Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Há entrevistas que apenas informam. Outras revelam. E existem aquelas raras conversas que, mais do que registrar uma trajetória, nos permitem atravessar o tempo ao lado de alguém. Foi exatamente essa sensação que tive ao ouvir Márcia Sá.
Entre uma memória e outra, entre risos, pausas e silêncios carregados de significado, a entrevista deixou de ser apenas um exercício jornalístico para se tornar um encontro de gerações da imprensa montes-clarense. Um encontro entre duas mulheres que conhecem os bastidores da notícia, o peso das redações, as urgências invisíveis do jornalismo e, sobretudo, os desafios silenciosos de permanecer de pé em um ambiente historicamente duro com mulheres que ousam ocupar espaços.
Márcia fala como quem organiza fotografias antigas dentro da memória. E talvez não seja coincidência. Filha de fotógrafo e de professora, ela cresceu entre a sensibilidade da arte e a disciplina do conhecimento. Há algo de musical na maneira como ela narra a própria história — talvez herança dos anos dedicados ao piano erudito —, porque suas lembranças possuem ritmo, profundidade e delicadeza.
Enquanto ela falava sobre conservatório, redações, colunas sociais e reportagens empresariais, eu não enxergava apenas a profissional experiente. Via também a jovem mulher que enfrentou julgamentos, resistências e preconceitos em uma época em que ser mulher, bonita, inteligente e visível parecia incomodar mais do que deveria.
E talvez seja exatamente aí que mora a força desta entrevista.
Márcia não construiu sua trajetória no grito. Construiu com presença. Com preparo. Com disciplina. Com a coragem silenciosa de quem decidiu continuar trabalhando mesmo quando tentaram diminuir sua competência através de ataques pessoais e insinuações cruéis — realidade que infelizmente muitas mulheres ainda conhecem bem.
Ao longo da conversa, percebi que sua maior herança não veio apenas do jornalismo ou da música, mas da capacidade de resiliência aprendida dentro de casa. A figura da mãe aparece em quase todos os caminhos da narrativa: uma mulher forte, intelectual, firme e prática diante das dores da vida. Uma mulher que ensinou aos filhos que o trabalho também pode ser uma forma de reconstrução.
E talvez por isso Márcia fale tanto sobre propósito.
Porque quem atravessa perdas, mudanças e recomeços entende que a vida não se sustenta apenas em talento. É preciso ter direção. É preciso encontrar sentido.
Em tempos de excesso de superficialidade, ouvir alguém defender disciplina, estudo e profundidade humana soa quase revolucionário.
Esta entrevista não fala apenas sobre jornalismo. Ela fala sobre permanência. Sobre reinvenção. Sobre mulheres que aprenderam a endurecer o casco sem perder a delicadeza. Sobre o tempo em que redações tinham cheiro de papel impresso, mas também sobre a necessidade de continuar acompanhando as transformações do mundo sem abandonar a essência.
Conversar com Márcia Sá foi, acima de tudo, ouvir uma mulher que continua em movimento. E talvez seja justamente isso que mantém algumas pessoas inesquecíveis: elas nunca param de aprender, de sentir e de recomeçar.



