Município pioneiro em estratégias de vigilância e controle da doença recebe missão internacional para compartilhar experiências que já contribuíram para a redução de casos em animais e humanos
Montes Claros voltou a ganhar destaque no cenário da saúde pública nacional e internacional ao receber, nesta quarta e quinta-feira (17 e 18), representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). A visita técnica tem como objetivo conhecer de perto as estratégias desenvolvidas pelo município no enfrentamento às leishmanioses visceral e tegumentar, consideradas importantes desafios de saúde pública em diversas regiões das Américas.
A escolha de Montes Claros como referência ocorreu em razão do pioneirismo do município na implementação de ações recomendadas pelo Ministério da Saúde para o fortalecimento da vigilância, prevenção, diagnóstico e controle da doença. O trabalho é realizado em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e o Ministério da Saúde.
A agenda da missão internacional começou na última segunda-feira (15), em Brasília, com reuniões promovidas pelo Ministério da Saúde envolvendo pesquisadores, gestores, especialistas e representantes da sociedade civil. Durante os encontros foram debatidas experiências brasileiras bem-sucedidas e estratégias para ampliar o combate às doenças tropicais negligenciadas.
Segundo o Ministério da Saúde, a visita integra as ações previstas no Plano de Ação Regional contra a Leishmaniose e no Roteiro da OMS para Doenças Tropicais Negligenciadas 2021-2030, permitindo que representantes internacionais acompanhem experiências brasileiras que vêm contribuindo para ampliar o acesso ao diagnóstico, incorporar novas tecnologias e fortalecer a assistência aos pacientes.
Experiência de Montes Claros chama atenção internacional
Para o cientista do Programa de Leishmanioses da OMS, Saurabh Jain, o Brasil acumula experiências relevantes que podem servir de referência para outros países.
“O Brasil reúne experiências importantes para toda a região das Américas e esta visita representa uma oportunidade para conhecermos iniciativas que possam fortalecer as ações de enfrentamento da doença em outros países”, destacou.
A representante da OPAS, Ana Lucianez, ressaltou o modelo de atuação integrado observado no país, envolvendo gestores públicos, profissionais de saúde, pesquisadores e sociedade civil organizada.
“É muito gratificante ver como todos trabalham em conjunto. A participação da sociedade civil é fundamental para enfrentar as doenças tropicais negligenciadas e garantir que elas deixem de ser invisibilizadas”, afirmou.
Encoleiramento de cães reduz transmissão da doença
Entre as estratégias que despertaram o interesse dos organismos internacionais está o programa de encoleiramento de cães implantado em Montes Claros a partir de 2021.
De acordo com o coordenador de Vigilância de Zoonoses do Ministério da Saúde, Francisco Edilson Ferreira, o município tornou-se referência nacional ao adotar a estratégia como ferramenta para monitoramento e controle da transmissão da leishmaniose.
“Montes Claros é desafiado pela incidência dos dois tipos da doença, a visceral e a tegumentar. Mesmo assim, conseguiu implementar ações inovadoras que demonstram na prática a importância do Sistema Único de Saúde”, observou.
O trabalho consiste na utilização de coleiras impregnadas com inseticida em cães, principal reservatório da leishmaniose visceral. O produto afasta o mosquito transmissor, reduzindo a circulação do vetor e, consequentemente, a transmissão da doença para os seres humanos.
Segundo dados apresentados pela Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros, aproximadamente 22 mil cães foram contemplados com o encoleiramento nos últimos cinco anos.
Os resultados já são considerados expressivos. Antes da adoção da estratégia, cerca de cinco em cada dez cães examinados apresentavam resultado positivo para a doença. Atualmente, esse índice caiu para aproximadamente dois casos confirmados a cada dez animais testados.
O programa já foi ampliado para municípios como Jaíba, Monte Azul, Francisco Sá, Fruta de Leite e Grão Mogol, totalizando mais de 34,7 mil animais protegidos. A previsão é de que Rubelita também passe a integrar a iniciativa entre julho e agosto deste ano.
Diagnóstico rápido fortalece vigilância
Outra medida considerada fundamental para o avanço no enfrentamento da doença é a ampliação da oferta de testes rápidos para diagnóstico.
Segundo a referência técnica em leishmanioses da SRS Montes Claros, Arlete Gonçalves Lisboa, os exames vêm sendo disponibilizados em hospitais e municípios-polo das microrregiões de saúde, agilizando o diagnóstico e permitindo o início mais rápido do tratamento.
Durante a visita técnica, representantes da Secretaria de Estado de Saúde também apresentaram os avanços alcançados em Minas Gerais, incluindo a implantação de unidades do Serviço de Atenção Especializada Ampliado (SAE), voltadas ao atendimento de doenças como leishmanioses, tuberculose, hanseníase, hepatites virais e HIV/AIDS.
Outras ações destacadas foram o levantamento entomológico já realizado em cerca de 700 municípios mineiros, a ampliação da utilização de testes rápidos, investimentos em educação em saúde e o fortalecimento dos centros colaboradores para descentralização de exames laboratoriais.
Doença exige vigilância constante
A leishmaniose continua sendo considerada um importante desafio para a saúde pública, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade social e com dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
No Norte de Minas, os registros da leishmaniose visceral remontam à década de 1940. A doença, popularmente conhecida como calazar, é transmitida pelo mosquito-palha e pode causar febre prolongada, aumento do fígado e do baço, perda de peso, anemia e outras complicações graves.
Já a leishmaniose tegumentar está mais associada a ambientes rurais e áreas de mata. Seus principais sintomas são feridas na pele e mucosas, que podem evoluir para lesões graves caso não sejam tratadas adequadamente.
A coordenadora de Vigilância em Saúde da SRS Montes Claros, Agna Soares da Silva Menezes, reforça que todo caso suspeito deve ser investigado e notificado às autoridades sanitárias, permitindo a adoção rápida de medidas de controle.
Para a coordenadora de Vigilância Epidemiológica da SRS Montes Claros, Rita de Cássia Rodrigues, os resultados obtidos nos últimos anos demonstram que a integração entre municípios, Estado e Ministério da Saúde tem sido fundamental para ampliar a capacidade de resposta à doença.
“A troca de experiências, o fortalecimento das parcerias institucionais e o empenho dos profissionais envolvidos nas ações de campo apontam perspectivas cada vez mais positivas para o enfrentamento das leishmanioses em nossa região”, concluiu.
A visita da OMS e da OPAS reforça o reconhecimento internacional das estratégias desenvolvidas em Montes Claros e em Minas Gerais, consolidando o município como referência no combate a uma das principais doenças tropicais negligenciadas das Américas.



