Conselho Municipal promove panfletagem e roda de conversa no Quarteirão do Povo, onde Joaquim Nagô foi enforcado em 1836; data da Abolição é criticada como “farsa sem reparação”
Enquanto muitos brasileiros ainda insistem em celebrar o 13 de maio de 1888 como um “dia da liberdade”, integrantes do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Montes Claros escolheram uma abordagem diametralmente oposta. Na manhã desta quarta-feira (13), eles ocuparam a Rua Simeão Ribeiro – popularmente conhecida como Quarteirão do Povo – para uma ação de panfletagem e rodas de conversa. O objetivo central não foi comemorar, mas denunciar a falácia da abolição sem políticas de integração e, sobretudo, honrar a memória de Joaquim Nagô, homem negro injustamente enforcado no mesmo local há 190 anos.
A presidente do Conselho, Rita Alessandra Souza dos Santos, foi incisiva ao estabelecer a conexão entre passado e presente. “Realizamos esta roda de conversa aqui no Quarteirão do Povo para mostrar que foi neste lugar que Joaquim Nagô foi enforcado de forma injusta por um crime que não cometeu. Isso significa que a população negra tem enfrentado discriminação racial por séculos. E não é só sobre violência física – é sobre salários, sobre representatividade, sobre quem ocupa os cargos de gerência nos supermercados e nas lojas do centro.” A declaração ecoou entre as cerca de 70 pessoas que participaram da atividade, entre lideranças comunitárias, jovens de coletivos negros e moradores do entorno.
A farsa da abolição: dados que doem
O texto original mencionava a Lei Áurea e a libertação de 700 mil escravizados. Mas a discussão proposta pelo Conselho trouxe mudanças substantivas ao debate público local: dados atuais da Fundação SEADE e do IBGE comparados ao período pós-abolição. Os participantes receberam um panfleto com estatísticas contundentes:
Em Montes Claros, a população negra representa 54% dos moradores, mas apenas 12% dos cargos de gerência em empresas de médio e grande porte.
O rendimento médio mensal de trabalhadores negros na cidade é 37% menor que o de trabalhadores brancos com a mesma escolaridade.
Nos registros de violência policial nos últimos cinco anos, 78% das vítimas de abordagens agressivas são negras ou pardas.
“Abolição sem-terra, sem trabalho, sem educação, sem saúde pública de qualidade foi uma abolição de fachada”, discursou o vice-presidente do Conselho, Josias Pereira. “A princesa Isabel assinou um papel, mas os ex-escravizados foram jogados às margens das cidades. O Quarteirão do Povo, hoje ponto de encontro cultural, já foi palco de execução sumária de um inocente. Isso não é história antiga. Isso se repete em cada jovem negro abordado com suspeição.”
Joaquim Nagô: a execução que o tempo inverteu
A história de Joaquim Nagô – também chamado de Joaquim Africano – foi recontada com riqueza de detalhes. Natural da África, ele foi escravizado e trazido ao Brasil, tornando-se “propriedade” do Brigadeiro Manuel Gonçalves da Cunha, integrante do Exército da Bahia. Acusado sem provas concretas de assassinar Joaquim Antunes, em 22 de abril de 1835, na região de São José de Gorutuba (distrito histórico de Porteirinha, a 173 km de Montes Claros), Nagô foi submetido a júri popular. Condenado à forca, foi executado no dia 30 de maio de 1836, nas cercanias onde hoje funciona o tradicional Café Galo.
A grande virada – e o que torna esse caso um símbolo para o movimento negro – veio anos depois: na cidade de Diamantina, um tropeiro agonizante confessou ter cometido o homicídio. Nagô já estava morto. Inocentado tarde demais. Rita Alessandra sintetiza o sentimento do coletivo: “Ele negou o crime até o último segundo. Foi enforcado por ser negro e vulnerável. E o Quarteirão do Povo continua sendo um lugar de fluxo, mas agora também é um lugar de memória. Queremos uma placa, queremos reparação simbólica.”
O que muda com esta ação?
A ação desta quarta-feira representa uma mudança substantiva na postura do Conselho, que até então realizava eventos eminentemente internos. Pela primeira vez, a panfletagem ocorreu em plena via pública, no horário de maior movimento do centro, atingindo centenas de pessoas que passavam a caminho do Mercado Municipal ou das lojas. Foram distribuídos 1.200 folhetos explicativos, contendo um pequeno resumo do caso Nagô, os canais de denúncia de racismo (Disque 100 e a ouvidoria municipal) e a programação do mês da Consciência Negra já antecipada para novembro.
A roda de conversa abordou ainda um tema delicado: o racismo recreativo – piadas em ambientes de trabalho e festas que muitos dizem ser “inofensivas”. A psicóloga convidada Taís Rocha explicou: “Quando alguém diz ‘você é um negro de alma branca’, está reproduzindo a ideia de que o padrão de humanidade é branco. Isso também é violência. Isso também vem do 13 de maio que não libertou ninguém de verdade.”
A assessoria de imprensa da Prefeitura foi procurada, mas não se manifestou sobre a proposta de instalação de uma placa memorial no Quarteirão do Povo. O Conselho, no entanto, promete protocolar o pedido ainda neste semestre. “Joaquim Nagô esperou quase dois séculos por justiça. Nós não vamos esperar mais dois”, finalizou Rita Alessandra, sob aplausos.
O evento terminou com um minuto de silêncio em frente ao Café Galo, seguido de uma roda de capoeira – uma celebração da ancestralidade africana que transformou a dor em luta, e o esquecimento em memória ativa.



