Entre aromas de café, histórias de eventos inesquecíveis e memórias de uma Montes Claros ainda cheia de ruas de terra, Luciano Macedo — o carismático “Lú do Café do Lú” — abriu o coração em uma conversa descontraída com a jornalista Paula Pereira. Da infância simples no bairro Santa Rita até a paixão pela gastronomia e pelos cafés especiais, ele relembrou trajetórias, desafios, amores e curiosidades de quem transformou o ato de servir em missão de vida.
PAULA PEREIRA: Lú, me conta um pouco sobre sua infância. Quem é o Luciano antes do Café do Lú?
LUCIANO MACEDO: Meu nome completo é Luciano Macedo Rodrigues. Sou filho do Regino e da Marli. Meu pai trabalhou a vida inteira em restaurantes aqui de Montes Claros, como garçom. Passou por lugares tradicionais, como Cristal, Redondo, Pizzarel… Minha mãe trabalhou nas antigas Pernambucanas quando era solteira e depois virou dona de casa. Nós somos quatro irmãos e todos os nomes começam com “L”. Era tradição da família (risos).
PAULA PEREIRA: Sua infância foi toda em Montes Claros?
LUCIANO MACEDO: Toda aqui. Nasci em 1978, no bairro Santa Rita, quando aquela região ainda parecia zona rural. Minha mãe conta que, no dia do meu nascimento, chovia tanto que a ambulância só conseguiu chegar na terceira tentativa. Hoje o Santa Rita é praticamente região central, mas naquela época era muito mato.
PAULA PEREIRA: E como era a rotina da família?
LUCIANO MACEDO: Muito simples. Meu pai sempre teve dois empregos. Trabalhava em restaurante e fazia eventos. A gente cresceu vendo isso. Nunca tivemos luxo. Então muito cedo eu aprendi que precisava trabalhar.
PAULA PEREIRA: Quando começou sua vida profissional?
LUCIANO MACEDO: Com 14 anos. Meu pai me levou para trabalhar em eventos. O primeiro foi no antigo Baco Buffet, numa inauguração. Eu entrei como garçom, mas quando vi aquelas comidas diferentes, os temperos, os nomes sofisticados… aquilo me encantou.
PAULA PEREIRA: Você lembra de algum prato específico?
LUCIANO MACEDO: Nunca esqueço de um salmão com endívias. Eu nem sabia o que era aquilo, mas achei lindo ouvir aquele nome. Foi ali que descobri minha paixão pela gastronomia.
PAULA PEREIRA: E depois você foi se profissionalizando?
LUCIANO MACEDO: Sim. Fiz cursos aqui e depois fui estudar no hotel-escola do Senac, em Barbacena. Passei quase um ano internado aprendendo cozinha, salão, hotelaria… foi quando me encontrei de verdade. Além da minha trajetória no setor bancário, sempre carreguei comigo algo que considero essencial: a paixão por lidar com pessoas. Trabalhar na Caixa Econômica Federal nunca foi apenas exercer uma função ou cumprir uma rotina profissional. Para mim, é uma verdadeira missão de servir, de estar próximo da população, ouvir histórias, orientar e ajudar da melhor forma possível.
Tenho uma grande paixão por atender pessoas. Esse contato humano é o que me motiva todos os dias. O trabalho vai muito além de números, contratos ou operações financeiras. O mais importante é oferecer um atendimento humanizado, olhar para as necessidades de cada cidadão com atenção, respeito e empatia.
Acredito que servir ao próximo faz toda a diferença, principalmente em tempos em que as relações estão cada vez mais automatizadas e superficiais. Gosto de criar essa conexão com a comunidade, porque vejo no atendimento uma oportunidade de contribuir positivamente com a vida das pessoas.
PAULA PEREIRA: Você viveu muitos anos nos bastidores dos eventos. O que mais marcou nessa experiência?
LUCIANO MACEDO: Evento é muito detalhe. A comida precisa estar perfeita, a bebida na temperatura certa, o som funcionando, a decoração impecável. E tudo isso mexe com o sonho das pessoas. Casamento, formatura, aniversário de 15 anos… aquilo fica na memória para sempre.
PAULA PEREIRA: É muita pressão?
LUCIANO MACEDO: Demais. Às vezes o evento inteiro estava perfeito, mas faltava uma espátula na hora do bolo e pronto: é disso que todo mundo vai lembrar. Eu sempre fui muito perfeccionista e isso começou a me desgastar emocionalmente.
PAULA PEREIRA: Você chegou a adoecer?
LUCIANO MACEDO: Sim. Tive depressão. Trabalhava nos Correios em Bocaiuva e continuava fazendo eventos aos finais de semana. Chegou um momento em que meu corpo e minha cabeça não estavam aguentando mais.
PAULA PEREIRA: E como nasceu o Café do Lú?
LUCIANO MACEDO: Eu não conseguia ficar longe dos eventos, mas precisava de algo mais leve. Aí pensei: por que não levar cafés especiais para festas? Porque no fim dos eventos sempre tinha aquela mesa de café tradicional. Eu quis transformar aquilo numa experiência gastronômica.
PAULA PEREIRA: E o público aceitou bem?
LUCIANO MACEDO: No começo, não. O pessoal achava estranho café em festa. Mas fui adaptando os cardápios conforme o perfil de cada evento. Em festa infantil, café gelado e sobremesas fazem sucesso. Em formaturas, cafés mais fortes e energéticos. Casamentos pedem uma linha mais sofisticada.
PAULA PEREIRA: Você percebe que o café especial ainda é pouco conhecido?
LUCIANO MACEDO: Muito. Muita gente nunca experimentou um café realmente bom. Quando a pessoa prova, percebe a diferença. Café tem terroir, igual vinho. A água muda o sabor, a moagem muda o sabor, tudo interfere.
“CAFÉ É EXPERIÊNCIA. É MEMÓRIA”
PAULA PEREIRA: Você fala de café quase como quem fala de arte.
LUCIANO MACEDO: Porque é uma experiência sensorial. O café potencializa sabores. Dá para usar canela, laranja, limão… cada detalhe muda tudo. E quando a pessoa aprende a tomar sem açúcar, ela descobre sabores que nunca tinha percebido.
PAULA PEREIRA: Você sonha em abrir uma cafeteria?
LUCIANO MACEDO: Não exatamente uma cafeteria tradicional. Meu sonho hoje é trabalhar mais com formação e divulgação dos cafés especiais, principalmente na área social. Mostrar para as pessoas que café não é só aquilo do dia a dia. Existe um universo enorme ali.
PAULA PEREIRA: E o amor? Como conheceu sua esposa?
LUCIANO MACEDO: Num casamento em Taiobeiras. Ela tinha 15 anos, eu 18. Foi minha primeira namorada e estamos juntos até hoje. Já são mais de 23 anos de casamento.
PAULA PEREIRA: Qual o segredo?
LÚ: Respeito e parceria. Nós dois sempre trabalhamos muito. Ela atua há mais de 20 anos na Santa Casa e também é professora do Instituto Federal. Somos muito companheiros.
PAULA PEREIRA: Depois de tudo que viveu, o que ainda te move?
LÚ: O prazer de servir. Ver uma pessoa feliz com algo que você preparou não tem preço. Eu sempre digo que o melhor pagamento é quando alguém termina o evento, olha pra você e fala: “Foi perfeito”.
PAULA PEREIRA: E olhando para trás, o que o menino do Santa Rita diria hoje?
LÚ: Acho que ele teria orgulho. Porque tudo veio do trabalho, da simplicidade e do amor pelo que faço. E isso continua até hoje.
PAULA PEREIRA: Você acredita que Montes Claros ainda precisa descobrir mais o universo dos cafés especiais?
LÚ: Muito. Hoje a gente ainda está engatinhando nisso. Falta formação, falta mão de obra especializada, faltam cursos. Tudo acaba ficando muito concentrado em Belo Horizonte ou em grandes centros. Então, quando aparece alguma oportunidade de capacitação, eu entro em contato com o pessoal das cafeterias daqui e incentivo todo mundo a participar.
PAULA PEREIRA: Existe demanda para isso?
LÚ: Demais. Tem cafeteria precisando de barista, de gente preparada para atender, entender grãos, métodos, moagem, roda sensorial… E não tem onde formar essas pessoas aqui. O custo para estudar fora é alto. Por isso eu tenho vontade de criar algo mais estruturado, talvez uma associação ou um espaço voltado para formação e troca de conhecimento sobre cafés especiais.
PAULA PEREIRA: E o café também quebra muitos preconceitos, né?
LÚ: Muito. Nos eventos isso fica claro. Tem muita gente que chega falando: “Ah, eu não gosto de café”. Mas, na verdade, ela não conhece outras possibilidades. Aí eu ofereço um frappuccino, um cappuccino diferente, um café gelado bem feito… a pessoa experimenta e se apaixona.
PAULA PEREIRA: Porque aqui em Minas o café já nasce com a gente.
LÚ: Exatamente. A gente cresce tomando café com leite desde pequeno. Então as pessoas acham que conhecem café porque tomam todos os dias. Eu sempre faço uma comparação: é como alguém que passou a vida inteira comendo só carne moída e acha que conhece carne. Aí um dia vai a um rodízio de carnes especiais e descobre um universo completamente diferente. O café é assim.
PAULA PEREIRA: Você já teve reconhecimento de grandes nomes da área?
LÚ: Tive uma experiência muito marcante no ano passado. Veio a Montes Claros um barista italiano que é referência mundial. Ele foi tricampeão italiano e bicampeão mundial de barismo. Eu costumo dizer que, no universo do café, ele seria como um Messi ou Cristiano Ronaldo.
PAULA PEREIRA: E como foi esse encontro?
LÚ: Me pediram para montar toda a estrutura da cafeteria para a visita dele. Eu tinha criado recentemente uma receita de cappuccino de caramelo salgado. Fiz, deixei lá, e ele experimentou. Depois perguntou se eu tinha intenção de participar de campeonatos de barismo, porque gostou muito da receita. Inclusive pediu para anotar o preparo.
Paula Pereira: Deve ter sido emocionante.
Lú: Muito. Porque quando uma pessoa desse nível reconhece algo que você criou, você entende que está no caminho certo.
PAULA PEREIRA: Você percebe uma mudança no gosto do público?
LÚ: Sim. O pessoal começou a perder aquele preconceito com café gelado. Porque muita gente associa café gelado àquele café velho da garrafa térmica que esfriou. Mas não é isso. O café especial gelado é outra experiência.
Paula Pereira: E os sabores fazem sucesso?
Lú: Muito. O frappuccino de doce de leite com paçoca sai demais. O prestígio, com chocolate e coco, faz sucesso nas festas infantis. Tem cappuccino de caramelo salgado, Ovomaltine, Nutella… o público começou a descobrir que café pode ser refrescante, sofisticado e divertido ao mesmo tempo.
PAULA PEREIRA: Você fala disso com muito entusiasmo.
LÚ: Porque eu sou apaixonado. E quanto mais estudo, mais vontade tenho de aprender. Café é um universo infinito.
PAULA PEREIRA: O café hoje é profissão ou paixão?
LÚ: Os dois. Mas principalmente paixão. Eu ouvi uma frase há alguns anos que levo comigo até hoje: toda pessoa deveria ter três hobbies na vida. Um que dê conhecimento, um que dê saúde e um que dê dinheiro. E o café, para mim, virou isso. Mesmo se ninguém me pagasse, eu continuaria fazendo.
PAULA PEREIRA: Porque existe prazer no processo.
LÚ: Exatamente. Tem cansaço, tem correria, mas quando você ama o que faz, aquilo vira combustível. É igual vocês no jornalismo. Você pode estar cansada, mas continua vibrando quando está produzindo algo que ama.
PAULA PEREIRA: É exatamente isso. O corpo reclama, mas a cabeça continua criando.
LÚ: E é isso que mantém a gente vivo. Quando você encontra algo que te dá prazer de verdade, aquilo deixa de ser obrigação e vira parte de quem você é.



