Ernandes Ferreira
Presidente da CDL Montes Claros
O Brasil volta a discutir um tema relevante e sensível: a mudança na jornada de trabalho, com a proposta de substituição da escala 6×1 por um modelo de 5×2.
À primeira vista, trata-se de uma proposta que dialoga com um desejo legítimo da sociedade: mais qualidade de vida, mais tempo com a família e mais equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
E esse é, sem dúvida, um objetivo justo.
Mas, como toda decisão estrutural, não basta a intenção. É preciso olhar para a prática.
O Brasil que debate essa mudança ainda convive com desafios econômicos importantes.
Juros elevados, inadimplência alta e consumo pressionado fazem parte da realidade. Nesse cenário, o pequeno e médio empresário enfrenta, diariamente, o desafio de manter sua atividade sustentável.
É justamente esse segmento — o comércio, os serviços e os negócios locais — que responde por grande parte da geração de empregos formais no país.
Qualquer alteração na dinâmica do trabalho impacta diretamente essa engrenagem.
A redução da jornada sem redução proporcional de custos aumenta, na prática, o valor da hora trabalhada.
Em alguns setores, isso pode ser absorvido.
Em outros, especialmente naqueles com margens mais apertadas e operação contínua, o impacto é mais sensível.
E aqui entra um ponto essencial.
Existem setores que não podem parar.
Hospitais, serviços de saúde, segurança, postos de combustíveis e farmácias funcionam todos os dias.
Da mesma forma, há setores cuja maior demanda ocorre nos finais de semana e feriados, como supermercados, shoppings, restaurantes, turismo e lazer.
Nesses casos, a mudança de jornada não é apenas uma questão interna. Ela interfere diretamente na capacidade de atendimento e na sustentabilidade da operação e tende, inevitavelmente, a chegar até o consumidor.
Quando ampliamos o olhar, percebemos que o impacto não se limita às empresas.
Ele alcança a dinâmica das cidades.
O comércio, os serviços, o turismo e o lazer são motores da economia local. Geram empregos, movimentam renda e sustentam o desenvolvimento urbano.
Mudanças estruturais precisam considerar essa realidade.
Outro ponto que merece atenção é a velocidade com que o tema tem avançado no debate público.
Assuntos dessa natureza exigem profundidade, diálogo e construção coletiva.
Não se trata de ser contra ou a favor.
Trata-se de fazer certo.
Ao longo da minha trajetória, vivi diferentes realidades: comecei a trabalhar ainda jovem, passei pelo emprego formal e, posteriormente, pelo empreendedorismo.
Cada fase teve seu valor. O emprego trouxe segurança e aprendizado.
O empreendedorismo trouxe responsabilidade e construção.
E algo foi determinante em toda essa caminhada: a possibilidade de evoluir conforme os objetivos de cada momento.
Essa flexibilidade faz diferença.
Há quem busque mais equilíbrio.
Mas há também quem queira trabalhar mais, crescer mais e construir seus projetos com intensidade.
O desafio está em não engessar essas possibilidades.
O Brasil não precisa colocar trabalhador e empresa em lados opostos.
Precisa entender que um depende do outro.
Não existe emprego sem empresa.
E não existe desenvolvimento sem equilíbrio.
Se bem construída, com transição responsável e atenção às diferentes realidades, a proposta pode representar avanço.
Mas, se conduzida de forma simplificada, o risco é gerar efeitos contrários aos desejados.
O momento pede menos pressa e mais responsabilidade nas decisões.
Porque decisões estruturais precisam ser sustentáveis no tempo.
Quem está no dia a dia sabe: no final, a conta precisa fechar.



