Longa dirigido por Clarissa Moebus Ramalho será apresentado nesta terça-feira (26) em Montes Claros, em uma noite dedicada ao cinema autoral, à literatura brasileira e à memória audiovisual mineira
O Museu Regional do Norte de Minas será palco, nesta terça-feira (26), de uma importante celebração do cinema autoral brasileiro e da produção audiovisual mineira. A partir das 19 horas, acontece a exibição especial do longa-metragem “Natureza Morta” (2020), dirigido e roteirizado pela cineasta, pesquisadora e professora universitária Clarissa Moebus Ramalho. A sessão será gratuita e aberta ao público.
O evento integra a programação cultural promovida pelo Cinemontes e pelo curso de Cinema da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), contando ainda com apoio do Museu Regional do Norte de Minas, Cinema Comentado Cineclube, CineMaracas e Fulô Comunicação e Cultura.
Ambientado no ano de 1888, período marcado pelas transformações políticas, sociais e culturais do Brasil às vésperas da Abolição da Escravidão, o filme “Natureza Morta” encerra a trilogia cinematográfica “Inquietante Estranheza”, projeto iniciado em 2010 pela diretora Clarissa Moebus ao lado de seu companheiro, o cineasta Ricardo Miranda, falecido em 2014.
Reconhecido nacionalmente no meio audiovisual, Ricardo Miranda atuou como diretor da TV Brasil e professor da tradicional Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro. Nos filmes anteriores da trilogia — “Djalioh” e “Paixão e Virtude” — ambos inspirados em contos do escritor francês Gustave Flaubert, Clarissa participou como assistente de direção e co-roteirista, consolidando uma parceria artística marcada pela experimentação estética e pelo diálogo entre literatura e cinema.
Agora, em “Natureza Morta”, Clarissa assume integralmente a direção e o roteiro em uma obra que propõe uma narrativa sensível, poética e não convencional. O longa foi filmado em Cataguases, na Zona da Mata mineira, cidade historicamente ligada ao cinema brasileiro e conhecida como berço do movimento modernista cinematográfico em Minas Gerais.
O filme é inspirado no romance “A Carne”, escrito pelo mineiro Júlio Ribeiro, natural de Sabará. Publicada originalmente em 1888, a obra causou forte repercussão na época devido à abordagem considerada ousada para os padrões morais do período. O romance foi alvo de duras críticas de setores conservadores e religiosos, especialmente após confrontos públicos entre o autor e representantes da Igreja Católica por meio de artigos publicados em jornais da época.
Apesar da polêmica, a obra acabou sendo resgatada décadas depois por importantes intelectuais brasileiros, entre eles o poeta pernambucano Manuel Bandeira, contribuindo para sua revalorização no cenário literário nacional.
Segundo Clarissa Moebus, adaptar um romance do século XIX escrito por um homem também representou um desafio artístico e político. A diretora destaca que a proposta do longa não segue os padrões tradicionais de narrativa cinematográfica, optando por múltiplas vozes narrativas e por uma construção visual que se aproxima do ato de contar histórias.
“Continuar uma obra não é fácil, e adaptar uma obra do século XIX escrita por um homem era uma das minhas questões”, explica a diretora. Ela ressalta ainda que o filme trabalha diferentes perspectivas narrativas, rompendo com estruturas convencionais do cinema clássico.
A exibição em Montes Claros representa também uma oportunidade de aproximação entre o público norte-mineiro e produções independentes brasileiras que circulam em festivais, mostras e espaços culturais alternativos pelo país. “Natureza Morta” já participou de importantes eventos cinematográficos e vem sendo reconhecido pela proposta estética autoral e pelo diálogo entre literatura, memória histórica e linguagem audiovisual.
Além da sessão gratuita, o encontro promete reunir estudantes, professores, pesquisadores, artistas, realizadores culturais e amantes do cinema em uma noite de valorização da cultura e da produção artística brasileira.
O Museu Regional do Norte de Minas, localizado na rua Coronel Celestino, nº 75, no Corredor Cultural do Centro de Montes Claros, vem se consolidando como um importante espaço de difusão artística e promoção de debates culturais na região, acolhendo exposições, mostras, apresentações e atividades ligadas à memória e às artes.
A realização da sessão reforça ainda o fortalecimento das atividades do curso de Cinema da Unimontes, que ao longo dos últimos anos tem ampliado sua participação na formação audiovisual no interior de Minas Gerais, estimulando novas produções, pesquisas e iniciativas culturais.
A entrada é gratuita e aberta à comunidade.



