Adelaide Valle Pires
Autora
— Hoje tem padre na aula.
— Uai… então alonga o corpo e a alma?
Cheguei no pilates achando que era só mais uma segunda.
Mas segunda, às vezes, vem com roteiro próprio.
Éramos sete.
— Sete já diz muita coisa…
— Sete dias, sete ciclos, sete recomeços.
— Tem número que organiza a vida sem a gente perceber.
No meio dos aparelhos, um bolo.
No meio do exercício, um parabéns.
No meio da rotina… um aniversário.
E eu ali, tentando equilibrar respiração e pensamento, quando a música veio sem pedir licença:
— “Anda com fé eu vou…”
— …porque tem dia que a gente nem vai, a gente é levado.
Olhei a cena: gente simples, riso fácil, um padre descalço, um bolo pequeno e um instante grande.
E pensei: comemorar é quase um tipo de oração disfarçada.
No meio da aula, entre um movimento e outro, ele soltou, meio rindo, meio sentindo:
— Ainda estou no nove…
Num tom de quem já tinha ido longe…
mas sabia que a referência era doze.
Alguém comentou:
— Tá vendo… até o padre…
E foi ali mesmo, no chão da prática, que veio a resposta:
— Testemunho não é discurso…
— …é o jeito que a gente pisa no chão.
Voltei pra casa com o corpo alongado e a cabeça cheia.
Passei pra pegar uma boneca — dessas que vão visitar começos de vida.
E, sem saber por quê, puxei da memória aquele papelzinho do meu pai.
Letra dele.
Aspas que guardavam palavras de outro… mas já morando na nossa história:
“Se a vida é um dom de Deus, festejar um aniversário é agradecer pelo milagre renovado que é o nascimento de uma pessoa.”
Fiquei com isso na mão… e no peito.
No fim das contas, segunda-feira não era sobre exercício.
Era sobre presença.
— Corpo alinhado.
— Coração lembrado.
— E a vida… sendo celebrada no detalhe.
Porque talvez fé não seja o que a gente diz que acredita.
Mas o que a gente repete… sem perceber… no jeito de viver.



