Otávio Vieira Machado; especialista destacou como o cérebro aprende números e operações para tornar o ensino mais inclusivo e eficaz
Investir na qualidade do ensino para quem voltou à sala de aula tardiamente é um dos desafios mais complexos da educação básica. Foi com esse olhar que a Secretaria Municipal de Educação (SEMED) de Pirapora, em parceria com o Sistema Etapa, realizou na noite da última segunda-feira (18) mais uma ação do seu programa de formação continuada, desta vez inteiramente dedicada à Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI). O encontro aconteceu na Escola Municipal Dr. Otávio Vieira Machado, a partir das 18h, e teve como tema central “Os Processos Mentais da Matemática” — uma área historicamente apontada como barreira por muitos estudantes dessa modalidade.
A escolha do tema não foi aleatória. A matemática, para o público da EJAI, carrega traumas de experiências escolares mal sucedidas, lacunas de aprendizagem acumuladas ao longo de anos e, muitas vezes, a crença de que “não se tem jeito para números”. Diante desse cenário, a formação buscou justamente desconstruir essa visão, oferecendo aos professores ferramentas teóricas e práticas baseadas em como o cérebro humano processa quantidades, operações e raciocínio lógico — desde os mecanismos mais primitivos de estimativa numérica até a construção abstrata de conceitos algébricos.
O evento foi conduzido pelo professor Gledson Alessandro Silva Santos, representante do Sistema Etapa, que proporcionou um ambiente de intensa troca de experiências entre os docentes. Com uma didática dinâmica, Gledson apresentou estudos recentes da neurociência aplicada à educação, mostrando que a apreensão da matemática não depende de um “dom”, mas sim de estímulos adequados, paciência e metodologias que respeitem o ritmo do aprendiz adulto ou idoso. Os professores participaram de simulações de sala de aula, resolveram problemas sob diferentes estratégias e discutiram casos reais de alunos que apresentam dificuldades específicas — como a discalculia ou o simples medo de errar em público.
A coordenadora da equipe do EJAI/SEMED, Maria Liliane, acompanhou todo o encontro ao lado de professores e também de alguns alunos convidados, cujos depoimentos ajudaram a ancorar a teoria na realidade da sala de aula. “O objetivo da formação é fortalecer as práticas pedagógicas na Educação de Jovens, Adultos e Idosos, ampliando a compreensão das professoras sobre os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem matemática. Isso contribui para intervenções pedagógicas mais assertivas, viabilizando o acesso a métodos de ensino que respeitem as particularidades e os ritmos de aprendizagem dos alunos da modalidade EJAI”, afirmou Maria Liliane durante o intervalo do evento.
Um dos pontos altos da formação foi a discussão sobre o erro como parte do processo. Enquanto no ensino tradicional o erro costuma ser punido ou menosprezado, a abordagem baseada em processos mentais defende que o erro revela exatamente onde o raciocínio do aluno travou — e é a partir dali que o professor deve intervir. Para os educadores da EJAI, que lidam com estudantes muitas vezes envergonhados ou frustrados, essa mudança de postura pode ser revolucionária.
A parceria entre a SEMED e o Sistema Etapa não é nova, mas a ênfase na EJAI mostra uma preocupação crescente do município com essa parcela da população. Dados do IBGE indicam que, em cidades do interior de Minas como Pirapora, cerca de 15% da população acima de 15 anos ainda não completou o ensino fundamental — e muitos desses cidadãos estão justamente matriculados na EJAI. Garantir que eles aprendam matemática de forma significativa não é apenas uma questão de currículo, mas de inclusão social, empregabilidade e autoestima.
De acordo com a SEMED, investir na atualização constante dos professores é um passo fundamental para garantir que o ensino em Pirapora alcance novos níveis de excelência, especialmente em áreas que exigem alta abstração, como a matemática. A expectativa é que os conteúdos trabalhados na formação sejam replicados em sala de aula já nas próximas semanas, com acompanhamento pedagógico da coordenadoria. Ao final do encontro, os professores receberam certificados e materiais de apoio com sugestões de atividades práticas, jogos matemáticos e roteiros de aula alinhados aos processos mentais discutidos.
Novos encontros já estão sendo planejados para o segundo semestre, ampliando o leque temático também para língua portuguesa, ciências e história, sempre com o mesmo propósito: fazer com que o estudante jovem, adulto ou idoso se sinta capaz de aprender — e, quem sabe, até gostar de matemática.



