Eleito melhor goleiro da Copa do Mundo de 1970, o baixinho de 1,78m desafiou estatísticas, virou ídolo no clube mineiro e protagonizou lance antológico contra o Rei do Futebol
Quando se fala em goleiros históricos do Atlético Mineiro, a torcida alvinegra rapidamente evoca nomes como Victor, Everson, João Leite e, em alguns círculos, o campeão mundial Taffarel. No entanto, há um estrangeiro de porte pequeno – literalmente – que merece lugar de destaque nesse panteão. Trata-se do uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, filho de poloneses, dono de reflexos felinos e de uma frieza ímpar sob as traves. Entre 1972 e 1974, “Mazurka” defendeu o Galo em 89 partidas, conquistou a admiração de uma geração e entrou para o Hall da Fama do clube ao lado de gigantes como Kafunga e Victor.
Mas a trajetória desse goleiro vai muito além do que seus 1,78 metros sugerem. Baixo para os padrões da posição – daí o apelido carinhoso de “El Chiquito” (o pequenino) –, Mazurkiewicz se impôs pela segurança, pelo posicionamento cirúrgico e por saídas de gol que, muitas vezes, beiravam a loucura, mas quase sempre davam certo. Sua história se cruza com a do maior jogador de todos os tempos, com uma semifinal de Copa do Mundo e com um dos lances mais plásticos do futebol: o “gol que Pelé não fez”.
O auge na Copa do Mundo de 1970
México, 1970. A Seleção Brasileira encantava o mundo com Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino e Carlos Alberto. Mas quem estava do outro lado do campo na semifinal, defendendo o gol do Uruguai, era justamente Mazurkiewicz. O jogo, realizado em 17 de junho no Estádio Jalisco, em Guadalajara, ficou marcado por um lance que resume a genialidade de Pelé e a coragem do goleiro uruguaio.
Aos 17 minutos do segundo tempo, Tostão rolou a bola para Pelé dentro da área. O camisa 10 brasileiro, em vez de dominar, deixou a bola passar de letra, contornando completamente Mazurkiewicz – um drible da vaca sem tocar na bola. O uruguaio ficou estático, vencido pelo corte-luz. Pelé então finalizou, mas sem ângulo e já desequilibrado, a bola bateu na parte externa da rede, rente à trave esquerda. Saiu pela linha de fundo. Foi o quase-gol que entrou para a história como um dos momentos mais belos e ao mesmo tempo frustrantes da carreira do Rei. O Brasil venceu por 3 a 1 e depois conquistaria o tricampeonato sobre a Itália.
No entanto, o que muitos não lembram é que, apesar do lance plástico, Mazurkiewicz teve atuação sólida naquele jogo – e no torneio como um todo. Tanto que, ao final da Copa do México, a Fifa o elegeu o melhor goleiro da competição, um prêmio concedido a poucos. Ele é, até hoje, o único ex-goleiro do Atlético a alcançar essa honraria. Nem Taffarel, campeão em 1994, foi eleito o melhor de sua Copa – na ocasião, o belga Michel Preud’homme levou o prêmio Yashin.
“Mazurkiewicz era fenomenal. Eu treinei contra ele algumas vezes e posso dizer: ele adivinhava a direção da bola antes mesmo de o atacante chutar. E era muito corajoso, não tinha medo de se jogar nos pés dos artilheiros”, afirmou o ex-atacante Dadá Maravilha, companheiro de Mazurka no Atlético, em entrevista ao jornal Estado de Minas em 2008.
Carreira vitoriosa antes do Galo
Antes de chegar a Belo Horizonte, o uruguaio já tinha um currículo recheado de títulos. Revelado pelo Racing Club de Montevidéu em 1963, ele foi para o Peñarol em 1965 e ali viveu seus anos de ouro. Pelo clube aurinegro, conquistou três Campeonatos Uruguaios (1965, 1967 e 1968), uma Copa Libertadores (1966), uma Copa Intercontinental (1966, ao vencer o Real Madrid) e uma Recopa dos Campeões Intercontinentais (1969). Era o goleiro de uma das melhores equipes do mundo na época, ao lado de jogadores como Pedro Rocha e Alberto Spencer.
Pela Seleção Uruguaia, além do quarto lugar em 1970, ele disputou as Copas de 1966 (Inglaterra) e 1974 (Alemanha Ocidental), e foi campeão da Copa América de 1967. Ao todo, vestiu a celeste em 36 ocasiões. Sua estatura baixa era compensada por impulsão invejável e leitura de jogo refinada – características que chamaram a atenção de vários clubes sul-americanos e europeus.
A polêmica chegada ao Atlético
No início de 1972, o Atlético Mineiro era o atual campeão brasileiro (título conquistado em 1971) e queria se reforçar para manter a hegemonia. A diretoria, presidida por Nelson Campos, mirou em Mazurkiewicz – nome consagrado e disponível após sua saída conturbada do Peñarol. A saída, diga-se, foi marcada por vaias e acusações de “traidor” por parte da torcida carbonera, que não aceitava a ida do ídolo para o exterior.
Mas a negociação com o Galo quase naufragou duas vezes, segundo relatos do Galo Digital, a enciclopédia oficial do Centro Atleticano de Memória. Na primeira reunião, os empresários do jogador tentaram aumentar os valores acertados verbalmente, o que fez Nelson Campos levantar-se e dar por encerrado o acordo. Dias depois, nova reunião: Mazurkiewicz pediu que o clube arcasse com o imposto de renda devido na transação, algo não previsto inicialmente. Os dirigentes, furiosos, novamente abandonaram a mesa.
“Conta-se que Nelson Campos já estava dentro do carro, pronto para ir embora do local do encontro, quando um funcionário correu atrás e gritou: ‘Presidente, o uruguaio aceitou a proposta final!’. Era noite, e só então a contratação se concretizou”, narra o registro histórico. Mazurkiewicz foi apresentado em fevereiro de 1972 e, apesar do imbróglio inicial, rapidamente caiu nas graças da torcida.
Passagem pelo Galo: títulos? Não, mas idolatria
Ao contrário do que se poderia esperar de um goleiro multicampeão, Mazurkiewicz não levantou troféus pelo Atlético. Na época, o futebol mineiro vivia sob o domínio do Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e Raul Plassmann, e o Galo amargou vices – perdeu o Campeonato Mineiro de 1972 para a Raposa na final, e o de 1973 também não foi alvinegro. No âmbito nacional, o time não repetiu o feito de 1971. Ainda assim, o goleiro uruguaio conquistou a torcida pela categoria, pelas defesas espetaculares e pela liderança silenciosa que exercia no vestiário.
“Ele era um cara sério, quase austero. Não ria muito. Mas dentro de campo transmitia uma segurança enorme. A zaga sabia que, se alguém furasse, lá estava o Mazurka para resolver”, lembra o ex-volante Vanderlei, que jogou ao lado do uruguaio, em depoimento ao Museu do Futebol de Belo Horizonte.
Em 89 jogos pelo Galo, Mazurkiewicz sofreu 85 gols – uma média de 0,95 por partida, excelente para a época. Ele estreou em 27 de fevereiro de 1972, num amistoso contra o Villa Nova (vitória por 1 a 0), e despediu-se em 23 de outubro de 1974, em um empate sem gols com o Cruzeiro, pelo Campeonato Mineiro. Curiosamente, seu último jogo foi contra o arquirrival – e ele saiu de campo aplaudido pelas duas torcidas.
Prêmio Yashin (melhor goleiro) de 1970: um feito raro
O prêmio de melhor goleiro da Copa do Mundo, oficialmente chamado de Luva de Ouro (antigo Prêmio Yashin), começou a ser concedido em 1994 para os goleiros, mas a FIFA reconhece retrospectivamente os melhores arqueiros das edições anteriores. Assim, Mazurkiewicz foi oficialmente designado como o melhor goleiro do Mundial de 1970, à frente de grandes nomes como o italiano Enrico Albertosi e o brasileiro Félix, que foi campeão e também teve excelente campanha.
É um feito que coloca o uruguaio em um seleto grupo de lendas – Yashin, Banks, Zoff, Schumacher, Taffarel, Kahn, Buffon, Neuer. Nenhum outro goleiro que passou pelo Atlético conseguiu esse título individual máximo em Copas do Mundo. Taffarel foi campeão em 1994 e pegou pênaltis decisivos, mas o prêmio de melhor daquele mundial ficou com Preud’homme. Victor e Everson, embora ídolos, nunca disputaram uma Copa como titulares.
A carreira após o Atlético e a morte
Depois de deixar o Galo em 1974, Mazurkiewicz seguiu para o futebol espanhol, onde defendeu o Granada por uma temporada. Posteriormente, jogou no Cobreloa (Chile) e no América de Cali (Colômbia), antes de retornar ao Peñarol em 1981, aos 36 anos. A volta foi triunfal: ele conquistou seu quarto Campeonato Uruguaio naquele mesmo ano e se aposentou dos gramados. Ao todo, sua carreira somou mais de 500 partidas.
Fora dos campos, Mazurkiewicz viveu discretamente no Uruguai. Trabalhou como treinador de goleiros em categorias de base e, raramente, dava entrevistas. Em 2 de janeiro de 2013, faleceu em Montevidéu aos 67 anos, vítima de complicações renais. A notícia foi recebida com pesar no Atlético, que emitiu nota de pesar e fez um minuto de silêncio antes de uma partida no Independência. A torcida atleticana, através de redes sociais, resgatou vídeos e fotos do “Chiquito” em ação.
Hall da Fama e legado
Atualmente, Mazurkiewicz é um dos cinco goleiros presentes no Hall da Fama do Atlético Mineiro, ao lado de Victor, João Leite, Kafunga e Taffarel. O clube mantém a política de não incluir atletas em atividade, por isso Everson – titular absoluto desde 2020 e ídolo da torcida – ainda não consta da lista, mas é dado como certo que futuramente ingressará.
O reconhecimento a Mazurkiewicz, no entanto, vai além das placas e dos museus. Seu estilo de jogo influenciou gerações de goleiros baixos que tiveram de compensar a altura com agilidade e inteligência. No Uruguai, ele é lembrado como um dos maiores arqueiros da história da Celeste, ao lado de Roque Máspoli e Fernando Muslera. Em Belo Horizonte, sua passagem relâmpago – apenas dois anos e meio – foi suficiente para criar uma lenda.
“Mazurka não ganhou títulos no Galo, mas ganhou o coração da torcida. E isso, em nossa terra, vale mais do que qualquer taça”, resume o historiador atleticano Ricardo Goulart, autor de “Galo: 100 anos de história”. “Ele chegou como um goleiro que havia encarado Pelé de igual para igual e saiu como um símbolo de que, às vezes, a grandeza não está nos troféus, mas na memória afetiva que se constrói.”



