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Do cordel à memória: quando o valor volta à origem - Rede Gazeta de Comunicação

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Do cordel à memória: quando o valor volta à origem

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Saí do festival com uma sensação curiosa:

não assisti apenas a falas — assisti ao tempo.

Três autores.

Três momentos.

Quase como uma linha invisível entre passado, presente e futuro.

O primeiro a falar trouxe o cordel.

Curto, direto, ritmado.

Um convite possível para quem diz não ter tempo.

Ali estava o retrato do presente:

leitores apressados, atenção disputada,

e a tentativa legítima de caber no tempo de quem quase não tem tempo.

Depois veio a memória histórica.

O resgate de um herói local, a Força Expedicionária Brasileira,

a lembrança organizada em narrativa.

Ali, o passado ganhava forma.

Não como saudade apenas —

mas como registro de identidade.

E, por fim, a memória vivida.

A rua, os vizinhos, os nomes reconhecidos na plateia.

Foi ali que uma ideia voltou a martelar minha cabeça:

se não se registra, é como se não tivesse existido.

Lembrei do meu pai —

não apenas pelo que dizia,

mas pelo jeito como vivia: registrando.

Como quem sabe, sem alarde,

que a memória precisa de corpo para continuar.

Porque a memória também tem alcance.

Ela abraça quem viveu —

mas pode não atravessar o tempo sozinha.

E foi nesse ponto que tudo se conectou, para mim.

Lembrei da chamada economia da experiência,

que aprendi com Paula Falcão, in memoriam.

Primeiro, o valor estava na extração:

tirar o leite, colher os ovos, moer o trigo.

Depois, passou para a produção:

o bolo feito.

Em seguida, para a entrega:

alguém faz e leva até você.

E então chegamos à experiência:

o bolo virou cenário, festa, personagem, memória afetiva.

Mas, ouvindo aqueles autores, me ocorreu um desvio interessante:

— e se o valor estiver voltando?

Não à extração literal,

mas à origem do sentido.

Ao que é vivido de verdade.

Ao que é lembrado.

Ao que precisa ser registrado para não desaparecer.

Talvez o futuro não esteja em produzir mais conteúdo,

mas em resgatar o que ainda não foi dito.

Não em acelerar a leitura,

mas em dar motivo para ela existir.

Entre o cordel que cabe no tempo,

a história que organiza o passado

e a memória que insiste em permanecer,

existe um movimento silencioso:

o de voltar à essência.

Porque, no fim,

o que não é vivido… não marca.

e o que não é registrado… não fica.

E talvez seja isso que estejamos reaprendendo:

que toda experiência, antes de ser compartilhada,

precisa primeiro ser… sentida.