Especialistas alertam que cuidados devem começar ainda no primeiro ano de vida e destacam que alterações na boca podem indicar problemas de saúde em diferentes partes do organismo
A saúde bucal vai muito além da prevenção de cáries. Na infância, ela exerce papel fundamental no crescimento, na alimentação, no desenvolvimento da fala e até na identificação precoce de doenças. Especialistas reforçam que os cuidados devem começar desde os primeiros meses de vida, com higiene adequada, alimentação saudável e acompanhamento odontológico regular.
O alerta ganha destaque durante o Julho Neon, movimento nacional de conscientização sobre os cuidados com a boca. A iniciativa chama atenção para um problema que ainda afeta milhões de crianças em todo o mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que as doenças bucais atingem cerca de 3,7 bilhões de pessoas, enquanto mais de 510 milhões de crianças convivem com cáries não tratadas nos dentes de leite — condição considerada amplamente evitável por meio de ações preventivas.
Segundo especialistas, um dos maiores equívocos ainda presentes entre muitas famílias é acreditar que os dentes de leite, por serem temporários, não necessitam de tantos cuidados. Na prática, eles desempenham funções essenciais para a mastigação, o desenvolvimento da fala, o crescimento adequado dos ossos da face e a manutenção do espaço necessário para o nascimento dos dentes permanentes.
Além disso, problemas bucais nessa fase podem provocar dor, dificuldade para se alimentar, prejuízos ao aprendizado, infecções e aumentar o risco de comprometimento da dentição permanente.
Cuidados começam antes do primeiro dente
Os especialistas recomendam que a higiene bucal seja iniciada desde o nascimento. Antes mesmo da erupção dos primeiros dentes, a limpeza delicada da gengiva ajuda a remover resíduos de leite e a criar uma rotina de cuidados.
Com o surgimento do primeiro dente, a escovação passa a ser indispensável, utilizando escova infantil de cerdas macias e creme dental fluoretado em quantidade adequada para cada faixa etária.
Durante os primeiros anos, toda a higiene deve ser realizada pelos pais ou responsáveis. Mesmo quando a criança já consegue segurar a escova, a supervisão dos adultos continua sendo necessária, geralmente até os oito anos de idade, período em que ela desenvolve coordenação motora suficiente para uma escovação eficaz.
A boca pode revelar doenças
Além da prevenção das cáries, a consulta odontológica representa uma importante ferramenta para avaliação da saúde infantil como um todo.
Durante o exame clínico, o cirurgião-dentista observa não apenas os dentes, mas toda a cavidade oral. Alterações nas gengivas, língua, mucosas e estruturas da boca podem indicar problemas relacionados ao desenvolvimento, à respiração, à deglutição e até doenças sistêmicas.
Essa avaliação integrada permite identificar precocemente alterações que, muitas vezes, exigem acompanhamento conjunto com pediatras, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e outros profissionais da saúde.
Também durante as consultas pediátricas, a análise da cavidade oral faz parte do exame físico de rotina. A boca pode fornecer informações importantes sobre o estado de hidratação da criança, sua condição nutricional, infecções em curso e outras enfermidades que se manifestam inicialmente por alterações na mucosa oral.
Sinais que merecem atenção
Embora o acompanhamento preventivo seja a melhor estratégia para evitar complicações, alguns sintomas exigem avaliação médica ou odontológica.
Entre os principais sinais de alerta estão:
dor de dente persistente;
sangramento frequente das gengivas;
feridas na boca que não cicatrizam em até duas semanas;
placas brancas persistentes;
mau hálito contínuo;
dificuldade para mastigar ou engolir;
inchaço na gengiva ou no rosto;
presença de secreções na cavidade oral.
Situações acompanhadas de febre, aumento progressivo do inchaço facial, dificuldade para respirar, recusa em ingerir líquidos e sinais de desidratação devem receber atendimento imediato.
Trabalho conjunto fortalece a prevenção
Os especialistas destacam que a promoção da saúde infantil depende da atuação integrada entre pediatria e odontologia. Aspectos como amamentação, alimentação, desenvolvimento da fala, qualidade do sono, respiração e hábitos de higiene influenciam simultaneamente a saúde geral e a saúde bucal.
Nesse contexto, o pediatra desempenha papel importante na orientação das famílias, na identificação precoce de alterações e no encaminhamento ao odontopediatra quando necessário. Da mesma forma, o dentista pode reconhecer sinais clínicos que indiquem a necessidade de investigação por outros especialistas.
A integração entre diferentes áreas da saúde favorece o diagnóstico precoce, reduz o risco de complicações e contribui para que a criança tenha um crescimento mais saudável, com melhor qualidade de vida desde os primeiros anos.



