Adelaide Valle Pires
Autora
— “O passado não te define.”
Eu li.
Já ouvi.
E entendo de onde vem.
Faz sentido… ninguém quer viver preso ao que já foi.
Ninguém quer carregar culpa como moradia.
Mas aí eu parei.
E pensei:
será que é bem assim?
Porque, se o passado não define nada…
quem é que sustenta o que eu sou hoje?
As memórias que me aquecem em dias difíceis…
os erros que me ensinaram cuidado…
as escolhas que me trouxeram até aqui…
isso tudo não some.
Talvez o ponto não seja apagar.
Nem expurgar.
Talvez seja visitar.
Com menos peso.
Com mais presença.
Porque sim, existem memórias que paralisam —
essas pedem movimento.
Mas existem memórias que sustentam —
essas pedem permanência.
E no meio disso tudo, existe a gente.
Escolhendo.
Reorganizando.
Mudando de rota quando preciso.
Sem negar a história…
mas também sem se aprisionar a ela.
Foi aí que lembrei de uma fala do meu pai:
“O passado é o que já foi presente. Já não é mais —
mas continua a existir de outro modo.
Duas categorias definem nossas relações com o passado:
herança e tradição.
A nenhuma geração é dado criar as condições nas quais assume a sua existência.
Cada um recebe um certo número de dados objetivos que não lhe é possível recusar: é sua herança.
O homem é um corpo nascido de outros corpos.
O passado a ele se impõe — constitui uma herança.
O homem pode fazer o que quiser desta herança…
mas não pode dela se desvencilhar.
Só lhe resta utilizá-la e aumentá-la.
Temos a liberdade de transformá-la, desenvolvê-la —
ou mesmo desfigurá-la, até certo ponto.”
E talvez seja por isso que eu não consiga tratar o passado como algo descartável.
O passado pode não ser sentença.
Mas também não é vazio.
Ele participa.
E é com ele — e não apesar dele —
que a gente segue.



