Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Outro dia me peguei viajando no tempo.
Comecei lembrando de um projeto inspirado no Show do Milhão. Depois veio à memória um boletim chamado Escraviária. Mais adiante apareceram jogos, desenhos divertidos, palestras, programas de televisão e até um artigo científico escrito a quatro mãos com meu filho.
Uma verdadeira arqueologia.
E foi interessante perceber a velocidade com que as ferramentas mudaram. Houve um tempo em que eu salvava projetos em disquetes. Depois vieram CDs, DVDs, pen drives, nuvens e agora a inteligência artificial. A tecnologia evoluiu numa velocidade impressionante.
Mas uma pergunta continuou me acompanhando:
Será que evoluímos na mesma velocidade para aprender, nos relacionar e construir significado?
Lembrei-me então de uma frase que ouvi anos atrás:
— O ladrão pode levar todos os objetos da sua casa, mas não pode levar o conhecimento que você adquiriu.
Na época achei a frase bonita. Hoje acho que ela é profunda.
Olhando para trás, percebi que passei boa parte da vida criando ferramentas. Criei jogos para ensinar, boletins para compartilhar ideias, dinâmicas para aproximar pessoas e desenhos divertidos para transformar conceitos difíceis em algo mais simples. Durante muito tempo pensei que esses fossem os meus principais projetos.
Mas a idade tem uma vantagem: ela nos permite olhar pelo retrovisor.
E foi olhando pelo retrovisor que percebi algo que não enxergava quando estava vivendo cada experiência. O mais importante não eram as ferramentas. Elas eram apenas o caminho.
Cada jogo me ensinou algo. Cada texto me obrigou a organizar pensamentos. Cada palestra me ajudou a vencer um medo. Cada parceria reforçou uma convicção que carrego comigo até hoje: ninguém constrói nada sozinho.
Até o artigo científico que escrevi com meu filho acabou me ensinando isso. Eu entrava com algumas ideias; ele contribuía com referências, traduções e aquelas normas acadêmicas que sempre me pareceram mais difíceis do que deveriam ser. O artigo ficou pronto, mas o aprendizado foi muito maior do que o resultado final.
Com o tempo, também fui percebendo outra coisa. Por trás dos jogos, dos textos, dos treinamentos e das metodologias existia sempre a mesma busca: criar oportunidades de encontro.
Porque comunicação, para mim, nunca foi apenas transmissão de informação. Comunicação é vínculo. É a possibilidade de uma pessoa encontrar a outra e, nesse encontro, ambas saírem transformadas.
Acho até que é por isso que ando em um relacionamento sério com a escrita.
Não para ensinar verdades prontas. Nem para dizer qual caminho alguém deve seguir. Escrevo porque acredito que uma boa conversa, uma história compartilhada ou uma experiência vivida podem abrir novas perguntas.
E perguntas têm um enorme poder de transformação.
Hoje gosto de dizer que cada pessoa é CEO de sua própria vida: construtora e empreiteira dos objetivos de ocê mesmo.
É uma forma simples e bem-humorada de lembrar que somos responsáveis pela obra mais importante que iremos construir ao longo da vida.
Passei anos achando que construía ferramentas. Hoje percebo que elas também estavam me construindo.
O maior projeto foi a minha própria construção.
Hoje penso que o maior valor do conhecimento não está no que fazemos com ele, mas no que ele faz conosco.
Por isso, quando penso naquela frase sobre o ladrão, compreendo seu significado de forma ainda mais profunda.
Objetos podem ser roubados. Tecnologias envelhecem. Ferramentas se tornam obsoletas. Projetos terminam.
Mas aquilo que aprendemos e transformamos em experiência de vida passa a fazer parte de quem somos.
E isso ninguém rouba.



