Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Esta noite sonhei com uma batalha.
A culpa deve ter sido da série que estou assistindo. Antes de adormecer, a última cena mostrava uma disputa pelo poder. Espadas, estratégias, traições… daquelas que prendem a gente até o sono chegar.
Só que, no meu sonho, ninguém empunhava espadas.
As armas eram… sacolas dobradas.
Cada guerreiro carregava um modelo diferente. O segredo não estava na força, mas na forma de dobrar, guardar, abrir e transportar. Vencia quem melhor acondicionava aquilo que possuía.
Ao acordar, uma frase insistia em permanecer na minha cabeça. Ainda vou rebobinar a cena para conferir se foi exatamente assim:
— Você é apenas um professor.
No sonho, aquilo não soava como uma ofensa. Parecia um lembrete.
Um professor ensina que o conhecimento também precisa de embalagem.
Há ideias que cabem numa pequena bolsinha e, quando chega a hora certa, desdobram-se em uma grande bolsa de mão.
Outras parecem minúsculas, quase descartáveis, até que um zíper se abre e revelam uma mochila inteira, capaz de carregar muito mais do que imaginávamos.
Passei anos acumulando aprendizados.
Hoje percebo que a sabedoria não está apenas no que guardamos, mas na maneira como organizamos, transportamos e compartilhamos aquilo que a vida nos deu.
Ao acordar, outra lembrança também me visitou: o próprio título da série, O Homem da Princesa. O personagem não é apresentado pela profissão, mas pelo vínculo. Não é o professor, o estudioso ou o conselheiro. É o homem da princesa.
Na mesma hora, vieram à minha memória as anotações de papai. Ele gostava de pesquisar a origem dos sobrenomes e mostrava como muitos nasceram da profissão de alguém. O ferreiro tornou-se Ferreira. O ofício atravessou gerações e acabou se transformando em identidade.
Mas existem identidades que nascem dos afetos.
Quantas vezes fui apresentada simplesmente como “a Adelaide do Dario”. Depois, em tantos outros momentos da vida, como “a Adelaide do Gustavo”.
Naqueles instantes, eu não era psicóloga. Era alguém reconhecida pelos vínculos que construí ao longo da vida.
Pensando bem, a série não fala apenas de uma disputa pelo reino. Ela também coloca em cena três formas de poder: o poder das armas, o poder da política e o poder do conhecimento.
Meu sonho apenas trocou as espadas por sacolas.
E me fez perceber que, entre todos os poderes, o conhecimento é o único que cresce quando é compartilhado.
Também me fez pensar que nossa identidade vai sendo construída ao longo da vida. Algumas vezes, pelo que fazemos. Outras, pelas pessoas que caminham ao nosso lado.
O fazer nos apresenta ao mundo.
Os vínculos revelam quem realmente somos.
Acordei com uma pergunta que ainda não consegui responder:
O que realmente nos define? O cargo que ocupamos ou os vínculos que construímos?



