Projeto da Praça de Esportes leva 21 atletas com deficiência ao Circuito da Inconfidência; programa estadual Núcleos de Fomento ao Paradesporto abrirá 180 vagas em sete modalidades ainda em 2026.
Em uma mudança substancial na política de esporte e lazer da cidade, Montes Claros deixou de tratar o atleta com deficiência como mero coadjuvante de eventos inclusivos para posicioná-lo como protagonista de competições oficiais de corrida de rua. A virada de chave aconteceu no último domingo (10), quando 21 paratletas vinculados ao projeto “Turma da Praça de Esportes” participaram da segunda etapa do Circuito da Inconfidência, realizada no entorno do Parque Cândido Canela, com percursos oficiais de 3 km e 5 km, além da caminhada.
A novidade representa uma ruptura com o modelo assistencialista que historicamente isolava pessoas com deficiência (PCDs) em atividades recreativas sem cronometragem, sem ranking e sem visibilidade pública. Desta vez, os atletas correram lado a lado com a população geral, tiveram seus tempos registrados e foram tratados pela organização do evento com a mesma estrutura oferecida aos demais competidores – algo inédito para a região Norte de Minas, segundo a Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude.
O Circuito da Inconfidência é uma competição promovida por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, com patrocínio da Copasa, e prevê dez etapas em cidades do interior mineiro. A abertura ocorreu em Mariana, e Montes Claros foi a única cidade do Norte de Minas e Vales do Jequitinhonha e Mucuri convidada a sediar uma das etapas – justamente por já dispor de uma política estruturada de paradesporto. Ao todo, mais de 450 inscritos participaram da prova montes-clarense.
A “Turma da Praça de Esportes” é fruto de um trabalho iniciado no primeiro semestre de 2025, quando a atual gestão municipal decidiu institucionalizar o Atletismo Paralímpico como política pública contínua, e não como ação isolada. Atualmente, o projeto conta com 28 alunos regulares, divididos em turmas matutinas (12 alunos) e vespertinas (16 alunos), organizadas conforme o contraturno escolar e institucional dos participantes. As parcerias incluem a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), a Associação dos Surdos de Montes Claros (Asmoc) e o Instituto Amor Down – este último com atividades de ginástica também realizadas na Praça de Esportes.
O coordenador técnico do projeto, professor Fredson Randey, acompanhou os 21 paratletas durante todo o percurso ao lado de dois estagiários monitores. Em entrevista, ele destacou o caráter transformador da experiência: “Tivemos uma participação bem expressiva nesta prova, e agradecemos aos organizadores pelo convite. Tudo bem pensado dentro do que estamos desenvolvendo em nossas aulas, assim como o envolvimento e a dedicação de nossos alunos”. A fala do treinador evidencia um dos pilares da mudança substancial promovida pela gestão: a substituição do voluntarismo eventual por um planejamento pedagógico que conecta treino diário a competições reais.
Mas as transformações não param por aí. Além do atletismo, a Praça de Esportes já oferece iniciação esportiva em judô e vôlei para pessoas com deficiência – duas modalidades que historicamente careciam de estrutura pública na cidade. E para as próximas semanas, a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude lançará o programa Núcleos de Fomento ao Paradesporto (NFPs), uma parceria com o Governo do Estado que representa a maior expansão já vista na oferta de modalidades para PCDs em Montes Claros.
O NFPs terá vigência de 12 meses, com 180 vagas totalmente gratuitas, distribuídas em sete modalidades: atletismo, bocha, futebol, vôlei, ginástica, judô e tênis de mesa. As inscrições serão abertas nos próximos dias e permanecerão disponíveis até o preenchimento de todas as turmas. A expectativa da Secretaria é que o programa atenda não apenas crianças e jovens, mas também adultos com deficiência adquirida ou congênita, muitos dos quais nunca tiveram acesso a treinamento especializado.
Outro aspecto de relevo é a localização física das atividades. A Praça de Esportes consolida-se, assim, como um centro de referência em paradesporto no Norte de Minas, rompendo com a lógica anterior de que espaços públicos de lazer eram inacessíveis ou despreparados para PCDs. A presença de rampas, banheiros adaptados e monitores treinados passou a ser regra, não exceção – uma conquista que organizações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência classificam como “mudança estrutural de longo prazo”.
Para os próximos meses, a programação inclui a participação da Turma da Praça de Esportes em outras etapas do Circuito da Inconfidência, bem como a organização de uma corrida interna exclusiva para paratletas ainda no segundo semestre de 2026. A meta, segundo a Secretaria, é que Montes Claros se torne pólo irradiador do paratletismo no interior mineiro, oferecendo não apenas treino, mas também competição, visibilidade e, sobretudo, cidadania plena para pessoas com deficiência – um direito historicamente negado e agora gradualmente restabelecido por meio do esporte.



