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Queijo, uai… na ratoeira? - Rede Gazeta de Comunicação

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Queijo, uai… na ratoeira?

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Estava assistindo a uma série — e confesso que fui atraída pelo nome.

Queijo na ratoeira. Sou mineira, uai.

Mas bastaram poucos episódios para perceber que não era uma história para descansar a cabeça.

Era uma companhia de reflexão.

O próprio título já entrega alguma coisa: algo que atrai… mas pode ter um preço oculto.

E a série não explica isso — ela faz a gente sentir.

Me vi olhando menos para o que era dito…

e mais para o que ficava nas entrelinhas.

Porque, nas relações, nem sempre o problema está na falta de palavras.

Às vezes, está na recusa de sustentar o que elas revelam.

E foi aí que meu olhar mudou.

Entre o que vejo e o que sinto, existe um espaço.

E é nesse espaço que as pessoas deixam de ser personagens… e começam a se tornar mistério.

Os personagens não são simples.

Ninguém ali é exatamente o que parece.

Como no pequi que trago no meu livro — por fora uma coisa, por dentro camadas — também ali as relações vão se revelando aos poucos.

E quanto mais eu assistia, mais uma pergunta se formava:

o que, de fato, está em jogo quando a gente se envolve com alguém?

Porque, muitas vezes, o que parece cuidado… também pode prender.

O que parece aproximação… também pode confundir.

E foi impossível não lembrar do livro Quem Mexeu no Meu Queijo?.

Mas, ali, a pergunta começou a mudar.

“Se eu faço você reclama, se eu não faço você reclama também.”

Essa fala, junto com o gesto da mãe, diz muito.

Ela cobra, fala, aponta… mas tira o cachecol e coloca no pescoço dele.

A fala é cobrança.

O gesto é cuidado.

E o corpo, ali, faz a ponte.

Em outro momento, ele olha para o pai e diz:

“somos iguais”.

Não como elogio.

Mas como reconhecimento.

Como quem percebe que estava repetindo o mesmo movimento.

Controlando… do mesmo jeito que um dia feriu ele.

E aí veio uma compreensão simples:

não fazer com o outro o que não desejo para mim.

Ele conversa com ela e se separa.

Não por falta de sentimento.

Mas porque daquele jeito não fazia sentido continuar.

Para mim, esse foi o ponto mais forte.

Não é “quem mexeu no meu queijo”.

É “qual é o meu queijo”.

Sair do papel de vítima.

Entrar na consciência.

O que me atrai?

Isso nutre ou prende?

Entre o que procuro e o que me oferecem, existe um espaço onde preciso aprender a reconhecer o que é alimento… e o que é armadilha.

E o final reforça isso sem precisar explicar.

Não tem “felizes para sempre”.

Tem direção.

Eles se cruzam.

Mas não se veem.

Cada um segue o seu caminho.

Deixamos de procurar culpados no labirinto

quando aprendemos a caminhar em linha reta.

O término não é o fim…

é o recomeço da relação consigo mesmo.

Passei tempo demais perguntando quem mexeu no meu queijo…

até perceber que, muitas vezes, sou eu mesma quem o move.

Não foi o outro que armou a ratoeira.

Foi a forma como eu me relacionei com o que desejava.