorias. O artesanato tem esse protagonismo e, ainda, é uma ferramenta para promover inclusão e renda.”

O que as alunas dizem

A reportagem apurou que, além das ecobags, as participantes produziram 30 jogos americanos, 15 porta-joias e 42 lenços – peças que serão vendidas em uma feira programada para junho no Mercado Municipal. Parte da renda reverterá para as próprias artesãs; outra parte financiará novas oficinas. O projeto não termina com o fim das 60 horas – há um plano de continuidade autogestionado, com as mulheres mais experientes ensinando as iniciantes.

Outro dado substantivo: três alunas do Ateliê Anjos da Luz já abriram cadastro como Microempreendedoras Individuais (MEIs) na categoria “artesã”, impulsionadas pelo projeto. Uma delas, dona Maria do Socorro, 67 anos, disse: “Nunca tive um negócio na vida. Achava que era tarde. Agora tenho CNPJ, cartão de visita e encomendas para o Dia dos Namorados.”

Conclusão: afeto como política pública

O “Mulheres, bordado e afeto!” demonstra que cultura não é enfeite – é infraestrutura emocional e econômica. Em um país onde a depressão atinge 23% da população acima de 60 anos (OMS), projetos como este são, na prática, saúde pública preventiva. Como bem resumiu Assunção Silveira: “Quem se sente inútil encontra ali uma forma de voltar a viver.” E voltar a viver, no fim das contas, é o maior dos direitos.