Após rodada de seminários em dez estados, autarquia inicia fase de estruturação de projetos para recuperação de áreas degradadas, segurança hídrica e adaptação climática no Semiárido brasileiro
Nesta quarta-feira (17 de junho), quando se celebra o Dia Nacional de Combate à Seca e à Desertificação, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) celebra um marco significativo em sua trajetória de enfrentamento a um dos mais graves desafios ambientais do país. Após concluir uma ampla e participativa rodada de escuta social em dez estados, a autarquia avança agora para a etapa de estruturação dos novos Planos Estaduais de Combate à Desertificação (PAEs), instrumentos que prometem orientar políticas públicas mais eficazes e integradas para a recuperação de áreas degradadas e a adaptação às mudanças climáticas na região do Semiárido brasileiro.
O programa, batizado de Proades (Programa de Ação Contra a Desertificação, Efeitos da Seca e Revisão dos Planos Estaduais), é fruto de uma parceria estratégica entre a Sudene, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A iniciativa tem como objetivo central não apenas revisar os instrumentos de planejamento estaduais, mas também fortalecer as ações de resiliência climática e combate à degradação do solo, garantindo que os territórios mais vulneráveis do país recebam a atenção e os investimentos de que necessitam.
A trajetória do Proades foi marcada por um esforço inédito de mobilização social e diálogo interinstitucional. Ao longo dos últimos dois anos, a Sudene percorreu os estados de Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, promovendo seminários técnicos que reuniram os mais diversos atores locais. Representantes do poder público, pesquisadores, organizações da sociedade civil, agricultores familiares, lideranças comunitárias e especialistas em meio ambiente sentaram-se à mesma mesa para debater os desafios e as oportunidades de cada território, em um processo que se destacou pela horizontalidade e pela escuta ativa.
Os encontros realizados nos dez estados foram muito mais do que simples reuniões técnicas. Eles se transformaram em fóruns de construção coletiva, onde cada participante pôde contribuir com sua visão, sua experiência e seu conhecimento sobre a realidade local. Os debates abordaram temas fundamentais para o futuro do Semiárido: a segurança hídrica, que preocupa comunidades inteiras dependentes de reservatórios e aquíferos; a recuperação de áreas degradadas, que comprometem a produtividade e a qualidade de vida; a adaptação às mudanças climáticas, que já se fazem sentir com maior intensidade na região; e o fortalecimento de atividades produtivas sustentáveis, que conciliam geração de renda com preservação ambiental.
Os seminários também cumpriram um papel crucial na elaboração de diagnósticos atualizados sobre a situação de cada estado. As informações colhidas durante as escutas permitiram que a Sudene e seus parceiros identificassem com precisão as áreas mais críticas, as populações mais vulneráveis e as estratégias mais adequadas para cada contexto. Essa base de dados, construída com a participação ativa dos territórios, é o alicerce sobre o qual os novos planos estaduais estão sendo erguidos.
De acordo com o coordenador-geral do Proades, Gustavo Negreiros, o diferencial do processo está justamente na profundidade e na qualidade da participação social. “Os seminários permitiram ouvir governos, comunidades e instituições locais para que os planos reflitam a realidade de cada estado e contribuam para a construção de políticas públicas mais efetivas de enfrentamento à desertificação”, afirmou. Para ele, a escuta ativa é a garantia de que os planos não sejam documentos técnicos distantes da realidade, mas sim ferramentas vivas, construídas com a participação de quem realmente conhece os desafios do Semiárido.
Os resultados desse esforço já começam a aparecer. Dos dez estados contemplados pela iniciativa, sete já estão com seus planos estaduais concluídos ou em fase final de elaboração, um avanço significativo em relação à situação anterior. Com o encerramento dos seminários em junho — tendo o Maranhão sediado a última etapa desse ciclo — a Sudene agora concentra seus esforços na entrega final dos documentos e na estruturação de projetos concretos. A expectativa é que os novos PAEs orientem a implementação de políticas públicas e, principalmente, apoiem a captação de recursos destinados à adaptação climática, à recuperação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.
Para o coordenador de Desenvolvimento Territorial, Infraestrutura e Meio Ambiente da Sudene, Victor Uchôa, a atualização dos planos estaduais é uma peça-chave para que as ações tenham efetividade nos territórios. “O combate à desertificação exige uma articulação efetiva entre União, estados e municípios. Mais do que revisar documentos, precisamos garantir que os planos resultem em projetos integrados, com financiamento estável, fiscalização adequada e ampla participação social”, destacou. A fala de Uchôa reflete a preocupação da autarquia em não apenas planejar, mas também executar, transformando as diretrizes em ações concretas que cheguem às comunidades mais necessitadas.
O contexto em que essa iniciativa se insere é de urgência climática. O Semiárido brasileiro, que abrange grande parte da Região Nordeste e parte do Sudeste, é uma das áreas mais vulneráveis do país às mudanças climáticas. A desertificação, processo de degradação do solo em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, já afeta milhões de hectares e compromete a vida de populações que dependem da terra para sobreviver. A intensificação das secas, a perda de biodiversidade e o empobrecimento dos solos são fenômenos que exigem respostas rápidas e coordenadas, e é exatamente isso que os novos planos estaduais buscam oferecer.



