Da Guerra Fria à Guerra ao Terror, uma sequência de intervenções, alianças e decisões estratégicas ajuda a explicar como conflitos iniciados décadas antes produziram consequências que ainda repercutem na política internacional — e chegam hoje ao Brasil
PAULA PEREIRA
Quando um fato ganha o mundo, suas raízes geralmente estão fincadas décadas antes, em decisões políticas, disputas ideológicas, interesses estratégicos, conflitos militares e alianças que, naquele momento, pareciam fazer sentido.
Os 25 anos dos atentados de 11 de setembro de 2001 oferecem uma oportunidade para revisitar essa sequência. As imagens das Torres Gêmeas em chamas, do Pentágono atingido e das pessoas correndo pelas ruas de Nova York permanecem entre as mais marcantes da história contemporânea. Mas compreender o 11 de Setembro exige olhar para muito antes daquela manhã.
A história começa, nesse recorte, em plena Guerra Fria.
O Afeganistão como campo de batalha da Guerra Fria
Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão para sustentar um governo aliado em meio a uma crescente instabilidade interna. O conflito transformou o país em um dos principais palcos da disputa entre Washington e Moscou.
Os Estados Unidos passaram a apoiar grupos da resistência afegã, os chamados mujahideen, como parte de uma estratégia destinada a elevar o custo da ocupação soviética. A operação envolveu armas, dinheiro e treinamento, em uma complexa rede que contou também com a participação do Paquistão e de outros atores regionais.
A lógica era característica da Guerra Fria: enfraquecer o adversário utilizando forças locais.
A estratégia funcionou sob determinado ponto de vista. A ocupação soviética tornou-se cada vez mais custosa e, em 1989, as tropas de Moscou deixaram o Afeganistão. Dois anos depois, a própria União Soviética desapareceria.
O problema é que o fim da guerra não significou o fim dos grupos armados.
O Afeganistão continuou mergulhado em conflitos internos, enquanto diferentes facções disputavam o poder. Nesse ambiente, Osama bin Laden e a Al-Qaeda ganharam espaço. Anos depois, o Talibã assumiria o controle de grande parte do país e ofereceria abrigo à organização de bin Laden.
Isso não significa afirmar que os Estados Unidos criaram a Al-Qaeda. A organização teve trajetória própria, lideranças, objetivos e responsabilidades. O ponto histórico é outro: as alianças e operações construídas durante a Guerra Fria ajudaram a formar um ambiente político e militar cujas consequências seriam muito diferentes das inicialmente imaginadas.
É nesse ponto que aparece um conceito importante para compreender a política internacional: blowback, ou efeito rebote.
O efeito rebote das decisões internacionais
O termo é utilizado para descrever situações em que uma ação de política externa produz, posteriormente, consequências negativas ou inesperadas para quem a tomou.
Uma potência apoia determinado grupo para enfrentar um adversário. O inimigo é derrotado ou abandona o território. A conjuntura muda. O aliado deixa de ser necessário. Novos grupos surgem. E, anos depois, aquele mesmo ambiente pode se transformar em uma ameaça.
O blowback não pressupõe conspiração nem significa que os resultados tenham sido planejados. Trata-se justamente do contrário: decisões tomadas para resolver problemas imediatos podem produzir consequências que escapam ao controle dos governos responsáveis por elas.
O Afeganistão se tornaria um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica.
Mas a participação americana em conflitos estrangeiros não começou ali.
A política de intervenção americana
Ao longo da Guerra Fria, os Estados Unidos construíram uma política externa marcada pela disposição de intervir em crises consideradas estratégicas para sua segurança ou para a manutenção de seus aliados.
Em 1950, quando a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul, os Estados Unidos lideraram uma força militar multinacional sob o comando das Nações Unidas. Washington forneceu a maior parte das forças da coalizão, em uma guerra que se tornou um dos primeiros grandes conflitos armados da Guerra Fria.
Em 1958, os Estados Unidos enviaram tropas ao Líbano após um pedido do governo libanês, em meio a uma crise política e ao temor de expansão da influência regional de forças alinhadas ao nacionalismo árabe e ao comunismo. A operação durou alguns meses.
No mesmo ano, a crise na Jordânia levou Washington a fornecer apoio ao rei Hussein, enquanto tropas britânicas eram deslocadas para o país. A instabilidade regional era observada pelos Estados Unidos dentro do contexto mais amplo da disputa entre Ocidente e União Soviética.
No Vietnã, a participação americana começou com apoio financeiro, militar e logístico ao governo do Vietnã do Sul. O envolvimento aumentou progressivamente até chegar ao envio de centenas de milhares de soldados americanos.
Em 1965, os Estados Unidos também intervieram na República Dominicana, durante uma guerra civil. Embora a intervenção tenha ocorrido em um contexto no qual havia solicitação de apoio, Washington tinha seus próprios objetivos geopolíticos relacionados ao temor de que a crise abrisse espaço para uma nova experiência revolucionária semelhante à de Cuba.
Esses episódios revelam um padrão: em diferentes momentos, os Estados Unidos justificaram intervenções pela defesa de aliados, pela proteção de governos, pela contenção do comunismo, pela defesa da soberania ou pela necessidade de impedir que uma crise regional se transformasse em uma ameaça internacional.
A narrativa de Washington como potência responsável por preservar a ordem mundial ganhou força.
Mas toda intervenção produz custos, e nem sempre os resultados permanecem sob controle de quem intervém.
Saddam Hussein e a Guerra do Golfo
Em 1990, o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kuwait. A invasão provocou uma crise internacional e levou os Estados Unidos a liderarem uma ampla coalizão autorizada pelas Nações Unidas.
Em 1991, a Guerra do Golfo expulsou as tropas iraquianas do território kuwaitiano.
O petróleo era um elemento estratégico evidente. O Golfo Pérsico concentrava parte importante das reservas mundiais e tinha enorme relevância para a economia internacional.
Mas reduzir a guerra simplesmente a uma disputa por petróleo seria insuficiente.
Havia uma invasão de um país soberano, o risco de alteração do equilíbrio de poder no Oriente Médio, a ameaça à segurança dos países aliados e o receio de que Saddam Hussein ampliasse ainda mais sua influência regional.
O conflito reforçou a posição dos Estados Unidos como principal potência militar após o fim da Guerra Fria.
Poucos anos depois, porém, essa mesma região voltaria ao centro da política internacional.
11 de Setembro: quando a guerra chegou aos Estados Unidos
Em 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por integrantes da Al-Qaeda. Dois atingiram as Torres Gêmeas, em Nova York. Outro atingiu o Pentágono, em Washington. O quarto caiu na Pensilvânia após a reação dos passageiros.
O impacto foi imediato.
Os Estados Unidos, até então acostumados a projetar seu poder militar para outras regiões do mundo, sofreram um ataque de grandes proporções dentro do próprio território.
A resposta política e militar foi rápida.
Em 18 de setembro de 2001, o Congresso americano aprovou a Autorização para Uso de Força Militar, conhecida como AUMF. A medida autorizou o presidente George W. Bush a utilizar a força necessária e apropriada contra países, organizações ou pessoas que fossem consideradas responsáveis pelos ataques ou que tivessem abrigado seus responsáveis.
A autorização tornou-se uma das principais bases legais da chamada Guerra ao Terror.
O primeiro alvo foi o Afeganistão.
O retorno ao Afeganistão
Em outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram a operação militar no Afeganistão para combater a Al-Qaeda e derrubar o regime Talibã, que havia oferecido abrigo à organização.
O Talibã perdeu rapidamente o controle de Cabul, mas a guerra não terminou.
Começava uma campanha militar que se prolongaria por aproximadamente duas décadas.
O paradoxo histórico era evidente: o mesmo território em que os Estados Unidos haviam apoiado forças contra a ocupação soviética agora recebia tropas americanas para combater organizações que haviam crescido naquele ambiente político e militar.
Os inimigos haviam mudado. As alianças haviam mudado. A conjuntura internacional era outra.
Mas o território era o mesmo.
A guerra se prolongaria até 2021, quando os Estados Unidos retiraram suas tropas e o Talibã voltou ao poder.
O Afeganistão tornou-se, assim, um dos exemplos mais claros de como uma intervenção pode atravessar gerações e produzir consequências muito diferentes das inicialmente previstas.
Iraque: a segunda grande frente
A Guerra ao Terror não ficou restrita ao Afeganistão.
Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque sob a alegação de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e representava uma ameaça à segurança internacional.
As armas não foram encontradas.
Saddam Hussein foi derrubado e posteriormente executado, mas a queda do regime não trouxe estabilidade.
O Iraque mergulhou em conflitos internos, violência sectária e insurgência. A desorganização do Estado abriu espaço para diferentes grupos armados.
Anos depois, o Estado Islâmico encontraria naquele ambiente condições para crescer e conquistar territórios no Iraque e na Síria.
Mais uma vez, o conceito de blowback ajuda a compreender a sequência.
Uma intervenção destinada a eliminar uma ameaça produziu um cenário de instabilidade que, posteriormente, ajudou a alimentar novas ameaças.
Isso não significa estabelecer uma relação automática entre a invasão do Iraque e o surgimento do Estado Islâmico, muito menos retirar dos grupos extremistas a responsabilidade por suas próprias ações. Significa reconhecer que guerras modificam sociedades, destroem estruturas de poder e podem criar espaços para organizações que antes não existiam ou não tinham a mesma capacidade de atuação.
O custo da Guerra ao Terror
A narrativa de combate ao terrorismo foi acompanhada por uma mobilização militar, econômica e política de proporções gigantescas.
As guerras pós-11 de Setembro custaram trilhões de dólares aos Estados Unidos. Estimativas apontam para aproximadamente US$ 8 trilhões em gastos e compromissos relacionados às guerras e operações decorrentes dos atentados, considerando despesas militares, operações, segurança, juros e custos com veteranos.
O custo humano também foi enorme.
Milhares de militares americanos morreram nos conflitos. Nos países envolvidos, o número de mortos foi muito maior, incluindo civis e combatentes.
Além das mortes, houve deslocamentos populacionais, destruição de infraestrutura, crises econômicas e sociais e uma geração inteira de pessoas que cresceu em meio à guerra.
É nesse ponto que a narrativa heroica das intervenções encontra seu maior desafio.
Uma guerra pode ser apresentada como uma missão de segurança nacional. O soldado pode ser transformado em símbolo de coragem. O governo pode falar em defesa da democracia e combate ao terrorismo.
Mas a realidade no campo de batalha é muito mais complexa.
Militares chegam a territórios desconhecidos, frequentemente sem compreender completamente as disputas locais. Grupos rivais podem apresentar-se como aliados. Informações podem ser utilizadas para manipular operações. Populações civis podem ficar presas entre forças militares e organizações extremistas.
E cada erro pode produzir novos ressentimentos.
Uma criança que cresce em meio à destruição não recebe apenas o impacto imediato de uma guerra. Ela também pode carregar para a vida adulta a memória daquele conflito, da perda de familiares, da destruição de sua comunidade e da presença estrangeira.
É nesse terreno que o efeito rebote pode ganhar novas dimensões.
A política do herói permanente
A experiência americana no exterior também levanta uma questão sobre a própria concepção de poder.
O que acontece quando uma potência passa a considerar que precisa intervir sempre que surge uma grande crise internacional?
O custo não é apenas financeiro.
Há vidas perdidas, desgaste diplomático, compromissos militares, pressão sobre os governos e consequências políticas que podem atravessar diferentes administrações.
Depois do 11 de Setembro, os Estados Unidos passaram duas décadas envolvidos diretamente em guerras e operações de combate ao terrorismo.
A sociedade americana passou a conviver com uma estrutura permanente de segurança, vigilância e operações militares.
E o mundo passou a conviver com uma nova lógica: a chamada Guerra ao Terror poderia ser travada em diferentes países, contra diferentes organizações e por tempo indeterminado.
A experiência também mostrou os limites do poder militar.
Uma das maiores potências militares da História conseguiu derrubar governos, destruir organizações e ocupar territórios. Mas transformar sociedades e construir estabilidade revelou-se uma tarefa muito mais difícil.
A História não termina quando a guerra acaba
O 11 de Setembro não pode ser analisado isoladamente.
Para compreendê-lo, é necessário voltar à Guerra Fria, à invasão soviética do Afeganistão, ao apoio americano à resistência afegã, à formação de grupos extremistas, à ascensão do Talibã, à Guerra do Golfo e à reorganização da política internacional depois do fim da União Soviética.
Também é necessário compreender as escolhas feitas depois dos atentados: a AUMF, a invasão do Afeganistão, a Guerra do Iraque, a derrubada de Saddam Hussein e os conflitos que surgiram posteriormente.
A conexão entre esses acontecimentos não significa que todos tenham sido planejados como parte de uma única estratégia.
Significa que a História é construída por processos.
Governos tomam decisões diante das circunstâncias de seu tempo. Alianças são formadas para enfrentar ameaças imediatas. Inimigos são escolhidos. Recursos são destinados. Exércitos são deslocados.
Depois, o cenário muda.
E as decisões antigas continuam produzindo efeitos.


