O Brasil passa a contar, a partir desta terça-feira (24), com uma das mais completas ferramentas de inteligência sobre a produção de trigo já desenvolvidas no país. A Embrapa lançou oficialmente a plataforma digital “Trigo no Brasil”, iniciativa que reúne, organiza e amplia dados estratégicos sobre toda a cadeia produtiva do cereal, desde o campo até o consumo final.
A ferramenta, desenvolvida em parceria entre a Embrapa Territorial e a Embrapa Trigo, com apoio de outras unidades da empresa, atende a uma demanda do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O lançamento ocorreu em Brasília, marcando um avanço importante no acesso a informações qualificadas para subsidiar políticas públicas, decisões de investimento e estratégias de crescimento da produção nacional.
Dados integrados e visão completa do setor
A plataforma reúne, em um único ambiente digital, informações que antes estavam dispersas em diferentes órgãos e relatórios. Em formato de painéis interativos, mapas e séries históricas, o sistema permite visualizar dados detalhados sobre produção, processamento, importação, exportação, empregos, custos, preços e infraestrutura relacionados ao trigo.
Os dados são organizados por microrregiões e abrangem tanto as áreas tradicionais de cultivo no Sul quanto as regiões de expansão no Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Essa abordagem territorial permite uma compreensão mais precisa da dinâmica da cadeia produtiva no país.
Segundo especialistas envolvidos no projeto, a iniciativa vai além da simples compilação de dados. A plataforma incorpora análises técnicas realizadas por profissionais com ampla experiência no setor, agregando inteligência estratégica às informações disponíveis.
“Buscamos identificar a localização dos principais agentes da cadeia para compreender sua dinâmica, considerando a distribuição geográfica, o número de atores e a evolução histórica dos indicadores”, explica o analista da Embrapa Trigo, Álvaro Augusto Dossa.
Desafio da autossuficiência
Um dos principais objetivos da plataforma é contribuir para que o Brasil avance rumo à autossuficiência na produção de trigo. Atualmente, o cereal é o único entre as grandes cadeias de grãos em que o país ainda depende significativamente de importações.
Em 2024, o Brasil importou cerca de 7 milhões de toneladas de trigo, principalmente da Argentina. Por outro lado, o país também vem ampliando sua presença no mercado internacional como exportador. Entre 2020 e 2025, o volume exportado cresceu 11,5 vezes, alcançando mercados na Ásia, África e Oriente Médio.
A plataforma evidencia esse cenário dual, no qual o Brasil ainda importa grandes volumes, mas já demonstra potencial para ampliar sua produção e reduzir a dependência externa. Nesse contexto, a expansão do cultivo no Cerrado é apontada como estratégica.
“A conexão entre as regiões produtoras é fundamental. Não podemos olhar apenas para o Cerrado de forma isolada, pois o consumo é expressivo em regiões como o Nordeste”, destaca Dossa.
Análise inédita sobre irrigação
Um dos grandes diferenciais da plataforma é a apresentação de uma análise inédita sobre o uso de irrigação na produção de trigo, especialmente no Brasil Central. A equipe da Embrapa desenvolveu uma metodologia própria para estimar a proporção de áreas irrigadas e de sequeiro, com base em dados de produtividade e uso de tecnologias.
Os resultados indicam que, na região estudada, a produção média anual entre 2019 e 2022 alcançou cerca de 314,8 mil toneladas em áreas irrigadas, gerando um valor estimado de R$ 67,1 milhões. Já o sistema de sequeiro ainda predomina, com produção próxima a 560 mil toneladas anuais.
A distinção entre esses sistemas é considerada essencial para o planejamento da expansão da cultura e para a adoção de tecnologias mais eficientes no campo.
Sementes, indústria e mercado
Outro destaque da ferramenta é o painel dedicado à produção de sementes. A partir de dados brutos disponíveis em bases oficiais, a equipe da Embrapa realizou um trabalho de curadoria e análise para identificar a oferta de sementes por tipo de uso e a predominância de cultivares novas ou tradicionais.
“O trabalho exigiu interpretação técnica para transformar dados dispersos em informações úteis para o setor”, ressalta o analista Hilton Ferraz da Silveira, da Embrapa Territorial.
A plataforma também traz dados detalhados sobre a indústria e o comércio de derivados do trigo, incluindo a produção de massas, pães, biscoitos e farinha. Informações sobre empregos e número de estabelecimentos são apresentadas por microrregião, permitindo análises comparativas em todo o território nacional.
Logística e infraestrutura
Os mapas disponíveis mostram ainda a distribuição de cooperativas, moinhos e armazéns, evidenciando gargalos logísticos que impactam a cadeia produtiva. Em regiões de expansão, por exemplo, a ausência de infraestrutura adequada pode limitar o crescimento da produção.
Além disso, a ferramenta detalha o fluxo do comércio internacional, indicando os principais portos de entrada e saída do trigo. Em 2024, o Brasil exportou cerca de 2,9 milhões de toneladas, com destaque para o Porto de Rio Grande (RS), enquanto as importações se concentraram no Porto de Santos.
Cenários para expansão
A plataforma também projeta cenários para o aumento da produção nacional. Entre as estratégias analisadas está a redução das chamadas “lacunas de produtividade”, ou seja, a diferença entre o rendimento atual e o potencial das lavouras.
Em regiões do Sul, estudos indicam que seria possível ampliar significativamente a produção apenas com a adoção de melhores práticas agrícolas. Em paralelo, a expansão da área plantada, especialmente em regiões com zoneamento favorável, pode adicionar entre 4 e 5 milhões de hectares ao cultivo de trigo no país.
Ferramenta estratégica para o futuro do agro
Baseada nos conceitos de Inteligência Territorial Estratégica, a plataforma “Trigo no Brasil” se consolida como uma ferramenta fundamental para o planejamento do setor agrícola. Ao integrar dados, análises e projeções, ela permite identificar oportunidades, gargalos e caminhos para o fortalecimento da cadeia produtiva do cereal.
Para especialistas, a iniciativa preenche uma lacuna histórica de informações organizadas e acessíveis, abrindo caminho para decisões mais assertivas tanto no setor público quanto na iniciativa privada.
Com o lançamento, o Brasil dá um passo importante rumo à modernização da gestão agrícola e ao fortalecimento de uma cultura estratégica para a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico do país.



