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EDITORIAL | YARA TUPYNAMBÁ: A doutora das cores, dos gerais e da memória - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | YARA TUPYNAMBÁ: A doutora das cores, dos gerais e da memória

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Há gente que nasce para ocupar cargo. Há quem passe pela vida colecionando diplomas, carimbos e solenidades. E há aqueles raros seres humanos que se transformam em patrimônio vivo antes mesmo que qualquer instituição perceba o tamanho da sua grandeza. Yara Tupynambá pertence a esse segundo tempo da eternidade — o tempo dos que deixam marcas nas paredes, nas cidades, nas gerações e na alma de um povo inteiro.

Agora, aos 94 anos, a Universidade Federal de Minas Gerais lhe entrega oficialmente o título de doutora em Artes por Notório Saber. Bonito. Justo. Necessário. Mas convenhamos: Yara já era doutora muito antes do papel. Doutora da sensibilidade. Doutora do silêncio das tintas. Doutora da memória mineira desenhada em mural. Doutora das mãos que transformaram parede em poesia.

E há uma beleza funda nisso tudo acontecer de forma reservada, dentro da casa-ateliê da artista, longe do barulho das pompas acadêmicas, cercada talvez apenas pelas próprias telas, pelas tintas envelhecidas e pelos fantasmas luminosos da arte que ela ajudou a construir no Brasil. Parece até cena de romance antigo das Minas Gerais: uma mulher cercada pela história enquanto recebe, em vida, o reconhecimento que tantas vezes o país demora a conceder aos seus verdadeiros gigantes.

Yara vem de Montes Claros. E isso não é detalhe. O Norte de Minas imprime nos filhos uma espécie de resistência silenciosa. O povo geraizeiro aprende cedo a conviver com o tempo longo, com a seca, com a distância, com a necessidade de florescer mesmo em terra difícil. Talvez por isso sua arte carregue tanto chão, tanta brasilidade, tanta humanidade. Há nas cores de Yara um sertão inteiro respirando.

Ela atravessou quase um século sem perder a delicadeza do olhar. Passou por escolas, salões, bienais, países e continentes, mas nunca abandonou a essência mineira que pulsa em sua obra. Discípula de mestres como Alberto da Veiga Guignard e Franz Weissmann, construiu um caminho próprio, sem se render aos modismos passageiros que tantas vezes fazem a arte perder a alma.

Enquanto o mundo corria atrás do novo pelo novo, Yara permaneceu fiel ao gesto humano, à figura, à narrativa, à memória. Seus murais espalhados por Minas e pelo Brasil contam histórias como quem reza. Não são apenas pinturas. São testemunhos. São documentos afetivos de um país.

Talvez seja isso que torne tão simbólico esse reconhecimento da UFMG. Não se trata apenas de um diploma tardio. Trata-se de a universidade reconhecer que o saber não mora apenas nas teses encadernadas. Há um saber que nasce da experiência, da criação, da entrega absoluta de uma vida à construção da cultura.

E quantos artistas brasileiros não morreram esperando esse gesto? Quantos mestres populares, pintores, músicos, escultores e escritores atravessaram décadas sendo tratados como acessórios da história, quando na verdade eram eles os verdadeiros construtores da identidade nacional?

Yara recebe agora o título que faltava no currículo acadêmico, mas sobra no currículo da vida. Sua obra já estava aprovada há muito tempo pelo povo, pelos estudantes, pelos corredores da memória mineira e pelas paredes que ela eternizou com cor e sentimento.

Há também algo profundamente humano nessa cerimônia realizada após o AVC sofrido pela artista em 2023. O tempo, inevitavelmente, cobra tributos do corpo. Mas existe um lugar onde o tempo não consegue tocar: a obra. E Yara já pertence a esse território onde os artistas deixam de ser apenas pessoas para se tornarem permanência.

Seus murais continuarão de pé quando muitos discursos tiverem desaparecido. Seus traços sobreviverão às modas, às crises e às distrações de um mundo cada vez mais acelerado e superficial.

Em tempos em que a cultura frequentemente é tratada como luxo descartável, reconhecer uma artista de 94 anos também é um ato político no sentido mais nobre da palavra: afirmar que memória importa. Que arte importa. Que educação importa. Que o Brasil não pode continuar esquecendo aqueles que ajudaram a desenhar sua própria identidade.

E talvez o Norte de Minas compreenda isso de maneira ainda mais profunda. Porque o sertanejo sabe reconhecer seus mestres. Sabe o valor dos mais velhos. Sabe que existe sabedoria em quem atravessou décadas sem endurecer o coração.

Yara Tupynambá agora recebe um diploma. Mas o que emociona não é o papel. É o simbolismo. É ver uma mulher quase centenária ser abraçada pela instituição que ajudou a construir. É perceber que ainda há tempo para o reconhecimento em vida. É saber que Minas, vez ou outra, ainda consegue reverenciar seus artistas antes do silêncio definitivo.

No fundo, o que a UFMG entrega a Yara não é apenas um título acadêmico. É um pedido coletivo de obrigado.

Obrigado pelas cores.

Obrigado pelos murais.

Obrigado por transformar parede em memória.

Obrigado por carregar Montes Claros e Minas Gerais para dentro da história da arte brasileira.

Porque há artistas que pintam quadros. E há artistas que pintam o próprio tempo.

Yara Tupynambá pertence a essa última categoria.