Ação integrada com Polícia Civil, Receita Federal e Vigilância Sanitária fiscalizou comércios, apreendeu produtos irregulares e mirou lavagem de dinheiro e tráfico de drogas
A madrugada e o início da manhã desta quarta-feira (27) foram marcados por um forte esquema de segurança e fiscalização nas ruas de Montes Claros. A Polícia Militar de Minas Gerais, por intermédio da 11ª Região da Polícia Militar (11ª RPM), desencadeou a Operação Luminis – uma ação estratégica de enfrentamento ao crime organizado, com foco no tráfico de drogas, na lavagem de dinheiro e em atividades ilícitas praticadas por grupos criminosos que atuam na região. Batizada em referência à luz que ilumina as sombras do crime, a operação mobilizou dezenas de policiais militares, além de contar com o apoio fundamental de outras instituições.
Diferentemente de abordagens pontuais e restritas a um único bairro, a Luminis foi desenhada a partir de inteligência policial e análises criminais consolidadas ao longo dos últimos seis meses. Informações coletadas por meio de escutas autorizadas judicialmente, cruzamento de dados de celulares apreendidos em operações anteriores e denúncias anônimas (via 181) apontaram a existência de uma rede de estabelecimentos comerciais usados como fachada para movimentação de dinheiro proveniente do narcotráfico. Entre os alvos prioritários estavam lojas de roupas, distribuidoras de bebidas e pequenos mercados de bairro – todos localizados em regiões estratégicas da cidade.
Fiscalização conjunta e apreensões
Durante toda a quarta-feira, equipes da PM percorreram diversos pontos comerciais previamente mapeados. Foram vistoriados estoques, notas fiscais, sistemas de pagamento e documentação de funcionários. O resultado imediato foi a apreensão de materiais e produtos diversos – a polícia não detalhou a natureza exata de todos os itens apreendidos para não comprometer investigações em andamento, mas fontes ligadas à operação confirmaram que foram encontradas mercadorias sem nota fiscal, equipamentos eletrônicos de origem suspeita e, em um dos locais, uma pequena quantidade de entorpecentes já fracionada para venda.
“Não se tratou de uma operação de choque com tiros e perseguições. Foi uma operação cirúrgica, de inteligência. Queremos estrangular a base financeira das organizações criminosas. Sem dinheiro, o tráfico não se sustenta”, explicou o tenente-coronel Ricardo Mendes, porta-voz da 11ª RPM, em entrevista coletiva no fim da tarde. Ele acrescentou que pelo menos três estabelecimentos foram interditados temporariamente por irregularidades sanitárias e fiscais, e que os proprietários prestarão depoimento na Polícia Civil nos próximos dias.
Integração institucional: modelo de sucesso
Um dos diferenciais da Operação Luminis foi o caráter multidisciplinar e integrado. A ação contou com a participação ativa da Polícia Civil (que já instaurou inquérito para apurar os crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa), do Corpo de Bombeiros Militar (que vistoriou condições de segurança contra incêndio), da Receita Federal (para análise de sonegação fiscal e contrabando), do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) (verificando produtos de origem animal e vegetal sem registro) e da Vigilância Sanitária Municipal (que autuou estabelecimentos por armazenamento irregular de alimentos e ausência de alvará).
“O crime organizado não respeita fronteiras entre fiscalizações. Ele usa um CNPJ para lavar dinheiro, vende produtos sem nota e ainda coloca a saúde pública em risco com armazenamento inadequado. Por isso, a resposta também tem que ser integrada. A Operação Luminis é um exemplo do que podemos fazer quando trabalhamos juntos”, afirmou o delegado regional da Polícia Civil, Dr. Alexandre Pimentel.
Impacto na comunidade e números
Embora a PM não tenha divulgado balanço final com números exatos de quilos de drogas apreendidos ou valor total em bens retidos – sob o argumento de que a operação ainda está em fase de análise de documentos –, a expectativa é que novos desdobramentos ocorram nos próximos dias, incluindo a possibilidade de prisões preventivas. Um dado, porém, já foi confirmado: mais de 200 policiais participaram diretamente das ações de campo, apoiados por drones e câmeras de monitoramento.
Moradores de bairros como Vila Atlântica, Todos os Santos e Jardim São Luiz, onde alguns estabelecimentos fiscalizados estão localizados, relataram à reportagem certa apreensão, mas também alívio. “Sabíamos que ali acontecia coisa errada. Entrava e saía gente estranha a qualquer hora. Agora, com a polícia batendo forte, talvez o tráfico perca a coragem”, disse um comerciante vizinho a um dos alvos, que pediu anonimato por medo.
Contexto de criminalidade na região
Montes Claros, maior cidade do Norte de Minas com cerca de 420 mil habitantes, tem enfrentado nos últimos anos um crescimento na atuação de facções criminosas oriundas do Rio de Janeiro e São Paulo. O tráfico de drogas se estabeleceu em bairros periféricos, e a lavagem de dinheiro passou a ser feita por meio de empresas de fachada – muitas delas de pequeno porte, difíceis de rastrear. A Operação Luminis é a terceira grande ação deflagrada pela 11ª RPM em 2026, sendo precedida pela Operação Fecha Quartel (em fevereiro) e pela Operação Caminho Livre (em abril).
Próximos passos
A Polícia Civil anunciou que abrirá prazos para que os proprietários dos estabelecimentos fiscalizados apresentem defesa e documentos comprobatórios da origem dos produtos apreendidos. Em caso de irregularidades graves, eles podem responder por crimes contra a ordem tributária, associação criminosa e, dependendo do vínculo com o tráfico, por organização criminosa (Lei 12.850/2013), cuja pena pode ultrapassar 15 anos de reclusão.



